domingo, 28 de dezembro de 2014

Do Karma

Sou uma pessoa que tem muito orgulho nas unhas. São unhas que dificilmente se quebram, são unhas que consigo deixar crescer sem problemas, se bem que desde pequena tenho o hábito de as ter curtas por causa do piano. São unhas que nunca levaram com gelinhos nem merdinhas em cima a não ser com vernizes de cor normalmente subtis ou no Verão com cores bem garridas. 

E pronto, este ano a minha mãe aconselhou-me que para ir toda pimpona para a consoada, deveria fazer uma manicure numa profissional:

- Deverias ir a uma moça que tem um centro de estética ali para os lados do centro. Faz baratinho. A tua irmã costuma lá fazer as unhas de gel. 

(Sim, a minha irmã é daquelas que tem umas unhas todas lixadas à conta do vício de as roer até não poder mais e daí ter posto gel naquilo que sobra de unhas...)

E lá fui eu, toda contente conhecer a profissional que trata das manápulas da minha irmã.

Cheguei ao centro de estética. Entro e a primeira coisa que reparei foi nas paredes verde pistacho de gosto duvidoso, no enorme espelho com luzinhas fusco-fusco e no balcão em madeira com um Pai Natal de pequeno tamanho. Chega a esteticista com uma farda toda florida tipo enfermeira americana e de máscara na cara.

- Boa tarde... é para quê?

 Imediatamente expliquei que queria que ela me desse um jeitinho às unhas. 

- Fachabôr de entrar naquele gabinete.

Entrei, sentei-me numa cadeira que lá estava. A gaja tinha tirado a máscara. De vislumbre, observo-lhe o focinho. EU CONHECIA-A de algum lado. E o meu pressentimento sobre ela não era bom. A gaja, com retoques de enjoada começa a pôr as minhas mãos numa tina de água morna. 
Eu tinha que puxar conversa:
- Está muito frio lá fora... isto está mau para quem sofre de frieiras... está-se em casa no quentinho, vai-se para a rua e quem sofre são as mãos.

- Você tem razão... então na minha zona cai geada que é uma coisa por demais... Frio lá e às vezes cá em cima está calor.- responde-me.

- Hum... geada é coisa típica na minha zona também. Onde vive mesmo?- pergunto descaradamente.

- Vivo na urbanização de S. Jerónimo- responde-me despreocupadamente.

- Que giro, eu moro relativamente perto! Provavelmente andamos na mesma escola.- digo.

- É provavel... eu era da turma do Xico. Toda a gente conhecia o Xico. 

Sim, toda a gente conhecia esse gajo pelos assaltos, arraiais de porrada que levava do padrasto e daquela vez que ele golpeou uma miúda com um x-ato por causa de cem escudo.

- A propósito, eu também era conhecida. Era conhecida pela Patoca. E tu? como te chamas? A tua cara não me é estranha...- continuou.

Claro, claro que me lembrava desta gaja, Era uma bully de primeira. Andava sempre com um grupinho de amigas, sempre vestidas de tons escuros e sempre a tentar enfernizar os mais novos, os maios calados, os menos populares. Andavam sempre a pedir dinheiro emprestado que não voltariam a entregar. Fumavam e curtiam atrás dos balneários. Lembro-me desta Patoca ter oferecido porrada a outra gaja por causa de um namorado que tinham em comum. E que a briga foi bem feia. Lembro-me de ela ter faltado a um teste de História e ter ido fazer esse teste na minha turma. E ela passou o tempo todo a chamar pela pessoa ao lado, neste caso eu, para que lhe desse as respostas ao qual eu categoricamente ignorei-a porque estava concentrada a fazer o meu e porque não tinha vontade nenhuma de a ajudar. A gaja à saída do teste deu-me um enorme pontapé na perna ao qual não reagi, ignorando-a.

Comecei a sorrir parvamente quando estas recordações vieram-me à cabeça. 

- Meu nome é Alima. 

Aquela que foi rainha da EB 2/3 está a fazer unhas a uma das suas antigas vítimas... Ai o sabor agridoce do karma!

 E sim, deixei gorjeta :)  





2 impressões:

Lia disse...

E ela ficou a saber (tão bem quanto tu) quem eras? :D Essa é que é parte gira do karma *.* ahahah

Alima das Cartas disse...

Hummmm sim... acabou por me reconhecer :) Afinal ainda mantenho o meu ar de menina :D

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