segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Então Alima, como vai a tua vida nos estágios?

Digamos que deixei um serviço complicado na área da Pediatria em que dava cabeçadas contra a parede por ver miúdos tão profundamente doentes para me enfiar noutro serviço bem chato da cirurgia.
Durante os últimos dias e muito provavelmente durante os próximos, observei e observarei centenas de mulheres com patologia mamária.

Sinto um enorme aperto quando vejo mulheres da minha idade ou pouco mais velhas que eu a deslocarem-se às consultas, ou para fazerem pensos pós-mastectomias ou para saberem resultados daquelas biópsias. Mulheres que foram desleixadas toda a vida no que respeita a exames médicos até ao dia em que ficaram doentes, mulheres que realizavam os exames médicos constantemente porque a sua mãe ou irmã tiveram neo da mama, mulheres cujo o tumor as surpreendeu com uma simples apalpação mamária.

Cada mulher que entra no consultório, é uma mulher diferente. Nunca sei o que posso contar antes de cada mulher retirar o sutien para mostrar as cicatrizes ao médico.  Maior parte das feridas não têm vestígio de sequela, ou sem têm, são subtis, mas há aquelas feridas com cheiro nauseabundo e de aspecto atroz que nos fazem pensar qual o limite da decência e da decandência a que uma mulher pode ser submetida.
Felizmente tenho visto casos de sucesso, de mulheres que tiveram neoplasia da mama, lutaram e passados 10-20 anos ainda cá estão para contar sobre a sua luta. Mas como infelizmente a sorte não toca a todos, compadeço-me daqueles casos em que de surdina oiço "ela ainda não sabe, mas já tem metástase no pulmão".

Em termos humanos, é dos serviços que mais me tem sensibilizado por afectar mulheres dos 18 aos 100. É impossível não deixarmos o serviço sem ponta de revolta, de pena.
No entanto, sinto que muitas destas mulheres não estão a ter o acompanhamento que deveriam. Infelizmente não há resposta por todos os casos por parte da assistente social, da psicologia, da fisioterapia...
Como está a ser este estágio? Profundamente enriquecedor, profundamente inspirador, profundamente triste...

0 impressões:

Enviar um comentário