terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Do enxoval

Não há muito tempo, se houvesse boa mãe que se prezasse, teria de aos poucos e poucos fazer um enxoval para os seus filhos. 

A minha mãe, de boas famílias minhotas, acabou por herdar da mãe dela, assim como das suas avós, das tias solteiras, de um padre bonacheirão e de um advogado da família que morreu solteiro, entre alguns objectos de valor, uma generosa quantidade de lençóis de linho assim como uma enorme panóplia de toalhas, camisas, cortinas e panos em linho bordado e rendas. 
Todo este enxoval que a minha mãe herdou está religiosamente bem guardado na arca renascentista que ela tem no quarto dela. Esta arca, quando aberta (o que é para aí uma vez ao ano), liberta um cheio intenso a alfazema dos saquinhos de algodão que tem lá dentro. 

Ou seja, em casa temos dois enxovais: o que vamos rompendo e o que nunca o vemos para não o romper. 

Volta e meia a minha mãe lava todo aquele linho porque é um tecido que mancha rapidamente. Fica meio amarelado como se estivesse em contacto com a ferrugem. Lava, põe limão nas manchas e deixa a curar ao sol... E como se não bastasse, se há passatempo que ela tem é passear por feiras de antiguidades e compra mais e mais linho ou bordados em linho.

"Vês, Alima... este linho caseiro pode não ser tão bonitinho como o industrial, mas que é melhor lá isso é.. Isto nunca mais acaba", diz-me sempre quando a acompanho.

Outro passatempo que ela tem é crochet. Cresci com a minha mãe sentada no sofá com a telenovela ligada enquanto contava os quadrados do seu crochet. E quem tem uma mãe que faz crochet, tem uma mãe que colecciona cortinas, colchas, toalhas e outras coisas. Até começarmos a comprar LCD's, todas as televisões tinham um paninho em cima.
E recordo-me bem daquele dia em que a minha mãe amuou, porque retirei as cortinas de linho do quarto para substituir por umas mais leves. "Assim desvalorizas o teu quarto, Alima!!!". Respondi-lhe que já bastava ter mobília estilo D. José no quarto, que não precisava de mais coisas para que se parecesse um quarto de museu. 

Poucas vezes por ano a tal arca é aberta e das poucas vezes que o é, é para resgatar algum jogo de lençóis de cama ou de banho quando temos visitas.
Sei que há lá uma toalha adamascada de mesa com quatro metros que a minha mãe comprou há muitos anos para que a usássemos na minha festa de final de curso. Eu já acabei um curso, a minha irmã também e a toalha nunca foi usada. Em tom de gozo perguntei à minha mãe, quando é que ela quer usá-la mesmo ao que ela respondeu que ainda não acabei o curso, nem fiz uma recepção aos convidados no meu casamento... pois, pois...

Nós bem dizemos à minha mãe que está na altura de ela começar a usar as coisas que ela foi herdando ao que ela responde "é pena estarmos a estragá-las... não querem que os meus futuros genros quando vieram cá visitar-me, durmam em lençóis bons? Estas coisas é para guardar para as visitas!"

Aposto que nenhum genro da minha avó dormiu em tais lençóis...

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