terça-feira, 17 de março de 2015

Still Alice

Consegui ver finalmente um dos filmes do momento. Penso que este filme sem a Julianne Moore não seria a mesma coisa. Até consegui simpatizar com a Kristen Stewart, como é possível? Além de muito bem feito, considero-o minimamente perturbador. Até que ponto da nossa vida poderemos considerar realmente vida? Não são as nossas memórias e o que realmente somos que nos caracteriza como vivos?


Felizmente não convivo directamente com alguém com Alzheimer. Lidei com talvez centenas de idosos com esta patologia em termos profissionais, volta e meia lá me cruzo com um e outro nas aulas de neurologia mas that's all about it. No entanto, como as minhas ambições em termos profissionais estão inclinadas para a medicina interna, julgo que terei que aprofundar um bocado mais este tema. 

Infelizmente, numa perspectiva popular, todas as pessoas que sofrem de lapsos de memória ou com demência, são catalogadas como doentes de Alzheimer, coisa que muitas vezes não o são. Segundo o meu prof. de Neurologia, a culpa disso tudo está no preço dos exames mais específicos para identificar que tipo de demência é. Por sorte, o tipo tratamento farmacológico das demências são muito coincidentes.

Recordo-me de uma antiga cuidadeira da minha avó ter diagnosticado à minha avó um Alzheimer muito profundo e eu prontamente lhe elogiei o facto de ela ter talvez a escolaridade obrigatória e de fazer um diagnóstico médico desses assim sem TAC's, nem SPECT/CT, sem nunca olhar para um resultado de análises...ou para as cartas da Maya...

Recordo-me de uma tia do meu pai, mulher que desde logo trabalhou em França afincadamente. Era uma mulher muito alegre, sempre bem disposta. Trabalhou até à idade limite e foi obrigada a reformar-se. Veio definitivamente para Portugal. Em seis meses começou a ter desvios de comportamento, lapsos de memória. Em bom português, começou a pirar. O marido levou-a a vários centros de psiquiatria e neurologia. Do Porto a Lisboa, procurou os melhores especialistas. Todos os médicos davam a sua opinião, prescreviam coisas diferentes, não havia coerência. E porque erros de médico, a terra os cobre, morreu de overdose medicamentosa em poucos meses, porque optaram por tomar tudo o que cada médico prescrevia. 

Recordo-me de a irmos visitar a casa, poucas semanas de ela morrer: estava a balançar-se num banco na cozinha, completamente apática, a barbar-se e a produzir sons incompreensiveis. Não era de todo a mesma tia que tinha visto em Agosto do ano anterior, aquela mulher que tinha arrastado o marido para a pista de dança num casamento. O que de mais semelhante que tinha visto até então, eram os miúdos com paralisia cerebral lá da escola. O marido dela tinha as portas trancadas à chave porque ela fugia de casa. Ela passou a dormir num quarto pequeno da casa, em que só cabia o colchão, porque ela se tornava agressiva especialmente à noite. Guardava tudo que fosse produto tóxico, porque a tinha visto a beber líquido da loiça.

Estamos a falar em 1999, altura em que não se falava em cuidadoras ao domicilio, em que a palavra lar de idosos era um sitio do inferno, ou seja, essa tia do meu pai, ficava à inteira responsabilidade do marido com quase 80 anos que tinha voltado para Portugal para gozar a velhice e não para cuidar de uma moribunda. 

Defendo a posição da Alice no filme: entre sofrer Alzheimer (e perder todas as suas memórias e identidade) e Cancro, talvez o Cancro seja a doença mais socialmente aceitável: afinal de contas há inúmeras campanhas para ajudar pessoas com cancro, as pessoas ostentam laços, participam em corridas, teria com que lutar e motivos para lutar....coisa que Alzheimer (ou outra demência) é visto como doença progressiva de velhos

(E sim, torci para que ela tivesse tomado os comprimidos...)


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