quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Da alimentação infantil

Estava eu a descer as escadas do prédio cá em Lisboa, quando uma das minhas vizinhas abriu a porta quando eu estava a passar pela porta dela.
- Menina, posso lhe pedir um favor? A menina não me conhece nem eu conheço a menina, mas como é vizinha, espero que não se importa de me dar uma ajudinha.

- Sim, o que precisa?- perguntei.
- Eu estou sozinha com o meu bebé e precisava de fórmula da farmácia. Não queria sair com ele porque preciso de ajuda para carregar o carrinho até à saída (o prédio não tem elevador).  O meu marido chega só à noite com uma lata mas o bebé tem fome e eu precisava de uma lata já.

- Com certeza, eu vou à farmácia e compro-lhe isso. Diga-me só que lata compro.

Chego à farmácia, onde estavam uns quatro velhotes, três deles sentados num banquinho a conversar. Aproximei-me do balcão e pedi o que pretendia. A velha que estava próximo de mim,  encostada ao balcão exclama, com nuance de regateira, que mais parecia vendedora no Bolhão do que residente em Lisboa:

- Leite em pó para bebés?! Que coisa mais ridícula! Eu quando tive os meus três filhos nem mama nem leite em pó! Era mesmo leite da leitaria desde que nasceram! Leite da leitaria! E nenhum deles morreu! Era só o que faltava... leite em pó!!!! ahahahaha

- Que sorte que a senhora teve! Até parece que estava à espera que um deles morresse! Que sorte! - digo, despedindo-me dos espectadores com um boa tarde e a tentar sair dali o mais rápido possível.

Gente estúpida... gentinha estúpida...

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Na semana passada faleceu mais um tio-avô

Quando penso no velho tio Herculano, não penso nele como o velhinho que arrastava os pés na sua marcha parkinsonica, nem no velhinho desacordado, todo cheio de fios que vi naquela cama de hospital no fim-de-semana antes da sua morte. Gosto de pensar no tio Herculano, sem ser o velho tio Herculano.
O tio Herculano em moço emigrou para o Brasil. Nos pouquíssimos meses que lá ficou, trouxe com ele um sotaque brasileiro que nunca mais largou, cara.
Era um senhor que vivia numa aldeia na zona agreste da Freita, mas era um senhor que não prescindia de duas coisas: da televisão, que vivia na sua fria e desconfortável sala e dos seus cigarritos. Aliás, a primeira vez que vi cigarros de enrolar, foi na mão dele. Um dia mostrou-me a sua maquineta de enrolar cigarros, que parecia uma guilhotinazita e eu segui atentamente todo o processo de enrolar cigarros, admirando a sua perícia. Sem querer, sempre que vejo alguém com essas máquinas, associo sempre ao tio Herculano, e ao ritual todo que me deixou admirada, tinha eu seis anos de idade. 

Não me lembro de ver aquela criatura a executar qualquer tarefa em casa... Nem a plantar batatas, nem a levar o gado para o monte, nem a fazer o quer que fosse... só me lembro dele a ver televisão. Ah... e tenho um flash de vê-lo empoleirado no telhado da minha casa a acertar a ardósia, que serve de pedra-telhado... isto porque já não havia gente competente a montar telhados de ardósia...

Quando a sua filha mais nova ainda vivia com ele, isto é quando era ainda cachopa solteira, visitar os meus avós paternos significava sempre uma visitinha à prima Bernardete. Nas muitas idas até à casa deles, aprendi com eles a jogar às cartas. Guerra, Burro e Orelha eram os jogos que mais gostava de jogar com eles, por serem elementares para a miúda pequena que eu era.

Mas se havia altura em que gostava mesmo mesmo mesmo de visitar o tio Herculano, era durante o mês de Agosto, isto porque os seus filhos emigrantes em França voltavam à terrinha e traziam com eles várias qualidades de rebuçados espanhois. Muitas vezes acompanhava-os até ao café da aldeia mais próxima e deixavam-me escolher os Magnums, gelados tabu na época lá em casa por serem dos mais caros. 

O tio Herculano falou-me pela primeira vez da bandeira espanhola, tinha eu seis-sete anos. Isto porque eu tinha umas sapatilhas da loja dos trezentos de cor amarela e vermelha.  Eu na altura só conhecia a bandeira portuguesa por ser aquela que estava empoleirada nos edifícios estatais.Ele disse-me "Tens umas sapatilhas com a bandeira espanhola!" Eu tirei uma das sapatilhas e constatei que na parte interna estava escrito "Made in China". O homem disse com um toquezinho de irritação: "Malditos chineses que agora fazem tudo... até sapatilhas com a bandeira de espanha! Qualquer dia eles vêm para ocupar a Europa toda". Tal profecia começou a concretizar-se alguns anos depois. 

O tio Herculano ficou velhote. Sempre que ia à aldeia, passava sempre lá para dar um olá. Apesar da sua demênciazita, lá me reconhecia quando eu me apresentava como a neta da "velha da Carreira", sua irmã. E lá dava uma gargalhadazita para disfarçar o seu embaraço quando lhe custava identificar-me... mas depois lembrava-se de mim como a "sobrinha doutora".

Soube que ele foi hospitalizado pela altura do Reis. Disse à minha mãe que fazia questão em ir despedir-me dele. Naquela enfermaria no serviço de medicina, estava ele e mais três pessoas como ele: pessoas à espera de serem chamados. O velhote entubado era claramente ele. Mais inchado, mais cheio de curativos e mais cheio de tubos por todos os lados. Estava de olhos fechados e com uma respiração débil. Acerquei-me dele e apresentei-me como a neta da Carreira ao que ele aparentemente estremeceu. Pus o meu indicador debaixo da mão dele, à espera que ele apertasse a minha mão. E ele tenuemente apertou .

O tio Herculano morreu. Morreu mais uma personagem que tinha da minha infância que eu tinha grande carinho. Afinal todas as máquinas de enrolar cigarros  serão sempre as máquinas "como tinha o tio Herculano" e o jogos de cartas serão sempre associadas à punição do tio Herculano sob as minhas orelhas. Morreu também um profeta das coisas chinesas e o homem da gargalhada quando me identificava pela neta da Carreira...

sábado, 23 de janeiro de 2016

Ainda sobre filmes portugueses...

... já vi alguns no cinema, mas ainda está para vir aquele que realmente eu diga "Sim, valeu a pena ter gasto dinheiro neste". Saio de lá sempre decepcionada com a pornolalia da coisa e o humor barato.




Porque a "Gaiola Dourada" é um filme de actores portugueses com produção francesa, logo não conta.
Na lista de filmes portugueses que não lamentei o dinheiro gasto inclui-se "Os gatos não têm vertigens", claro. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Dos filmes

Sabem aquele filme que querem tanto ver, aquele filme que gostava de ver no cinema, mas que  não se chegou a concretizar por não haver companhia, aquele filme que não se consegue encontrar na net em métodos mais... ilegais..., aquele filme em que finalmente se arranja um tempo para ver e ACABA POR NÃO O VER TODO POR O ACHAR UMA VALENTE M*RDA?



Foi o que me aconteceu com o novo Pátio das Cantigas

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Sobre os exames do semestre...

... Tanta coisa para estudar...


               ... e tanta pouca vontade de o fazer...

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Querido J.,

Somos amigos de quase uma década, do teu melhor amigo ser casado com a minha melhor amiga, de nos encontrarmos pontualmente na casa deles onde passamos juntos um bom bocado, e que continuamos a dois esse bom bocado, depois de nos meterem porta fora, porque a filha deles quer dormir, sempre tive um grande respeito e grande carinho por ti.

És o meu grande companheiro de noites no cinema, de esplanadas no Verão, de picniques e de idas à praia. 

A tua atitude no final e no começo do ano para comigo, foi muito mais que cavalheiresca, aliás, muitos príncipes dos contos de fadas deveriam aprender contigo.
Aliás, sempre pensei que este tipo de atitudes só acontecem a outras pessoas... nunca pensei que um dia aconteceria a mim.


Fiquei comovida. Fiquei mesmo comovida. Só não te abracei porque sei que odeias ser tocado.

Alima

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Coisas me irritam... mas me irritam mesmo...

Andava eu pelo centro da cidade com a minha mãe, quando encontramos uma amiga dela dos tempos da juventude, com um ar extremamente abatido.

Quando a minha mãe lhe perguntou o que se passava, a senhora pôs-se a desbobinar o estado em que se encontrava o seu marido por causa de uma neo do esófago, que lhe impede totalmente de ingerir alimentos pela boca (coisa bem séria).
"Bla bla bla cirurgia, mas antes quimio mas os médicos ainda não decidiram se uma coisa ou outra primeiro bla bla bla"- disse a senhora.

A minha mãe vira-se para mim e pergunta mesmo em frente à amiga, que me olhava expectante:

- Então Alima, que achas disto? Deveria começar pela quimio ou pela cirurgia?

Minha querida mãe, mas onde é que tinhas a cabeça para me fazeres uma pergunta desta em frente à tua amiga? Se digo uma coisa e acontece outra é porque eu não sei nada, se digo uma coisa e acontece aquilo que previ, sou genial. 
Como ousas perguntar-me tal coisa sabendo que nunca vi o senhor, nem vi nenhum papel sobre ele? Sou bruxa, por acaso?
Como me pedes que dê uma opinião de uma coisa tão grave, em que tenho quase a certeza que o marido dela está praticamente condenado??? Vou dizer tal verdade à tua amiga?

Para dar uma resposta à senhora, inspirei-me naquelas fulanas do Tarot que dá na televisão de manhã: dizer tretas a ver se cola. Respondi timidamente que provavelmente ele teria um longo caminho pela frente para a sua recuperação, lamentando o facto de eu desconhecer os resultados de qualquer exame a que ele tivesse sido submetido.
 Dei uma resposta extremamente evasiva sobre a opinião médica mas que de certeza eles vão decidir pelo melhor. E como estamos em Braga, perto daquelas igrejas e capelinhas todas, e como em Braga, que não tiver fé, não é filho de boa gente, sugeri-lhe ir rezar ao S.Judas Tadeu, advogado dos casos complicados. Mal não fará, não é?

A senhora esboçou um sorriso. Não sei se foi um sorriso de "obrigada" se foi um sorriso educado do tipo "olha-me esta a dizer tretas a ver se colam".

Quando nos afastamos, claro que a minha mãe ouviu valente raspanço da minha parte. Como é que ela se atreve???

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Coisas que deveriam ser proibidas de comer pós-festas Natalícias...

... As bolas de Berlim do Natário... 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

E agora que 2016 começa...

Fazendo uma retrospectiva de 2015, penso que foi um ano fantástico... Quer dizer, provavelmente por causa deste ambiente de euforia, eu só consigo recordar-me das coisas boas. E que coisas boas!!!

Em 2015, visitei e revisitei algumas cidades das quais eu tenho um grande carinho: Budapeste, Cracóvia e Praga. Estive na Roménia durante uma semana. Mergulhei nas águas quentes do Mar Negro e no Atlântico gelado das praias da Póvoa de Varzim.
Foi-me feita uma entrevista para acesso numa das mais importantes faculdades de Medicina, entrevista essa temida por toda a gente, mas graças ao meu à vontade e à minha sinceridade e ao meu espírito de improviso, tive uma mais que excelente classificação. 
Despedi-me pela última vez da cidade algures nos confins do Leste Europeu, que me acolheu nos últimos quatro anos. A despedida não foi dura, mas confesso que sofrerei de alguma nostalgia de pequenas coisas de lá. Lisboa foi a cidade que me adoptou para acabar o curso e penso que a adaptação não poderia ter sido melhor.  Procurei casa e apaixonei-me pela primeira e única que vi em Lisboa.
Conheci novas pessoas. Ganhei amigos e perdi amigos também. Mais uma vez despedi-me de pessoas que por razões geográficas não voltarei a ver novamente. 
Vibrei com a formatura de um dos meus melhores amigos. 
Fiz o percurso dos emblemáticos Passadiços do Paiva, e se tudo correr bem, 2016 será  para repetir a dose. 
Vibrei com uma espécie de Justiça Divina, sob uma pessoa que tão bem a merecia. Entristeci com o castigo divino que sofreram duas amigas minhas: uma porque o bebé não chegou a nascer vivo, a outra porque ao seu bebé de poucos meses, foi-lhe diagnosticado uma leucemia. 

Em 2015 foi o ano em que perdi o meu cão, morto de velhice. Sinto-me feliz em saber que salvei aquele ser dos maus tratos e que teve uma morte digna e pacífica, muitos anos mais tarde. 

Sim, 2015 foi recheado de coisas muito boas... Espero que 2016 seja tão bom e se possível melhor que o anterior.


Um excelente 2016!