domingo, 21 de dezembro de 2014

Então Alima, conta lá como eram as tuas Consoadas na Infância...

Ano sim, ano não, passava na casa ou dos meus avós paternos (aka avô Custódio) ou na dos meus avós maternos (aka Avô Adelino) que alternava com o Ano Novo.

De longe, em miúda, eu gostava mesmo era do Natal na casa dos meus avós maternos. Tudo porque tinha uma catrafada de primos para brincar, porque era uma barulheira e confusão geral, onde predominavam as piadas, os risos e as discussões estúpidas. Era um Natal bem mais trabalhoso que na casa do avô Custódio, porque era muita mais gente, porque a casa era vinte vezes maior, onde a sala ficava numa ponta e a cozinha noutra e de um lado a outro, a avó fazia questão de deixar tudo impecável.

A decoração Natalícia cabia à inteira responsabilidade dos netos. Sabíamos de antemão que os objectos decorativos estavam num dos quartos do mirante. Antes da noite cair,  íamos buscar o musgo aos muros do laranjal e montávamos o presépio no pátio da casa. 

A loiça era a do serviço mais refinado que havia por casa, e normalmente usava-se os talheres já super antigos, dos tempos em que os meus bisavós tinham uma fábrica de cutelaria em Guimarães, quase a tentar não esquecer os tempos em que havia abundância de dinheiro. Os copos... bem, esses todos os anos um e outro partiam-se. 

O salão estava sempre repleto de gente, onde quase não havia espaço para todos. As crianças sentavam-se a uma ponta e os adultos em outra. Muitas vezes usava-se a mesa de jogo para servir de mesa de refeições também. 
Ao fundo do salão, em cima de um louceiro, ou em cima de uma arca enorme num dos quartos, haviam dezenas de pratos com os típicos doces natalícios minhotos.

Além dos típicos doces, os pratos da Consoada eram sempre os mesmos: o polvo assado, o bacalhau, o peru, e os mariscos. 

A dona Maria, a velha empregada da família, vivia numa azáfama no dia da consoada, ora a descascar e a cortar batatas, ora varrer e a voltar a varrer a cozinha, ora a aumentar a fogueira e só bem à tardinha é que ia para a casa dela, normalmente com a comida já preparada da casa da minha avó. 

O avô Adelino, um homem sério e com uma presença bem marcante, tinha o dom de acabar com as discussões e era capaz de impor respeito e silêncio quando se sentia perdido entre a confusão. 

Em qualquer festa há sempre a dramática. Esse papel caia como uma luva à minha tia Lucrécia. Ou reclamava porque as batatas eram poucas, ou porque havia pouco bacalhau, ou porque as couves estavam mal cozidas. E o alho? não há alho nesta casa para comer com o bacalhau? Reclamava, reclamava mas era a que chegava sempre tarde,  não ajudava nas lidas domésticas e saia sempre cedo, não ajudando a lavar a loiça.

Há meia noite tocava o sino para a missa de Natal. Ainda havia quem defendesse que deveríamos ir, mas não me recordo de ninguém que se tenha levantado para ir realmente.

Quase há hora da saída aparecia um Pai Natal que ia dando as prendinhas às crianças, normalmente uma caixa de chocolatitos para cada uma... Esse Pai Natal era claramente a minha tia Constança, porque mesmo atrás das barbas, via-se a quantidade de maquilhagem que ela usava (e usa) que sempre a fez com um aspecto pesarão. 
Mas a verdadeira magia do Pai Natal acontecia quando chegava à minha casa e na lareira estavam as minhas prendas que o velho de barbas deixava. Nunca eram as prendas que realmente pedia, eram bem mais fraquitas, mas para mim era fantásticas.
No dia seguinte, reecontravamos na casa do avô Adelino para comer a roupa velha e para acabar com os doces.

Eram Natais felizes e abundantes e sinto que a morte do meu avô Adelino no dia 25 de Dezembro de 1994 tenha sido a causa da decandência que foi aumentando nas Consoadas nos anos seguintes.

Na casa do avô Custódio, casa pobre e velhinha, comia-se na escura e decadente cozinha beirã junto ao fogo para fugir do frio, muitas vezes com o prato na mão. Eramos apenas 5-6 pessoas à mesa, não havendo mais crianças além de mim e da minha irmã, logo a refeição era feita em silêncio, ainda por cima sem televisão, porque a televisão ficava na sala. A refeição consistia apenas no bacalhau e nas batatas e um prato de aletria e mexidos. E depois de jantar, ficava-se à lareira a falar trivialidades. 

O pai Natal nunca chegou àquela aldeia. Ali era o Menino Jesus que dava as prendas. E era ali que compreendia que num frio daqueles, uma vaca e uma mula não são de todo suficientes para aquecer alguém. A casa do avô Custódio nunca soube o que era um presépio nem uma fita de Natal sequer. Que eu saiba, só a casa da frente e a de outra família é que tinham umas luzitas de Natal e pouco mais.

Todos os anos a minha mãe chorava porque queria estar na casa dos pais dela e no meio da confusão. Era a dramática da festa: ou porque aquele bacalhau era do fraco, ou porque a aletria estava uma porcaria (a minha avó metia leite na aletria, coisa que a minha mãe odiava), ou porque era o seu pior Natal de sempre. 
O problema é que ela mal sabia que iríamos passar no futuro Natais bem piores, Natais ainda com menos gente, Natais com menos comida.

O último Natal que passei na casa dos meus avós paternos foi o de 1996. Depois disso todas as festas começaram a ser feitas na casa da minha avó materna até à morte do avô Custódio a 22 de Dezembro em 1999.  E foi a partir desse ano que os Natais perderam completamente aquele sabor. Pode ser que volte a ter sabor quando voltarem a haver crianças à mesa. Nunca mais montei presépios nem decorei pinheiros de Natal. Tais decorações estão guardadas em parte incerta no sotão de casa. 

Alima.



0 impressões:

Enviar um comentário