sábado, 19 de setembro de 2015

Vindima

Anos depois de ter vivido fora de Portugal, este ano voltei a fazer parte de uma das tradições que me era muito querida: a vindima.
Fiz questão de participar este ano, por uma questão saudosista.

Desde pequena, acompanhei as vindimas nas propriedades dos meus avós, quer maternos, quer paternos.
Os meus avós paternos produziam vinho para consumo próprio, feito de uvas americanas, casta única que conseguia sobreviver na serra.
Recordo-me de ver o meu pai no lagar a espezinhar as uvas, método tradicional (e talvez menos higiénico, não?), do cheiro enjoativo que imanava do lugar, tão enjoativo que dava dores de cabeça.

Recordo-me do sabor doce da uva americana, que já há muitos anos não voltei a saborear. Tal como os donos, as videiras morreram.



Os meus avós maternos eram grandes produtores de vinho verde. Aliás, uma boa fatia da fortuna que amealharam foi graças à produção de vinho, da laranja e da castanha.
Vibrava com o ambiente que se vivia na vinha: o movimento, as piadas jocosas, os risos, as músicas tradicionais que se cantavam sobre a vindima. Juntavam-se dezenas de pessoas para esta actividade!
Nesse dia tinha sempre direito a uma boleia de tractor, tractor esse que transportava os cestos carregados de uvas para a adega, onde se colocava numa máquina industrial que centrifugava e prensava as uvas.



Anos depois desde a última vez que participei numa vindima, notei menos pessoas a trabalhar (muitas já faleceram, outras emigraram), notei menos videiras (por causa de um incêndio que afectou alguns hectares este Verão).
A pedido do meu tio, não fiquei responsável pela colheita das uvas, mas sim pelo controlo dos cestos (e também controlo do pessoal que gosta muito de trabalhar devagar) e pela condução de um das carrinhas que transportava os cestos para a adega. Aliás, nem eu nem os meus primos ficamos responsável pela colheita.

Poucas pessoas me reconheceram, afinal já não me viam há pelo menos cinco anos. Mas a simpatia e o respeito continuava. Para eles, continuava a ser a "menina", titulo que também era conferido a todos os meus tios, mesmo já tendo 60 e poucos anos.

"-Oh menina! Você se lembra de alguma canção aqui da terra para cantarmos aqui todos? Já ouviu a música da videira?"- perguntou-me uma velhota de lenço preto na cabeça.
"- Assim de momento não me recordo"- respondi-lhe.
"- Esta juventude já não sabe o que é o antigo...!"



Cantaram esta música num coro muito parecido com este. Cantaram outras canções tradicionais em tom polifónico. Arrepiante. Arrepiante mesmo. Lamentei o facto de ter deixado o meu telemóvel no carro, não podendo ter gravado...

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