sexta-feira, 15 de abril de 2016

Do Sr. Jeremias

O Sr Jeremias é um velhote que foi "adoptado" lá em casa há cerca de 16 anos.
Numa manhã outonal de caça, meteu conversa com o meu pai, gabou-lhe a perícia fantástica que o meu pai tinha para caçar tordos e lentamente começou a fazer grupo com o meu pai nos domingos de caça vindouros. Claro que era um grande benefício para o velhote, já que o meu pai dava-lhe uns quantos torditos.

Poveiro de coração, esteve na guerra de Ultramar na Guiné-Bissau e de lá não saiu bem. Não saiu bem nem fisicamente e muito menos psicologicamente. Pelos vistos, uma granada praticamente matou-o. Praticamente matou a ele e a dois ou três camaradas que sobreviveram, mas matou os restantes que iam na carrinha.
Além das próteses aqui e ali e de uma surdez, o rebentamento da granada fustigou-o por dentro. Dava-lhe a macacoa duas vezes por ano: uma na primavera e outra no outono. Bebia até cair, fazia mil e um disparates, pegava na espingarda e dava tiros para o ar. Um dia, pegou numa marreta e destruiu o carro todo. Foi preso por desacato e graças à intervenção do meu pai, a coisa podia ter ficamos mais feia para o lado dele.
O meu pai, também militar, um dia definiu-me aquilo como Stress Pós-Guerra, termo que aprendi mais tarde nas minhas andanças pela psiquiatria.

O sr Jeremias era um homem que fez de tudo um pouco: foi taxista, carpinteiro, padeiro, electricista, jardineiro, peixeiro. Tornou-se o jardineiro lá de casa. E queria exclusividade nisso. Um dia, ofereci uma magnólia de flor branca à minha mãe (a minha favorita) que plantamos no jardim. O homem só descansou quando conseguiu matar a planta com kilos  de sal que lançava à socapa.
O homem ficou zangado comigo quando me apercebi que deitava veneno de ratos nos muros do jardim para matar os pássaros. Depois de ter ligado ao meu pai, que na altura trabalhava em Lisboa, a contar o sucedido, peguei numa vassoura e numa pá, e só descansei até ter retirado qualquer vestígio de veneno no jardim.

Os meus cães (Yorkshire Terrier) fugiam de medo do sr. Jeremias. Mal o viam, escondiam-se o máximo possível. Claro que foi um sinal de alerta de que possivelmente ele fazia mal aos bichinhos. E foi preciso uma chamada de atenção séria para que ele não voltasse a importunar os cães.


Apesar de todos os defeitos, todos tínhamos o Sr. Jeremias em grande estima...


... até ao dia em que o meu pai ficou doente.

... E o homem nem se aproximava de nós. Um dia perguntei-lhe porque a sua atitude e ele teve o descaramento de me dizer que não se queria aproximar de um doente oncológico porque tinha medo que  ficasse contagiado, ou que a quimioterapia emitisse radiações...

Já depois do meu pai ter falecido, teve o descaramento de dizer à minha mãe de que nós agora não somos ninguém. Deixou o nosso jardim, deixou de nos falar. Passamos a ser estranhos.

Cortamos praticamente relações com o velhote. Ficamos-nos pelo Bom dia e Boa tarde a que ele muitas vezes não respondia. Via-o muitas vezes porque tornou-se jardineiro da casa do lado.

Coincidência das coincidências, soube no dia em que fez dez anos que o meu pai faleceu que o velhote está há dois meses internado no hospital por um AVC. Estranhamente muitas vezes nos perguntávamos que não o víamos há algum tempito.

Devo-o ir visitar ao hospital?


3 impressões:

Lia disse...

Eu telefonava-lhe. E dizia só que não o ia visitar porque tinha medo que as bacterias hospitalares se pegassem à roupa.

humming disse...

Não tens dever nenhum. Uma visita tua era muito digno, Alima. Não deve ter muita gente visitá-lo. Às vezes um gesto atencioso faz tanta diferença.

Alima das Cartas disse...

Infelizmente o homem está senil e já não reconhece ninguém...

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