terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Na semana passada faleceu mais um tio-avô

Quando penso no velho tio Herculano, não penso nele como o velhinho que arrastava os pés na sua marcha parkinsonica, nem no velhinho desacordado, todo cheio de fios que vi naquela cama de hospital no fim-de-semana antes da sua morte. Gosto de pensar no tio Herculano, sem ser o velho tio Herculano.
O tio Herculano em moço emigrou para o Brasil. Nos pouquíssimos meses que lá ficou, trouxe com ele um sotaque brasileiro que nunca mais largou, cara.
Era um senhor que vivia numa aldeia na zona agreste da Freita, mas era um senhor que não prescindia de duas coisas: da televisão, que vivia na sua fria e desconfortável sala e dos seus cigarritos. Aliás, a primeira vez que vi cigarros de enrolar, foi na mão dele. Um dia mostrou-me a sua maquineta de enrolar cigarros, que parecia uma guilhotinazita e eu segui atentamente todo o processo de enrolar cigarros, admirando a sua perícia. Sem querer, sempre que vejo alguém com essas máquinas, associo sempre ao tio Herculano, e ao ritual todo que me deixou admirada, tinha eu seis anos de idade. 

Não me lembro de ver aquela criatura a executar qualquer tarefa em casa... Nem a plantar batatas, nem a levar o gado para o monte, nem a fazer o quer que fosse... só me lembro dele a ver televisão. Ah... e tenho um flash de vê-lo empoleirado no telhado da minha casa a acertar a ardósia, que serve de pedra-telhado... isto porque já não havia gente competente a montar telhados de ardósia...

Quando a sua filha mais nova ainda vivia com ele, isto é quando era ainda cachopa solteira, visitar os meus avós paternos significava sempre uma visitinha à prima Bernardete. Nas muitas idas até à casa deles, aprendi com eles a jogar às cartas. Guerra, Burro e Orelha eram os jogos que mais gostava de jogar com eles, por serem elementares para a miúda pequena que eu era.

Mas se havia altura em que gostava mesmo mesmo mesmo de visitar o tio Herculano, era durante o mês de Agosto, isto porque os seus filhos emigrantes em França voltavam à terrinha e traziam com eles várias qualidades de rebuçados espanhois. Muitas vezes acompanhava-os até ao café da aldeia mais próxima e deixavam-me escolher os Magnums, gelados tabu na época lá em casa por serem dos mais caros. 

O tio Herculano falou-me pela primeira vez da bandeira espanhola, tinha eu seis-sete anos. Isto porque eu tinha umas sapatilhas da loja dos trezentos de cor amarela e vermelha.  Eu na altura só conhecia a bandeira portuguesa por ser aquela que estava empoleirada nos edifícios estatais.Ele disse-me "Tens umas sapatilhas com a bandeira espanhola!" Eu tirei uma das sapatilhas e constatei que na parte interna estava escrito "Made in China". O homem disse com um toquezinho de irritação: "Malditos chineses que agora fazem tudo... até sapatilhas com a bandeira de espanha! Qualquer dia eles vêm para ocupar a Europa toda". Tal profecia começou a concretizar-se alguns anos depois. 

O tio Herculano ficou velhote. Sempre que ia à aldeia, passava sempre lá para dar um olá. Apesar da sua demênciazita, lá me reconhecia quando eu me apresentava como a neta da "velha da Carreira", sua irmã. E lá dava uma gargalhadazita para disfarçar o seu embaraço quando lhe custava identificar-me... mas depois lembrava-se de mim como a "sobrinha doutora".

Soube que ele foi hospitalizado pela altura do Reis. Disse à minha mãe que fazia questão em ir despedir-me dele. Naquela enfermaria no serviço de medicina, estava ele e mais três pessoas como ele: pessoas à espera de serem chamados. O velhote entubado era claramente ele. Mais inchado, mais cheio de curativos e mais cheio de tubos por todos os lados. Estava de olhos fechados e com uma respiração débil. Acerquei-me dele e apresentei-me como a neta da Carreira ao que ele aparentemente estremeceu. Pus o meu indicador debaixo da mão dele, à espera que ele apertasse a minha mão. E ele tenuemente apertou .

O tio Herculano morreu. Morreu mais uma personagem que tinha da minha infância que eu tinha grande carinho. Afinal todas as máquinas de enrolar cigarros  serão sempre as máquinas "como tinha o tio Herculano" e o jogos de cartas serão sempre associadas à punição do tio Herculano sob as minhas orelhas. Morreu também um profeta das coisas chinesas e o homem da gargalhada quando me identificava pela neta da Carreira...

0 impressões:

Enviar um comentário