terça-feira, 12 de maio de 2015

O diabo e as favas

Uma das recordações mais ternas que tenho desde a infância são as noites incontáveis que passei junto à lareira da casa beirã do meus avós paternos a ouvir anedotas ou a ouvir histórias. O meu avô era de longe o melhor contador.


- Avô, Avô, agora é a sua vez de contar uma história!!!
- Já te contei a história do diabo e das favas?
- Penso que não, avô...
- Cá vai...

"No tempo das minas, havia um homem ali prós lados de Manhouce [freguesia vizinha da aldeia do meu avô, concelho de S.Pedro do Sul] que tinha um filho a morrer de tuberculose que quis fazer uma peregrinação a Fátima para ver se se salvava.
Então ele pôs-se a caminho e quando chegou ali para os lados de Anadia, parou num tasco e pediu um ovo cozido para comer. O taberneiro, que era um mafioso, e sabendo que ele não era dali, pediu-lhe muito dinheiro por um simples ovo. O homem, que era um mineiro pobre da serra, disse que não tinha assim tanto dinheiro consigo e que achava exagerado o preço por um simples ovo...

- Mas o senhor sabe perfeitamente que você não comeu um simples ovo cozido. Deste ovo que comeu poderia ter nascido um frango que quando ficasse adulto poria mais ovos e eu poderia vender o frango e os ovos e comprar um cabrito que daria leite, mais cabritos e pele que poderia vender e comprar uma porca, a porca daria bacorinhos e carne que poderia vender e comprar uma vaca que daria leite, vitelos e carne que poderia vender e comprar uma casa e.... já viu o prejuízo que me está a causar ao não pagar o preço desse ovo???? -disse dissimuladamente o taberneiro. 

- Mas senhor, eu não tenho como pagar essa conta toda!- disse humildemente o mineiro.

- Olhe senhor, vemos-nos em tribunal em seis dias porque vou pôr um processo contra si e o juiz vai decidir o que fazer consigo.



O homem saiu da tasca muito triste e assustado com o seu futuro, mas mesmo assim se fez à estrada rumo a Fátima. No caminho, junto a uma fonte, encontrou 3 moedas de 1 escudo que guardou no bolso. Durante o seu percurso, ele encontrou umas alminhas para o céu e ele deixou lá 1 escudo. Passado mais um bocado encontrou umas alminhas para o purgatório e ele deixou lá mais 1 escudo. Um pouco mais adiante encontrou umas alminhas para o inferno e deixou o ultimo 1 escudo. Já estava a ficar muito escuro e ele meteu-se numa gruta para pernoitar e foi aí que desabou num choro de desespero por não saber como vai ser o seu futuro.
Sentiu então uma presença dentro da gruta: era um homem vestido de preto, muito elegante, de lunetas e de pêra bem aparada.

- Então homem, porquê esse desespero?- perguntou-lhe o tal homem.

O mineiro contou-lhe a história tintin por tintin.

- Fique sabendo que eu sou o diabo e gostei muito do facto de você deixar uma esmola nas almas do inferno. Ninguém deixa esmolas no inferno. Não se preocupe, você não tem dinheiro para um advogado e eu serei o seu advogado no tribunal- respondeu-lhe o diabo.

Passaram-se três dias, o homem foi a Fátima e voltou e já se encontrava sentado num banco no tribunal. O juíz queria começar o julgamento mas o advogado do mineiro nunca mais aparecia. Esperaram 1-2 horas até que o juiz disse:

- Bem, mineiro, o seu advogado não vem, terei de começar o julgamento.

E então, naquele momento, o homem de preto entra pela sala de audiências dentro e senta-se junto ao mineiro.
- Sr Dr. Juíz, peço imensa desculpa pelo o atraso mas estava a cozer favas para semear mais tarde.

- E desde quando favas cozidas dão para semear?- perguntou o juiz curioso.


- E desde quando ovos cozidos são pintos?- perguntou o diabo.


O mineiro voltou para casa são e salvo. E consta-se que o filho sobreviveu à tuberculose. "






0 impressões:

Enviar um comentário