quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Quando sei que a minha casa da aldeia está em risco de ser consumida pelas chamas...

Sinto pânico. Pânico.  Arouca revive o cenário de 2005. Eu estava lá em 2005 e aquele episódio se tornou inolvidável na minha memória.
Tenho seguido tudo o que seja redes sociais e feito zapping em canais informativos. Estou a 2h de viagem da aldeia e sinto-me impotente. Ainda de braço engessado não posso conduzir.

Assisto em directo o incêndio em Ponte de Telhe, Janarde, Meitriz, Covelo de Paivó. Estou estarrecida. Aldeias que conheço tão bem.  Quando vejo uma reporter da TVI em directo da minha aldeia a relatar o caos que está eminente a fustigar na própria aldeia, sinto-me em pânico. Contacto um primo emigrante em França que está de férias em Portugal que pinta o cenário negro. Contacto um velhote que está responsavel por zelar pela minha casa na nossa ausência e pinta o cenário ainda mais dantesco.
Interrompo um convívio entre amigos para vir para casa e seguir atentamente as redes sociais e a TV.  Alguém no convívio diz que a culpa é das pessoas que não limpam as matas. Pergunto onde estão essas pessoas que são capazes de limpar matas, uma vez que a população da Serra da Freita é predominantemente idosa, logo incapazes de trabalhar os terrenos e de ter vacas ou cabras para se alimentarem do mato. Através do facebook leio os relatos de amigos que estão a presenciar tudo isto ao vivo. São publicadas fotos terriveis.
Vejo fotos do centro da vila de Arouca e estou impressionada. Sinto-me revoltada. Transtornada. Rezando a Sta Bárbara, padroeira da freguesia, cuja festa em honra dela é já este fim-de-semana para que ainda conserve alguma dignidade verde naquela serra. Rezando para que volte ver todo o casario intacto.  A minha querida serra da Freita está a ser transformada num manto de cinzas. A minha estimada Arouca a ficar abafada. E eu vou tentar descansar com a sensação de murros no estômago e de uma péssima sensação de impotência.

Uma vez que a aldeia está rodeada de mato serrano e árvores e acessos deficientes o risco sempre foi elevado. Um dia pode ficar dizimada em cinzas. Rezo para que não seja agora.

sábado, 6 de agosto de 2016

Carta àquele que lhe dói os ouvidos.

Cara pessoa,
Se pensas que fiquei ofendida ou triste ou revoltada com a tua atitude infantil de subitamente te aparecer uma doença típicas de miúdos, isto é, uma otite, fica sabendo que estou-me completamente a marimbar. Talvez esse teu problema seja o reflexo do que ainda o és: um puto.

Num passado longínquo eu estaria hiper preocupada com a tua situação. Aquele meu instinto protector e maternal viria ao de cima, tentaria fazer de tudo para amenizar o teu problema. Acontece que à medida que fui envelhecendo (e porque comecei a ganhar calo e insensibilidade em certas situações), deixei de me preocupar tanto com os outros. Sou simpática e posso ser prestável, bem o sabes. No entanto sei ser uma pessoa extremamente insensível. 

Eu estabeleci uma espécie de termómetro que começa em 100ºC. Cada situação que me desagrada, vou baixando a temperatura. Nesse passado longínquo, eu iria reduzindo muito gradualmente, aceitando me auto-humilhar, fazer-me de parva e dando vezes sem conta o benefício da dúvida. Actualmente o meu termómetro reduz a temperatura a uma velocidade muito maior. Rapidamente chega a uma temperatura fria e que não estou disposta a aquecer de novo. Afinal dá trabalho buscar mais lenha. E como reduzo a temperatura? Passando para a indiferença. Começo logo por começar a apagar as tuas mensagens. Posteriormente o teu contacto. Finalmente a esquecer a tua existência. E não te passa pela cabeça o quão rápido consigo fazer isso. "Ah e tal, se gostasses mesmo de alguém não serias tão fria", pensas tu. Meu caro, antes de gostar de alguém, tenho OBRIGATORIAMENTE de gostar de mim primeiro. Sou a principal divindade que devo amar. Depois de mim, sempre os outros. Sempre.  E citando Eleanor Roosevelt, essa mulher tão brilhante quanto qualquer outra mulher, ninguém te pode fazer sentir inferior sem o teu consentimento. E tu não és ninguém para me rebaixar.

Portanto meu caro, o facto de gostar mais de mim do que de ti, faz de mim a jogadora profissional desde tabuleiro. Eu dito as regras, e tu, se queres alinhar no jogo, deves obedecer. No momento em que não me respondes a uma mensagem que te envio de cortesia a perguntar se estás melhor, acredita... está o caldo entornado! Caso não estejas preparado para jogar, ou caso não queiras jogar, agradeço que me avises. Não sou pessoa de perder tempo com pessoas que não merecem...




Alima


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Dos irmãos que ganhamos com os Erasmus

A minha irmã turca que já não vejo pessoalmente desde 2012 vai-se casar dentro de dois meses.

Quando a conheci, estava noiva de um afegão que estudava medicina na Turquia, mas a coisa azedou quando ele lhe disse que assim que se casassem, ela iria viver em Cabul com a mãe dele, para fazer companhia à velha, logo não poderia exercer qualquer actividade laboral em Cabul por dois motivos: primeiro era mulher, segundo, é considerada "propriedade" do maridão.
Durante o tempo que vivemos juntas, alertei para a gravidade da situação, ao qual ela, meses mais tarde fez um manguito ao afegão e às suas ideologias machistas.

Há cerca de dois anos, ela disse-me que começou a namorar com um turco decente, também médico como ela,  Assim que tiver o título de mulher casada, vai deixar Istambul e emigrar para a Alemanha. E como isso me deixa feliz! O meu coração palpita sempre que vejo as tragédias que estão a ocorrer na Turquia. Tudo me faz pensar que ela está metida algures naquela confusão. E ainda bem que as redes sociais existem para trocarmos umas mensagens...


Sinto que poderei estar mais próxima dela assim que ela for trabalhar para a Alemanha. Ela jura a pés juntos que nunca virá visitar-me a Portugal porque considera nojento o facto de comer arroz de sangue ou tripas de porco e que tem a certeza que a obrigaria a provar tais iguarias. Que silly sister eu tenho...! Ela não sabe que vai perder a melhor gastronomia do mundo...