quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Porque acho que vou para o Inferno...

Esta semana faz 70 anos da libertação por parte dos soviéticos do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.
Sou uma das muitas pessoas que já visitou o local em questão. Visitei-o pela primeira vez em 2012 durante as minhas férias da Páscoa, juntamente com outra portuguesa, um grego e um palestiniano.

Fomos no carro do grego desde a nossa cidade para a Polónia.  Auschwitz fica a 70km de Cracóvia, cidade perfeita para a farra, que não era assim tanta nessa altura porque estávamos na Páscoa (não esquecer que o povo polaco é extremamente católico e Cracóvia é uma espécie de Roma polaca). Aliás, quase me senti em Braga pela Semana Santa com a quantidade de padres, turistas espanhóis e de panos roxos que vi pela cidade.

O museu é deveras interessante como tenebroso. Quase tão tenebroso como o cemitério judaico no Kazimierz de Cracóvia (assunto que merece um post). Simplesmente indescritível e causador de arrepios e de revolta. Até o nosso amigo palestiniano, que por razões que ele bem sabe não grama judeus não ficou indiferente a tamanha desumanidade.


Terminada a visita voltamos para o carro. Antes de um de nós entrar no carro, o dono grita um NÃAAAAAAAAO. Assustada, perguntei-lhe o que se passava.


- Limpem bem os sapatos!!!! Este sítio está cheio de pó. Provavelmente ainda é pó das cinzas destes desgraçados. Não quero judeus em estado de cinza no meu carro. ouviram!?

Foi a risada geral. Foi talvez das piadas mais mórbidas que já ouvi. Tão boa que choramos de tanto rir.  Vamos arder no inferno. Bando de mórbidos que somos. Bando de mórbidos...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Confissões de uma ex-adolescente

Nos meus tempos de adolescência, quatro coisas me moviam: cinema, revistas, música e estudos. É que nem gajos mesmo.
Estudos: História ou a Geografia. Eram as minhas disciplinas favoritas. Se não houvesse desemprego em ambas as áreas, teria fortemente apostado nelas. Sou menina para ler mais facilmente um livro sobre História do que sobre Medicina.

Na música, eu era apanhadinha por uma boysband de nome BackStreetBoys. Todas as meninas que nasceram nos 80 já ouviram falar destes tipos. Comprei alguns cd's deles e confesso que coraria de vergonha se eu pusesse a tocar algum deles quase 15 anos depois. Depois havia a Madonna, a Britney Spears, a Daniella Mercury, as Spice Girls, a Cher (cd Believe está 5*), o Ricky Martin, o Enrique Iglésias, os Westlife. Depois havia aquelas bandas de pop-rock dos anos 60-70-80 cujos meus pais não se importavam também de ouvir no carro. Fui uma adolescente que tocava Chopin e Mozart no Piano, mas também tentava ser uma adolescente cool.

Cinema: Di Caprio é o nome que me vem à cabeça num estalar de dedos. O sujeito foi a minha maior paixão platónica...
Absorvia todos os filmes e todos os artigos que encontrava nas revistas (qual Internet, que era isso mesmo?)
Quinze anos mais tarde, o sujeito já não está tão bonito, mas tornou-se um actor versátil, uma espécie de futuro substituto de Jack Nicholson. E já não suspiro pela beleza... suspiro pelas interpretações do homem.
Depois tinha aqueles actores e actrizes como Tom Hanks, o Ben Aflleck, a Claire Danes, a Meg Ryan...

Revistas: eram duas quinzenais, semana uma, semana outra: SuperPop e Bravo.
Feitas as contas, em dois anos que durou mais ou menos a minha fase de adolescente parva, gastei rios de dinheiro nessas revistas. 300 escudos cada uma...1200 escudos por mês...

 A minha mãe constantemente se queixava que eram revistas caras e sem conteúdo, mas continuou a queixar-se quando comecei a investir na Super Interessante ou na National Geografic, porque segundo ela eram demasiado caras e enfadonhas. 

Mas o que eu gostava mesmo nas duas revistas de adolescente parva, além dos brindes estúpidos, eram os posteres que tinha lá no meio. E se fossem gigantes, melhor. E consegui forrar todo o meu guarda-fatos com posteres do DiCaprio, da Britney Spears, dos BackStreet Boys e das Spice Girls. Numa gaveta do armário, estavam em capa de elásticos, dezenas de revistas SuperPop e Bravo, assim como centenas de posteres dobrados cuidadosamente.

E tanto os posteres afixados dentro do armário, bem como as revistas e  posteres arquivados perduraram quinze anos no meu quarto até esta semana...

Necessitava de fazer umas arrumações ao guarda-fatos até que reparei que o Leo do Titanic, ainda olhava para mim como quando eu era adolescente. 

Lembrei-me então que numa gaveta tinha aquele material todo, cujas páginas folheadas por mim, assim que tirei as revistas da gaveta, deram-me uma certa nostalgia. Não daquela de Oh, Spice Girls, que giro!, mas mais uma de Fui feliz a ler estas merdas mas c'os diabos... como fui queimar tanto dinheirinho


 Mas já não sou mais a adolescente Alima e confesso que sou uma Alima adulta envergonhada pelos gostos de há quinze anos.  Mandei tudo para lareira: revistas e posteres. Menos este poster do Di Caprio, claro :) 

E apesar de no auge da minha paixão platónica, ter rezado para que um dia eu o pudesse ver ao vivo, os deuses  foram generosos comigo uns anos depois: tive a oportunidade de me cruzar com ele em Praga, na reabertura de um bar muito in há três anos em que ele foi extremamente simpático com os presentes.  Algo a contar aos netos.





Yep... eu tinha esta revista, se bem que encontrei esta foto pela net... E 15 anos depois o DiCaprio ainda não conheceu o verdadeiro amor, o Ricky Martin descobriu que é bichona, os Milénio devem andar por aí a fazer massa e a assentar tijolos...  e Backstreet Boys... por onde andam mesmo?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ao meu cão

Quando a tua antiga dona deu-te para que ficássemos a tomar conta de ti, o primeiro pensamento que tivemos em casa foi "pobrezinho... não vai durar muito". Vinhas muito magro, muito sujo e caminhavas muito tortinho, fruto da pancada que sofreste por xixis em sítios proibidos  e por brincadeiras estúpidas das crianças lá de casa. Isto foi em 2004. Acabaste por resistir até um dia solarengo de Janeiro de 2015.

Quando mudava o tempo, praticamente não saías do teu ninho porque as dores de fracturas antiga e de reumatismos fruto da pancada não permitiam que tivesses muita actividade. No entanto, assim que recuperavas tornavas-te um cão sem resquícios de problemas. Gostavas de saltar para o sofá e lá dormir. Ou então dormir no armário dos sapatos. Como eras de porte mini (nunca passaste os 2kg), nunca foste capaz de roer sapatos ou mobília. Eras o cão perfeito para ter em casa.
A tua comida favorita sempre foi sopa. Detestavas ração para cães. Quem te dava sopa, dava-te tudo.

Há três anos começaste a ficar cego e a perder o sentido de olfato. Os teus olhos sempre foram um grande problema porque sempre foste dado a conjuntivites. Há três anos juravamos que não passarias o Inverno. Há dois anos atrás, a outra cadela cá de casa deu-te uma enorme mordidela  no crânio, rasgando parte da tua pele na cabeça. Levei-te ao veterinário que aconselhou-me a eutanasiar-te porque cego e agora com esta ferida, não irias aguentar. Pedi-lhe para te suturar e antibióticos. Achei que ainda terias chances de recuperar, e não me enganei. Trouxe-te para casa e eu mesma tentei dar-te todos os cuidados para evitar qualquer infecção. Sobreviveste mesmo assim sem grandes problemas.


Sempre foste um cão amoroso. Recordo-me de termos posto uns patos no jardim e tu adoptaste um deles. Com o focinho  e em gesto paternal, empurravas-lo para o jardim para que ele não fugisse para dentro de casa. Sei que uma vez esse pato ficou preso a um arbusto e tu para o ajudar, apertaste o pescoço dele com os dentes, acabando-o por o matar. E por alguns patos que tivemos em casa, nunca mais tentaste adoptar nenhum.

Na segunda feira, quando cheguei a casa e estavas na relva deitado ao sol. Não te mexias, as tuas patas traseiras estavam imóveis. Tu própio estavas imóvel, ainda respiravas e lambias o focinho, mas via-se que estavas a apagar-te. Avisei logo a minha irmã que estava na altura de se despedir de ti. Ouvi-a a dizer para tomares conta do pai. Pusemos o teu ninho no jardim, cobrimos-te como um bebé até o sol começar a desaparecer. Afinal o dia estava maravilhoso e tu sempre gostaste de dormir sob a relva. Um bocado antes de jantar vimos que tinhas partido. Não houve choro, porque há três anos já nos estavamos a preparar mentalmente. Houve sim uma certa nostalgia, do tempo em que eras um cão jovem e que gostavas de mimos, de passeios e de sopa.  Relembramos o teu ladrar estúpido e cómico que parecia um bebé a chorar.


Dizem que todos os animais merecem o céu... mas tu mereces o céu e muito mais.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Dos Vizinhos

Um dos meus vizinhos foi caseiro de uma quinta perto da minha casa durante décadas. E como o dono da quinta teria que o indemnizar o caseiro por ter de o despejar da casa e das terras, indemnizou-o  com uma casita térrea perto da minha.

Os meus pais sempre tiveram uma relação empática com a família do tal caseiro que durante anos, a minha mãe optava por comprar hortaliças à esposa do caseiro que comprar nos supermercados. E quando a quinta ficou desactivada, a minha mãe volta e meia oferecia-lhes um cabaz com vinho e fruta caseira.

No ano passado o caseiro aproximou-se da minha mãe e comentou-lhe que as nossas árvores de fruto necessitavam de ser podadas.

- É coisa de numa hora se fazer, minha senhora- assegurou-lhe o homem.- Até lhe faço de graça!

A minha mãe pediu-lhe então que assim que tivesse tempo, se não se importasse, poderia então podar o que acharia necessário. E ofereceu-lhe mais um cabaz com vinho e castanhas por simpatia.

Passado uns dias, chega o homem lá com a sua escadita e conseguiu realizar a maravilhosa tarefa de podar uma figueira, um pessegueiro, um limoeiro e uma ameixoeira em três horas.

Dentro de casa, eu avisei a minha mãe que o homem, da maneira como estava a engonhar, estava a fazer um trabalho muitoooo relaxado, o que provavelmente isto significaria que ele iria pedir dinheiro por podar 4 arvorezitas de jardim.

- Hum.... achas mesmo, Alima? Mesmo sabendo que estou sempre a dar-lhe coisas?- perguntou a minha mãe.

- Fique sabendo que nos dias de hoje ninguém faz nada de graça, mãe. Até para pedires para te instalarem um jogo no pc pagas no mínimo 10 euros.

Terminada a tarefa hérculea, a minha mãe, que já tinha dado um lanchinho para o senhor descansar, perguntou-lhe quanto é que lhe devia, numa daquela de simpatia, porque o senhor até lhe tinha dito dias passados que até lhe faria de graça.

O fulano, tira o chapéu, coçou a cabeça:
- Ora bem... estou aqui desde as duas da tarde, são cinco horas, faço a 20 euros a hora... 20 x 3 são... 60 euros.

A minha mãe pagou-lhe o montante sem discutir e jurou que nunca mais lhe oferecia  uma laranja que fosse.

Estes dias, o velhote veio ter comigo com a mesma cantiga:
- As árvores estão a precisar de ser podadas outra vez, menina. Quer que faça isso outra vez?

Olhei para as árvore e disse-lhe:

- Não se preocupe. Vi na internet como se podam... este ano serei eu a podar.

E com a supervisão de um certo Eng. Agrónomo um dos resultados numa tarde de Sábado foi este:

.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Estágio de uma semana num Centro de Saúde em Portugal

Alima passa no corredor em direcção à sala de Saúde Infantil, onde teria que acompanhar o médico e a enfermeira na consulta de fedelhos.
No corredor, sentados numas cadeiras, está uma mãe e um rapazinho de quatro anos que berrava a altos pulmões, porque a mãe tinha dado uma palmada porque não parava quieto. 
A mãe para o sossegar aquele espalhafato, vira-se para o puto e diz:
- Se não te portas bem, vais ver que a enfermeira vai te dar uma pica... das grandes!


Pensei cá para os meus botões (se bem que vontade não me faltava de dizer na cara daquela mãezinha):
 Caríssima senhora, com  este tipo de ameaças, é normal que o stress no seu petiz vai aumentar ainda mais. Se ele está irritado, agora vai estar amedrontado. Se ele chorava, agora vai-se desfazer em drama.  Ver uns marmanjos de bata branca, vai ser sinónimo de dor e de muita tortura na sua cabecinha. Se quer fazer ameaças, ameace em desligar o canal Panda durante umas horas. Não faça com que os senhores da bata branca sejam os responsáveis por todos os males.
Há conta de ameaças de picas das grandes, muita boa gente adulta tem o plano de vacinação desactualizado, assim como tem grandes dificuldades psicológicas para se deslocar a um médico por medo.

Não sou mãe, mas sou madrinha de uma miúda da idade do seu filho. Nunca daria uma palmada à minha afilhada (se bem que até tenho autorização para tal), mas a catraia sabe parar de se armar em parva quando lhe lanço um olhar fulminante. São putos, mas não são assim tão parvos.   


Escusado será dizer que o miúdo ficou fora de si mal entrou na sala. Não houve Disney nem Pocoyos que o ajudassem. Pânico.  E o simples toque de um estetóscopio para verificar o estado dos seus pulmões foi assim uma coisa bem dolorosa... 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Sei que estou realmente com febre

Quando mal chego à mesa do café e duas pessoas dizem-me:
- Xiça... pareces um radiador ambulante!

39,1ºC...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Café com um colega de curso

formado  há dois anos que começou a trabalhar numa clínica na cidade.


- Então e tens tido muita clientela?- pergunto.

- Nem por isso. Pensei que nesta altura do campeonato já tivesse mais pacientes- responde-me.

- E isso deve-se a quê?

- Hummmm, sabes aquelas pessoas que enquanto estudas para a coisa, bombardeiam-te de perguntas sobre doenças e medicamentos? E aquelas pessoas que te gabam o facto de saberes tanto sobre o assunto e pela maneira como o explicas trocando por miúdos? Pois... essas mesmas pessoas assim que tiveres o canudo vão dizer que não querem consultas tuas porque te consideram inexperiente...- diz-me com ar divertido.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Reunião de Condomínios (II)

Pouco após a conversa com a vizinha do Rés-do-Chão, começam a chegar os proprietários dos outros apartamentos.

Observo a porta do elevador do Rés do Chão em que está um papel escrito com "POR FABOR, FEIXEM A PORTA DO ELEVADOR COM COIDADO PORQUE FAZ MUITO BARULHO E EU SOU UMA PESSOA DOENTE". Não tirei foto a esta pérola com receio de alguém se virar contra mim. 

Alguém adianta que a reunião terá de ser breve porque há bola dali a um bocado.

A vizinha do 1º Direito, sujeitinha meio deprimida com nuances de loucura desde que o marido a deixou assim que se descobriu que o filho ficara surdo devido a sua prematuridade, começa imediatamente a discutir o preço que se cobra à mulher da limpeza. Diz de forma agressiva de que no tempo em que ela era a representante dos Condóminos aquilo funcionava melhor.

O vizinho do 2º Esquerdo, um velhote reformado da França, começa a queixar-se que a voz esganiçada da mulher do 1º Direito está a causar-lhe dores de cabeça. Ele que até toma remédios para a cabeça. Vocífera qualquer merda em Francês, ao qual a esposa dele, ex-emigrante de França, anteriormente peixeira em Portugal, reage com dois berros e meia dúzia de "car***lhos" só para calar o marido e a mulher do 1º Direito. 

Eu gritava só para mim: "PORRADA! PORRADA!

Súbitamente alguém se queixa dos romenos do prédio ao lado que estacionam as velhas carrinhas à porta do nosso prédio. As mães deles recebem nomes, as romenas recebem os mesmos nomes especialmente por causa do lixo que espalham pela rua. 

A vizinha do 3º Direito queixa-se do excesso de humidade que tem. O do 4º Direito o mesmo. Alguém do lado esquerdo diz que tem falta dela, o que levou a uns sorrisinhos patetas. Alguém volta a discutir que a vizinha do 1º Direito não poderia ter desfeito paredes interiores sem o consentimento de todos porque há o risco do chão do 2º Dto ruir. A mulher desfeita esse alguém com voz esganiçada.

Discute-se os gastos dos jardins. 500 euros por ano no jardim é muito, ao qual o representante fala em adubos, água, terra e plantas. Eu digo em tom de brincadeira que pôr plantas de plástico fosse a solução, ao qual toda a gente me olha com má cara como se eu estivesse a falar a sério.

Conclusão: gritou-se e desfeitou-se muita gente mas as coisas continuam como antes. Todos os gastos são necessários e todos devemos dar graças que o prédio não esteja a precisar de obras.
Adoro estas reuniões .

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Reunião de Condomínio (I)


Hoje fiquei responsável por assistir à reunião dos Condomínios de um apartamento que os meus pais têm. Vivi nesse apartamento até aos meus 14 anos, guardo boas memórias do bairro, infelizmente não conservei amigos de lá, apenas conhecidos que volta e meia se cruzam comigo na cidade. 

Só vou ao bairro uma vez por ano e sempre para a bendita reunião. Afinal de contas temos a sorte de ter uns inquilinos fantásticos que nunca nos deram problemas.

Reunião dos condomínios no prédio significa sempre uma coisa: pancadaria verbal quase a roçar para a pancadaria física. Ou porque as despesas do jardim são muito grandes, ou porque a mola da porta do elevador do rés-do-chão está estragada há 10 anos o que faz um estrandalhaço sempre que se fecha a porta, ou porque a mulher da limpeza deixa sempre tudo sujo. Palavras menos simpáticas sobre as mães e coisas do género são sempre ditas na reunião não fossemos nós todos gente do Norte.

Assim que cheguei, já estava a minha vizinha do Rés-do-Chão a pôr bolinhos e chazinho no hall do prédio. Comecei mentalmente a imaginar alguém a apanhar com o chá nas trombas em algum momento mais quente da discussão. Por simpatia, perguntei-lhe que era feito da Jéssica, a filha dela, que pelas minhas contas teria uns 15 anos, pois lembro-me de a pegar ao colo pouco antes de ter mudado de casa.

- A Jéssica? Oh… teve uma menina muito bonita há dois meses! É tão riquinha!

- A Jéssica já é mãe? Que idade ela tem?- perguntei-lhe admirada.

- A Jéssica fez 15 anos na semana passada. Foi mãe aos 14 anos. – respondeu-me.

- E a vizinha que pensa disso? Quer dizer, é bem mais nova que a minha mãe e já é avó…

- Olha, sou avó aos 40. Não é gostasse muito da ideia. Sou mais mãe da minha neta que a minha filha. Ela engravidou, não quis abortar, o namorado dela estava todo contente, era só love aqui e ali… tudo um mar de rosas. O rapaz tem 16anos. Mas sabe? Ele em pouco tempo deixou a minha Jéssica. Já emprenhou outra miúda aqui do bairro. Sabe uma coisa? Haja vida e Saúdinha. 


Haja Vida e Saúde. E tempo para tomar pílulas ou colocar preservativos correctamente, não?

sábado, 10 de janeiro de 2015

Conversas de café

Café Brasileira, 10h da manhã. Tomando café com mi mammy e um grupo de amigas dela (cinquentonas, sexagenérias, meias aluadas e com pés ou já na reforma).

Fala uma velhota que tem a mania que é intelectual e de família importantes e que tem um tom de voz todo pomposo, altivo e irritante:

- O meu tio (que-Deus-o-tenha) era um excelente médico. Trabalhava num Posto de Saúde ali prós lados de Melgaço. Uma vez, um garotito pequeno, estava com o pai na pesca e engoliu um anzol da pesca da lampreia. Então chamaram o meu tio ao Posto de Saúde e olhem, há cinquenta anos não havia meios de socorrer como há agora e então o meu tio fez-lhe  um corte na barriga, na zona do estômago e conseguiu tirar-lhe o anzol!!! O meu tio, médico do Posto  de Saúde, fez-lhe uma cirurgia e salvou a criança!!! Toda a gente ficou maravilhada com a proeza do meu tio. E sabem que mais? Gostou tanto da experiência que resolveu fazer uma especialidade ligada ao estômago: ESTOMATOLOGISTA!!!


Só Deus sabe o quanto me esforcei para não me rir à frente da velhota, uma vez que:


1. Pesca-se lampreias com anzol ou com rede? Sempre ouvi falar em redes para apanhar tais bichorocos.
2. Estomatologia- médico especialista de problemas da boca.
3. Gastroenterologista - médico especialista do trato digestivo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je suis Charlie

Quando à hora do almoço liguei a TV e vi a notícia do massacre, o meu pensamento foi: "O Mundo está perdido".

Há uma linha ténue entre a liberdade de expressão e o humor às vezes um bocado parvo a puxar para a ofensa. Não concordo de todo com certas caricaturas do jornal por as achar um tanto desnecessárias, mas considero este ataque como desumano, mesquinho, miserável, desprezível, covarde, não só contra pessoas mas também contra o espírito de liberdade que elas personificavam e, apesar de muitas terem sido assassinadas, ainda personificam.

Nunca esquecer que há vários séculos, a sátira fora criada não só para ridicularizar, mas também (e principalmente) para advertir, ensinar, mostrar de forma lúdica os erros cometidos pela sociedade, pela política, pelo Mundo em geral. Boas obras como de Platão, de Shakespeare, de Moliere ou até do nosso Gil Vicente permanecem atuais até.


Je suis Charlie em Portugal, porque a geração dos meus pais e dos meus avós lutou contra as trevas da ditadura de Salazar.

Je suis Charlie quando eu e a minha geração grita verdades e luta por elas para que não voltemos de novo às trevas. 
 
Je suis Charlie porque tenho a sorte de ter acesso a informações de todo o Mundo e sou abençoada pela sorte de poder fazer críticas e mostrá-las a todos.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Ainda sobre nomes

Intervalo entre aulas, algures em 2000, estava eu no 9º ano.
Entre amigas, comentava-mos quais os nomes mais bonitos para dar a um bebé.
Alguém refere que antigamente se dava o nome dos avós às crianças.
Uma das raparigas pergunta-me como se chama a minha mãe.
Respondo-lhe que se chama Matilde Catarina e os cinco apelidos de família.

Essa rapariga diz:

- Matilde!!!???? Aí está  um nome que jamais daria a uma filha! Que nome de velha. Ou então nome de sopeira! Matilde... Que horror!

Apesar de não gostar muito do nome da minha mãe, juro que fiquei um tanto ofendida com o comentário da colega, especialmente porque quem era sopeira era a mãe dela e não a minha.

Janeiro 2015. Cruzo-me com essa rapariga após quase 15 anos sem a ver, enquanto ela passeava um carrinho de bebé num shopping aqui da zona. Troco dois dedos de conversa e faço um gesto carinhoso à filha dela que nos observava sentada no carrinho. Digo-lhe:
- Que linda menina que tu tens... como se chama?

- É linda, não é? Chama-se Matilde.

AHAHAHAHAHHAHAHAHAH


De acordo com o jornal Público, Matilde foi o segundo nome mais dado em 2014 a 2062 meninas. Nomes que eram muito em voga na década de 80 como as Sónias, as Carlas, as Cátias e as Jéssicas estão 30 anos depois com tendência a desaparecer (felizmente).


Isto que dizer que ultimamente tem aparecido muitas sopeirinhas em carrinhos de bebés, muitas pessoas desesperadas a gritar "Oh Matildeeeeeeee" pelas filhotas, que levam a minha mãe à loucura por estar sempre a pensar que a Matilde é ela.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dos nomes,

Eu, a minha mãe e a minha irmã estávamos a comer castanhas em frente à lareira.
Conversa vai, conversa vem e surge o tema "Onde raio tinha a mãe a cabeça para dar nomes tão estranhos às filhas".

- É que a mãe não está a entender! Só eu e a Alima é que temos nomes fora do comum. Os nomes das suas sobrinhas, nossas primas, são nomes de aristrocatas! É Catarinas, é Constanças, é Mafaldas, é Leonores, é Luísas, é Isabeis, é Franciscas, é Marianas, é...! Nomes pomposos! Nomes que ficam para a história! Toda a gente conhece as rainhas Isabel, toda a gente conhece a princesa Leonor...  Elas são mais que nós?- replica a minha irmã em tom divertido.

A minha mãe fica um bocado encavacada.

- Oh filhas, quando vocês nasceram eu também não gramei muito o vosso nome. Aliás, continuo a não gramar, se bem que já me habituei a gritar por eles. Mas o vosso pai com a mania dos significados e das profecias... Sabedoria, pureza, presente de Deus... blá blá blá como se o significado de um nome caracterizasse uma pessoa... Eu também preferia ter uma Eunice ou uma Dulce cá em casa.

- A mãe tem noção que eu e a minha irmã com esta brincadeira temos exactamente o mesmo nome, mas o meu é diminutivo? - perguntei. - Tipo, tantos nomes por aí e foi dar exactamente o mesmo nome às duas filhas

- Oh... mas o que isso interessa? O que interessa é que ambas têm um C. em iniciais o que vos deu o direito de ficarem com um enxoval bordado de linho antigo dos vossos avós! Já viram a vossa sorte?- diz a minha mãe, sorrindo.


Começo a achar que os meus pais escolheram os nomes por causa do enxovalzinho já feito. Enxovalzinho que apodrece na arca no corredor...E tanto o meu primeiro nome como o da minha irmã são péssimos. Nomes de galdérias ou de cantoras pimba mesmo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Noite de passagem de ano, casa da Flor,

Vinte e quatro pessoas. Duas delas crianças. Também estava lá um rafeirote.
Dos vinte e três adultos, nove deles são finalistas de Medicina Dentária. Estavam também por lá seis engenheiros, uma veterinária, uma psicóloga, uma assistente social, um estilista, dois empresários, uma higienista. Também estava lá eu. 

Apesar da casa da Flor ser isolada, num bairro que parecia deserto o barulho foi tanto que algum vizinho chamou a Polícia que foi lá dar-nos uma reprimendazinha. Mas como somos pessoas simpáticas e como eles foram uns queridos, ainda se serviram de Bolo Rei que tínhamos na mesa.


Começamos bem. Feliz 2015 :D