sábado, 30 de maio de 2015

Querido tio F.,

Faz hoje precisamente dez anos que nos deixamos de ver.
Durante a manhã e a tarde de há dez anos atrás, junto ao Santuário da Abadia, nas encostas do Gerês, estávamos nós num piquenique em amena cavaqueira com outros tantos familiares. Todo aquele banquete debaixo daquela tília, junto ao riacho,  desapareceu durante a tarde. Foram trocados galhardetes, ditas piadas mais brejeiras, discussões sobre o jogo que ia ser por volta das 19h da tarde. Confidenciaste-me até que na terça feira ias meter os papeis para a reforma. 

Aquele piquenique no último domingo de Maio, dia da festa da Sra. de Abadia era ritual já do tempo dos meus bisavós pelo menos, sendo a nossa família membro da confraria há gerações. De manhã assistia-se à missa campal, depois, findada a missa, corria-se para encontrar uma sombra para pôr as mesas e as cadeiras de piquenique. E ali se ficava até ao final da tarde a jogar sueca e na conversa, a confraternizar com os primos e os vizinhos da casa dos meus avós que também seguiam a tradição das confrarias à risca.  

Morreste na madrugada, poucas horas após de teres chegado a casa. Enfarte do Miocárdio, segundo a autópsia. Nada que não nos surpreendera uma vez que estavas a fazer dieta e a fazer exercício moderado porque o teu cardiologista te alertou para o problema algumas semanas antes.

Recordo-me de ter chegado à porta da capela mortuária onde estavas a ser velado e comentei com o meu pai que queria entrar para te ver pela última vez. O meu pai disse que com o calor que se fazia naquele dia e com a pobre ventilação da capela, o caixão tinha sido fechado porque estavas a arrebentar e emanavas um cheiro intenso. Há dez anos atrás, o meu pensamento a ouvir o meu pai a dizer-me aquilo foi "Como é que é possível, se ele cheirava sempre tão bem a água de colónia?

Foste o encerrar de um capítulo na nossa família. Nunca mais voltamos a fazer piquenique nesse dia. Talvez porque fazias lá falta, assim como poucos meses depois o meu pai passou a fazer-nos falta.
Dez anos se passaram e sempre que dou o meu passeio pelo santuário, olho para a árvore que nos serviu de sombra naquele dia com bastante nostalgia. Tempos em que se era feliz e não se sabia. 

A vida passa, assim como o riacho ainda lá passa e a tília não pára de crescer.







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