segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Tia Emília

A tia Emília era a irmã mais velha do meu avô. 
Era dona de uns olhos azuis, tal como os seus irmãos, um desdentado sorriso simpático e uma pele bem enrugada, fruto dos ventos da serra e dos anos na lida nos campos.

Em nova era uma mulher bonita. Loira e de olhos azuis. Como se de uma germânica ou viking se tratasse. Bonita e pobre. Tão bonita e tão pobre que fez com que o padre da aldeia se aproveitasse dela e lhe fizesse um filho. Chamaram-na de perdida. Perguntámos uma vez onde tinha ela a cabeça para se meter com um homem da igreja ao que ela respondeu que a fome e a necessidade era tanta que tinha que se sujeitar.

E como ninguém queria casar com uma mulher já com um filho, sujeitou-se a casar-se com um pobre bêbedo da aldeia. Dele teve mais cinco filhos. Todos os seus seis filhos dormiam na mesma cama em pequenos: três de um lado, três do outro. E quando os filhos foram crescendo, deixou-os na casa da cunhada para que os fosse criando. Dele também teve uma vida dura de violência doméstica e de muita miséria.

Viu dois filhos partirem para a guerra no Ultramar. Voltaram vivos. Viu todos os seus filhos emigrarem para França. Viu todos a voltarem com alguma fortuna para que pudessem abrir negócios no vila. Os pobres da aldeia tornaram-se praticamente donos de tudo que fosse negócio no vila.

A tia Emília foi uma figura que fez parte da minha infância e da minha adolescência, não fosse ela cunhada e confidente da minha avó. Recordo-me dela na cozinha escura da minha avó a descascar ervilhas à lareira. Tenho uma lembrança dela ter um prato enorme de barro com um galo pintado, onde ela, a minha avó e o meu avô comiam ao mesmo tempo do mesmo prato. 
Recordo-me que num Natal qualquer, a minha mãe comprou-lhe um perfume baratucho, o que a deixou extremamente comovida: foi o primeiro perfume que recebera em toda a sua vida.

Assistiu ao funeral do seu irmão mais novo (que morrera de silicose pouco após o encerramento das minhas de vulfrâmio), do seu irmão do meio, da sua cunhada, do marido, de dois filhos e de um neto. Foi ela que vestiu e asseou o irmão do meio quando ele faleceu. 
E com a perda dos dois filhos e do neto, começou-se a pensar que ela iria morrer de desgosto em breve. Aguentou-se da melhor forma como pode, indo semanalmente visitar o túmulo dos filhos. Mas foi, claro um duro golpe para ela. 
Os sintomas de senilidade logo logo apareceram. Sempre que a via na vila ia cumprimentá-la e ela já não me reconhecia. Mas educadamente lá trocava duas palavras comigo mesmo sem sabendo quem eu era.

A tia Emília resolveu partir numa manhã fria de Dezembro. Os seus olhos azuis fecharam-se para sempre. Tinha 97 anos e uma vida de muito sofrimento. Espero que ela tenha alcançado a paz que sei que ela merece. 


P. S. Nenhum filho ou neto destes três irmãos herdaram os olhos azuis. Foi a última pessoa da família a morrer com tal característica. 

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