sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ao meu cão

Quando a tua antiga dona deu-te para que ficássemos a tomar conta de ti, o primeiro pensamento que tivemos em casa foi "pobrezinho... não vai durar muito". Vinhas muito magro, muito sujo e caminhavas muito tortinho, fruto da pancada que sofreste por xixis em sítios proibidos  e por brincadeiras estúpidas das crianças lá de casa. Isto foi em 2004. Acabaste por resistir até um dia solarengo de Janeiro de 2015.

Quando mudava o tempo, praticamente não saías do teu ninho porque as dores de fracturas antiga e de reumatismos fruto da pancada não permitiam que tivesses muita actividade. No entanto, assim que recuperavas tornavas-te um cão sem resquícios de problemas. Gostavas de saltar para o sofá e lá dormir. Ou então dormir no armário dos sapatos. Como eras de porte mini (nunca passaste os 2kg), nunca foste capaz de roer sapatos ou mobília. Eras o cão perfeito para ter em casa.
A tua comida favorita sempre foi sopa. Detestavas ração para cães. Quem te dava sopa, dava-te tudo.

Há três anos começaste a ficar cego e a perder o sentido de olfato. Os teus olhos sempre foram um grande problema porque sempre foste dado a conjuntivites. Há três anos juravamos que não passarias o Inverno. Há dois anos atrás, a outra cadela cá de casa deu-te uma enorme mordidela  no crânio, rasgando parte da tua pele na cabeça. Levei-te ao veterinário que aconselhou-me a eutanasiar-te porque cego e agora com esta ferida, não irias aguentar. Pedi-lhe para te suturar e antibióticos. Achei que ainda terias chances de recuperar, e não me enganei. Trouxe-te para casa e eu mesma tentei dar-te todos os cuidados para evitar qualquer infecção. Sobreviveste mesmo assim sem grandes problemas.


Sempre foste um cão amoroso. Recordo-me de termos posto uns patos no jardim e tu adoptaste um deles. Com o focinho  e em gesto paternal, empurravas-lo para o jardim para que ele não fugisse para dentro de casa. Sei que uma vez esse pato ficou preso a um arbusto e tu para o ajudar, apertaste o pescoço dele com os dentes, acabando-o por o matar. E por alguns patos que tivemos em casa, nunca mais tentaste adoptar nenhum.

Na segunda feira, quando cheguei a casa e estavas na relva deitado ao sol. Não te mexias, as tuas patas traseiras estavam imóveis. Tu própio estavas imóvel, ainda respiravas e lambias o focinho, mas via-se que estavas a apagar-te. Avisei logo a minha irmã que estava na altura de se despedir de ti. Ouvi-a a dizer para tomares conta do pai. Pusemos o teu ninho no jardim, cobrimos-te como um bebé até o sol começar a desaparecer. Afinal o dia estava maravilhoso e tu sempre gostaste de dormir sob a relva. Um bocado antes de jantar vimos que tinhas partido. Não houve choro, porque há três anos já nos estavamos a preparar mentalmente. Houve sim uma certa nostalgia, do tempo em que eras um cão jovem e que gostavas de mimos, de passeios e de sopa.  Relembramos o teu ladrar estúpido e cómico que parecia um bebé a chorar.


Dizem que todos os animais merecem o céu... mas tu mereces o céu e muito mais.


1 impressões:

CAP CRÉUS disse...

Muito bom, o texto.
E foi feliz!

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