segunda-feira, 20 de julho de 2015

A força de um elogio

Naquele tempo em que estudava numa universidade em Portugal, havia uma menina da minha turma que tinha feito castings em concursos de talentos musicais aka Ídolos. A sua vozinha não era má de todo, mas não era assim uma coisa muito excepcional. Era uma vozinha de uma princesa Disney a cantar, no meu entender.

Toda a gente lhe gabava a voz. Uauuu, quem me dera cantar como tu, diziam algumas colegas. E eu como não sou de bajular ninguém, mantive a minha postura de insensível perante tal maravilhosa voz.

Tal como eu, ela gostava de curtir o sol do lado da janela da sala de aula. E ficava sempre nas cadeiras atrás de mim. E em vez de prestar atenção à aula, a gaja cantarolava enquanto o professor explicava o conteúdo da aula. Aquilo incomodava-me como tudo, porque estar dentro de uma sala de aula já é penoso, gramar alguém a cantar enquanto estava a tentar concentrar-me ainda era pior.

Para os meus botões, eu só pensava "Mas quando é que esta p*#a se cala mesmo?"

Até que um dia, ganhei coragem, virei-me para trás e disse-lhe: "Adoro o teu timbre... tão suave... cantas mesmo muito bem. Sou tua fã"

A miúda, fez um sorrisinho de diva e agradeceu-me, enquanto virei-me para a frente. Virei-me de novo para trás e disse-lhe "E por favor, não estragues a tua voz aqui porque ninguém quer-te ouvir agora. A tua fã quer ouvir o que a prof. de Bioquímica está a dizer, 'ta bem?"

Nunca mais cantarolou perto de mim.


Há horas de sorte

Mãe da Alima obriga a Alima a enfiar-se num hipermercado para comprar carne no talho, porque a mãe da Alima não gosta de perder tempo a esperar em ser atendida.

Secção do talho com um fila enorme. Tiro ticket: nº 472. Estava no 387.

Alima solta um suspiro.

Alima olha para o cesto dos tickets e quase a reluzir estava o ticket nº 390 (GOLDEN TICKET!).

Alima estaciona o carro na garagem de casa vinte minutos depois para espanto da mãe.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Da mortalidade infantil

Faço admissão de uma paciente de 60 e poucos anos no hospital. Uma das perguntas que se faz é sobre o historial familiar...


-Então sra. F.,  disse-me aqui que teve seis irmãos, mas que só a Sra. e outro seu irmão é que chegaram a adultos... sabe de que morreram os seus irmãos?- pergunto, enquanto escrevinho no caderno.

- Olhe menina, morreram todos pequeninos. Um foi por causa de uma constipação. Tinha quinze dias, as velhas da aldeia diziam à minha mãe que os bebés não podiam estar assim tão cobertos e pronto, apanhou frio e adoeceu. Outro foi porque a minha mãe, com febre, amamentou o meu irmãozinho. As pessoas diziam que não havia problemas em dar leite ao filho, mesmo estando doente. Outro foi porque ficou constipado, a minha mãe, desceu com ele serra abaixo até à vila debaixo de neve, o médico receitou-lhe uma injecção, a minha mãe levou-o à farmácia e mal lhe deram a injecção, esperneou e morreu.
Uma menina, morreu enquanto dormia no bercinho. Como pode ver, dois morreram por causa das pessoas da aldeia, outro por causa de uma injecção e outro foi porque Deus Nosso Senhor assim o quis. A minha mãezinha perdeu quatro anjinhos sem culpa alguma.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Conversa de estrada

Ia eu e a minha mãe em direção a Penafiel, quando passamos por uma freguesia onde vive um primo do meu pai.

Eu: - Não é ali depois da igreja que vive o primo do pai?
Mãe: - Hummmm... acho que sim...
Eu: - O pai gostava muito deste gajo... até gravou no cimento e em alguma pedras o nome deles e a data de nascimento de cada um lá na terrinha. Parecia que estava a tentar ficar marcado para a posteridade.
Mãe: O pai gostava  e não gostava. Este tipo era mafioso como tudo. Emprestavam-lhe livros e discos de vinil e ele em vez de entregar ao dono, vendia-os. Provavelmente essa mafiosice se deva ao facto de ele ter nascido sem um olho e lá tinha que se desenrascar de alguma forma... E como em terra de cegos, que tem olho é rei....
Eu: Ahahahahaha de facto o fulano só tem um olho... mas daí a ser rei...e ainda por cima não havendo cegos. Expressão muito mal aplicada por si, lamento... Ahahahahahha
Mãe (muito séria): Oh conduz e olha bem para a estrada!