domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa

Já há dez anos que não celebro uma verdadeira Páscoa.

Sinceramente não sei se guardo saudades desses tempos de criança e adolescente em que vibrava com a Semana Santa na minha cidade nem tampouco com aqueles rituais festivos da época. Mas uma coisa era certa: Páscoa (ou talvez semana que antecedia à Páscoa) era sinónimo de ir à confissão numa igreja. E como eu odiava isso...
O meu pai, ex-seminarista, desde que teve uns arrufos com o Seminário, não punha os pés numa igreja a não ser quando obrigado. E o obrigado significava casamentos, baptizados e funerais. Mas todos os anos, lá ganhava coragem e arrastava a esposa e as filhas para confessarem-se durante a Semana Santa. Eu odiava mesmo isso. Aliás, nós as três odiávamos isso. Detestava a fila que demorava cerca de uma hora, detestava aquela coisa de me sentar à frente de um padre velhote e ele me perguntar que pecados eu cometi. Eu lá sou pessoa de pecar??? Mentir, omitir verdades, desobedecer aos pais, comer um chocolate só porque sim são assim pecados tão graves que me façam ficar numa fila de uma hora??? O que é certo é que há dez anos não pratico tal ritual por o considerar ridículo. Uma coisa era ser obrigada pelos pais, outra coisa é praticar por livre e espontânea vontade, coisa que não acontece.


Páscoa era sinónimo de ir para a aldeia-natal do meu pai passar lá o fim-de-semana. A mesa estava sempre bem apetrechada de coisas boas para o Compasso Pascal. A toalha era sempre de linho bordado do enxoval da minha mãe. Deduzo que o meu pai era minucioso com a mesa talvez apenas para mostrar ao padre e ao seu séquito o quão bem estava na vida, para mostrar que o menino pobre que ele fora já não existia. Era a única altura que enfiava numa gravata sem ser durante o trabalho. Eu achava nojento estar a beijar uma cruz que já fora beijada por outros lábios. Mas pensava sempre que se fazia aquilo, era porque Jesus queria, logo estaria protegida de qualquer herpes. 

Uma das melhores Páscoas que passei foi aquela Páscoa de 1998 em que íamos contrariados para a terra do meu pai e caiu um enorme nevão. Tivemos que voltar para Braga a poucos Km do destino, para grande tristeza e choradeira do meu pai e para alegria nossa. Fomos passar a Páscoa na casa dos meus avós maternos, rodeados de família, das inúmeras primas e de brincadeiras e amêndoas. O Compasso Pascal minhoto, muito mais rico que o beirão, era formado por alguns escuteiros, uma banda filarmónica e uns 6-7 elementos que formavam os mordomos, mais o padre que se reuniram no salão principal . Aí sim, senti uma verdadeira Páscoa e uma verdadeira euforia.




Dez anos passaram-se desde a última vez que celebrei uma Páscoa assim. Estou neste momento a aproveitar umas mini-férias em Praga e subitamente deu-me alguma nostalgia de que coisas que nós detestávamos em crianças fazem um bocadinho de falta agora que somos adultos. Estive ontem de manhã durante cinco minutos a olhar para a imagem do Menino Jesus de Praga e a perguntar-lhe se todo o ódio que tenho por esta altura do ano, por razões que ELE bem sabe, me trará consequências...


Nem na casa da aldeia-natal do meu pai, nem no casarão da minha avó passou hoje o Compasso Pascal. A minha mãe  disse-me que optou por fechar as janelas para não ser incomodada em casa. Aliás, desde que o meu pai faleceu nunca mais abrimos casa ao Compasso Pascal. Em nenhuma dessas casas entrou água benta para dar protecção... Será necessária água benta para expulsar todos os males que nos atinge? 


Boa Páscoa

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