segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Dia 15 em Lisboa- a saga da vizinha continua

Estou a viver há 15 dias num apartamento e ainda não conheço as minhas flatmates.
Sim, elas vivem cá mas fazem questão de só irem ao WC ou à cozinha quando não sentem ninguém no corredor. Apelidei-as de as ratas, porque estão bem escondidas no calor dos seus quartos e no silêncio da noite é quando invadem a cozinha.

Como nenhuma delas até à data ainda fez questão de me conhecer (podiam aproveitar quando estou na cozinha para travar conversa comigo, mas optaram pela indiferença), resolvi também não tomar a iniciativa. Desta forma, elas deixam a cozinha e o WC arrumado, eu faço questão de manter arrumado. E é assim que não há discussões.

Com o silêncio sepulcral que abate neste T3 na Estrada de Benfica, consegui concluir que a minha vizinha debaixo, além de ser uma chata, é também uma mentirosa. E também implicativa.

Ontem, vinha eu de Braga city, entrei no prédio com a minha trolley, uma mochila e a minha bolsa de senhora, por volta da meia noite. Subi com dificuldade as escadas, evitando fazer o mínimo barulho possível. Passando no andar dela, ela abre a porta,  vestindo a mesma bata do outro dia, e com cara de pouco amigos:

- A menina deveria fazer menos barulho com essas malas todas! Isto é um prédio de  pessoas de respeito! Ninguém entra no prédio a estas horas! Para a próxima, venha de manhã!- resmunga ela. 

- Oh minha senhora, quer me ajudar com estas malas? As pessoas de respeito costumam ajudar os vizinhos em apuros- disse-lhe.

E ela fechou-me a porta na cara...

sábado, 19 de setembro de 2015

Vindima

Anos depois de ter vivido fora de Portugal, este ano voltei a fazer parte de uma das tradições que me era muito querida: a vindima.
Fiz questão de participar este ano, por uma questão saudosista.

Desde pequena, acompanhei as vindimas nas propriedades dos meus avós, quer maternos, quer paternos.
Os meus avós paternos produziam vinho para consumo próprio, feito de uvas americanas, casta única que conseguia sobreviver na serra.
Recordo-me de ver o meu pai no lagar a espezinhar as uvas, método tradicional (e talvez menos higiénico, não?), do cheiro enjoativo que imanava do lugar, tão enjoativo que dava dores de cabeça.

Recordo-me do sabor doce da uva americana, que já há muitos anos não voltei a saborear. Tal como os donos, as videiras morreram.



Os meus avós maternos eram grandes produtores de vinho verde. Aliás, uma boa fatia da fortuna que amealharam foi graças à produção de vinho, da laranja e da castanha.
Vibrava com o ambiente que se vivia na vinha: o movimento, as piadas jocosas, os risos, as músicas tradicionais que se cantavam sobre a vindima. Juntavam-se dezenas de pessoas para esta actividade!
Nesse dia tinha sempre direito a uma boleia de tractor, tractor esse que transportava os cestos carregados de uvas para a adega, onde se colocava numa máquina industrial que centrifugava e prensava as uvas.



Anos depois desde a última vez que participei numa vindima, notei menos pessoas a trabalhar (muitas já faleceram, outras emigraram), notei menos videiras (por causa de um incêndio que afectou alguns hectares este Verão).
A pedido do meu tio, não fiquei responsável pela colheita das uvas, mas sim pelo controlo dos cestos (e também controlo do pessoal que gosta muito de trabalhar devagar) e pela condução de um das carrinhas que transportava os cestos para a adega. Aliás, nem eu nem os meus primos ficamos responsável pela colheita.

Poucas pessoas me reconheceram, afinal já não me viam há pelo menos cinco anos. Mas a simpatia e o respeito continuava. Para eles, continuava a ser a "menina", titulo que também era conferido a todos os meus tios, mesmo já tendo 60 e poucos anos.

"-Oh menina! Você se lembra de alguma canção aqui da terra para cantarmos aqui todos? Já ouviu a música da videira?"- perguntou-me uma velhota de lenço preto na cabeça.
"- Assim de momento não me recordo"- respondi-lhe.
"- Esta juventude já não sabe o que é o antigo...!"



Cantaram esta música num coro muito parecido com este. Cantaram outras canções tradicionais em tom polifónico. Arrepiante. Arrepiante mesmo. Lamentei o facto de ter deixado o meu telemóvel no carro, não podendo ter gravado...

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Dia 1 em Lisboa (a continuação)

Alima desespera com a porta e com a chave. Liga para a senhoria a pedir ajuda.
A vizinha debaixo vem em auxílio da Alima. Tratava-se de uma sexagenária de bata, tipo porteira.

Educadamente, explica-se à vizinha o que se passava. A vizinha mexerica na fechadura e por magia descobre a p**a da chave pode ser ampliada. E num simples movimento a porta abre-se.


A vizinha em tom desconfiado avisa a nova moradora do prédio para não fazer barulho. Alima assegura que não é de fazer barulho porque está sempre descalça em casa.

A vizinha diz:
- Fique sabendo que não gosto das meninas que vivem consigo. Fazem muito barulho. E são mal educadas.

Alima diz:
- Não as conheço ainda.

A vizinha continua, arregalando os olhos:
- E no apartamento de cima vive um médico com uma U-CRA-NI-ANA! Ele também é um mal encarado. Encontrei-o no outro dia nas consultas no Santa Maria, pedi-lhe um favorzinho para ver se me aviava umas coisinhas, assim mais depressa, e ele disse que tinha de esperar pelos outros. Já viu? Somos vizinhos!!! Não lhe custava nada, está a perceber? Já agora, a menina vai estudar para quê?

- Filosofia. Sou estudante de Filosofia- respondo-lhe sem pestanejar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Dia 1 em Lisboa

Alima sai da disparada do autocarro rumo à sua casinha ali perto.
A mala faz um estrandalhaço pelo caminho. Eram 22h e poucas almas se viam na rua.
Alima abre a porta do prédio sem dificuldades, chega à porta do apartamento e tenta enfiar a chave na porta.

A p**a da chave não entra na fechadura. Do outro lado da porta sai uma mulher, loira, com um sotaque de Leste que afirma que ali vive ela e o namorado.
Alima enche-se de pedir desculpas e desce ao piso de baixo com a certeza que ali é que era o seu apartamento.

... E a p**a da chave não abre a porta de novo.



(continua)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Resumo do Verão 2015 (as coisas inesquecíveis)

- Viajei. Destinos internacionais: Roménia, Hungria, Eslováquia. Deu um saltinho a Espanha para la movida de Vigo. Ou vários saltinhos.
Destinos nacionais: os recém inaugurados Passadiços do Paiva (Arouca).

- Fiz praia nos sítios do costume: Póvoa de Varzim, Viana do Castelo, Esposende.

- Vibrei com a minha entrada na faculdade em Lisboa.

- Fiz as malas e deixei definitivamente o país de Leste. Nova casa: Lisboa.

- Procurei quarto em Lisboa. Acabei por escolher um quarto simpático em Sete Rios.

- Terminei uma noite com as sandálias nas mãos, nas Galerias de Paris no Porto.

- Vi o nascer do sol na praia após noitada em Esposende.

- Vibrei com a vitória do Arouca contra o Benfica. No estádio.

- Visitei algumas feiras de antiguidades.

- Deixei dois miúdos sem dormir durante dias por ter contado histórias de terror.

- Aplaudi, de pé, quando um dos meus melhores amigos recebeu o diploma de médico.


- ...