terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Recapitulando 2014

Num balanço geral, o ano foi muito positivo. Que 2015 seja tão bom ou ainda melhor. Pressinto que 2015 será um ano de muitas mudanças, a ver vamos se vão ser positivas.

Feliz Ano Novo, boa gente.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Do Karma

Sou uma pessoa que tem muito orgulho nas unhas. São unhas que dificilmente se quebram, são unhas que consigo deixar crescer sem problemas, se bem que desde pequena tenho o hábito de as ter curtas por causa do piano. São unhas que nunca levaram com gelinhos nem merdinhas em cima a não ser com vernizes de cor normalmente subtis ou no Verão com cores bem garridas. 

E pronto, este ano a minha mãe aconselhou-me que para ir toda pimpona para a consoada, deveria fazer uma manicure numa profissional:

- Deverias ir a uma moça que tem um centro de estética ali para os lados do centro. Faz baratinho. A tua irmã costuma lá fazer as unhas de gel. 

(Sim, a minha irmã é daquelas que tem umas unhas todas lixadas à conta do vício de as roer até não poder mais e daí ter posto gel naquilo que sobra de unhas...)

E lá fui eu, toda contente conhecer a profissional que trata das manápulas da minha irmã.

Cheguei ao centro de estética. Entro e a primeira coisa que reparei foi nas paredes verde pistacho de gosto duvidoso, no enorme espelho com luzinhas fusco-fusco e no balcão em madeira com um Pai Natal de pequeno tamanho. Chega a esteticista com uma farda toda florida tipo enfermeira americana e de máscara na cara.

- Boa tarde... é para quê?

 Imediatamente expliquei que queria que ela me desse um jeitinho às unhas. 

- Fachabôr de entrar naquele gabinete.

Entrei, sentei-me numa cadeira que lá estava. A gaja tinha tirado a máscara. De vislumbre, observo-lhe o focinho. EU CONHECIA-A de algum lado. E o meu pressentimento sobre ela não era bom. A gaja, com retoques de enjoada começa a pôr as minhas mãos numa tina de água morna. 
Eu tinha que puxar conversa:
- Está muito frio lá fora... isto está mau para quem sofre de frieiras... está-se em casa no quentinho, vai-se para a rua e quem sofre são as mãos.

- Você tem razão... então na minha zona cai geada que é uma coisa por demais... Frio lá e às vezes cá em cima está calor.- responde-me.

- Hum... geada é coisa típica na minha zona também. Onde vive mesmo?- pergunto descaradamente.

- Vivo na urbanização de S. Jerónimo- responde-me despreocupadamente.

- Que giro, eu moro relativamente perto! Provavelmente andamos na mesma escola.- digo.

- É provavel... eu era da turma do Xico. Toda a gente conhecia o Xico. 

Sim, toda a gente conhecia esse gajo pelos assaltos, arraiais de porrada que levava do padrasto e daquela vez que ele golpeou uma miúda com um x-ato por causa de cem escudo.

- A propósito, eu também era conhecida. Era conhecida pela Patoca. E tu? como te chamas? A tua cara não me é estranha...- continuou.

Claro, claro que me lembrava desta gaja, Era uma bully de primeira. Andava sempre com um grupinho de amigas, sempre vestidas de tons escuros e sempre a tentar enfernizar os mais novos, os maios calados, os menos populares. Andavam sempre a pedir dinheiro emprestado que não voltariam a entregar. Fumavam e curtiam atrás dos balneários. Lembro-me desta Patoca ter oferecido porrada a outra gaja por causa de um namorado que tinham em comum. E que a briga foi bem feia. Lembro-me de ela ter faltado a um teste de História e ter ido fazer esse teste na minha turma. E ela passou o tempo todo a chamar pela pessoa ao lado, neste caso eu, para que lhe desse as respostas ao qual eu categoricamente ignorei-a porque estava concentrada a fazer o meu e porque não tinha vontade nenhuma de a ajudar. A gaja à saída do teste deu-me um enorme pontapé na perna ao qual não reagi, ignorando-a.

Comecei a sorrir parvamente quando estas recordações vieram-me à cabeça. 

- Meu nome é Alima. 

Aquela que foi rainha da EB 2/3 está a fazer unhas a uma das suas antigas vítimas... Ai o sabor agridoce do karma!

 E sim, deixei gorjeta :)  





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Das ofertas

Se há coisa que não me importo de fazer é oferecer aos meus amigos o que vou tendo a mais. Por exemplo, todos os anos é sistemático que dê um saco de castanhas a algumas pessoas, uma vez que durante o Outono a minha mãe gosta de ir para os soutos apanhar castanhas e no Natal, sempre que vou à aldeia do meu pai, há sempre alguém que nos ofereça generosos kilos de castanhas para retribuir o facto de estarem a utilizar os nossos pastos e os nossos campos. E estas castanhas são para mim as melhores porque são enormes e demoram muito mais a apodrecer.

Muitas dessas pessoas me retribuem de volta com alguma prendinha simbólica assim que sabem que lhes vou dar castanhas ou outra coisa. Pronto... uma espécie de troca em que todos ficamos a ganhar.

Mas se há coisa que me irrita um bocado são aquelas pessoas que damos durante anos e elas nem sequer agradecem. E irrita-me mais quando ainda mandam bocas a mostrar que estão à espera de mais um saco de castanhas por exemplo.


Este ano fiz um pacto com a minha mãe: oferecer a quem nos oferece. Parece uma troca mais que justa. As castanhas que não dermos e que não comermos que apodreçam!

Hoje estava eu a tirar as compras do carro e aproximou-se uma vizinha que todos anos a minha mãe lhe oferecia fruta e que nunca se dignou de retribuir com o quer que fosse.

- Ai Alima, venho agora do supermercado, queria comprar umas castanhitas para por a assar na lareira mas estão tãaaao caras...!

- Pois estão Sra. M.! Venho do mesmo supermercado e reparei isso... Ainda bem que tenho imensas castanhas cá em casa que fomos apanhando ou que nos deram, senão ir-me-ia embora este ano sem provar uma. Olhe, são tantas que já estão a apodrecer o que é uma pena- digo-lhe dissimuladamente.

A mulher como viu que este ano não recebia nada deu meia volta...pronto.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Natal

O Natal. Detesto o Natal. É das piores épocas festivas que tenho que engolir e esta nunca consigo escapar.

Natal perfeito seria eu, de pijama e robe, de meias, à frente da lareira enquanto vejo um filme ou enquanto estou entretida a jogar na Wii. Se possível com a minha irmã e com a minha mãe a jogar também.

Mas não: Natal para ser Natal com a minha mãe, tem de ser enfiada numa sala de jantar bem barulhenta com os meus 14 tios e os meus 18 primos, família essa que só encontro nestas festas e alguns casamentos (porque esta gente nem se digna de ir a funerais). E quando se junta muita gente, é para discutir, roubarem os lugares da mesa uns dos outros. E depois promete-se que não se volta a repetir uma consoada assim no próximo ano. Mas depois  esquece-se e volta tudo ao mesmo todos os anos.

Natal é aquela época festiva que se pensa em usar uma roupinha bonitinha, mas acabamos por vestir uns jeans e uma camisola polar porque faz um frio do caraças.
É aquela altura em que o meu lado claustrofóbico surge quando estou dentro de um Centro Comercial, porque é muita confusão, porque é muito barulho, porque o mesmo cd de músicas natalícias passa em todos os lados, porque há muitas criancinhas aos gritos à solta, porque para embrulhar uma prenda tenho de estar numa fila com 1000001 pessoas....

Odeio o Natal. Já disse que odeio o Natal?






domingo, 21 de dezembro de 2014

Então Alima, conta lá como eram as tuas Consoadas na Infância...

Ano sim, ano não, passava na casa ou dos meus avós paternos (aka avô Custódio) ou na dos meus avós maternos (aka Avô Adelino) que alternava com o Ano Novo.

De longe, em miúda, eu gostava mesmo era do Natal na casa dos meus avós maternos. Tudo porque tinha uma catrafada de primos para brincar, porque era uma barulheira e confusão geral, onde predominavam as piadas, os risos e as discussões estúpidas. Era um Natal bem mais trabalhoso que na casa do avô Custódio, porque era muita mais gente, porque a casa era vinte vezes maior, onde a sala ficava numa ponta e a cozinha noutra e de um lado a outro, a avó fazia questão de deixar tudo impecável.

A decoração Natalícia cabia à inteira responsabilidade dos netos. Sabíamos de antemão que os objectos decorativos estavam num dos quartos do mirante. Antes da noite cair,  íamos buscar o musgo aos muros do laranjal e montávamos o presépio no pátio da casa. 

A loiça era a do serviço mais refinado que havia por casa, e normalmente usava-se os talheres já super antigos, dos tempos em que os meus bisavós tinham uma fábrica de cutelaria em Guimarães, quase a tentar não esquecer os tempos em que havia abundância de dinheiro. Os copos... bem, esses todos os anos um e outro partiam-se. 

O salão estava sempre repleto de gente, onde quase não havia espaço para todos. As crianças sentavam-se a uma ponta e os adultos em outra. Muitas vezes usava-se a mesa de jogo para servir de mesa de refeições também. 
Ao fundo do salão, em cima de um louceiro, ou em cima de uma arca enorme num dos quartos, haviam dezenas de pratos com os típicos doces natalícios minhotos.

Além dos típicos doces, os pratos da Consoada eram sempre os mesmos: o polvo assado, o bacalhau, o peru, e os mariscos. 

A dona Maria, a velha empregada da família, vivia numa azáfama no dia da consoada, ora a descascar e a cortar batatas, ora varrer e a voltar a varrer a cozinha, ora a aumentar a fogueira e só bem à tardinha é que ia para a casa dela, normalmente com a comida já preparada da casa da minha avó. 

O avô Adelino, um homem sério e com uma presença bem marcante, tinha o dom de acabar com as discussões e era capaz de impor respeito e silêncio quando se sentia perdido entre a confusão. 

Em qualquer festa há sempre a dramática. Esse papel caia como uma luva à minha tia Lucrécia. Ou reclamava porque as batatas eram poucas, ou porque havia pouco bacalhau, ou porque as couves estavam mal cozidas. E o alho? não há alho nesta casa para comer com o bacalhau? Reclamava, reclamava mas era a que chegava sempre tarde,  não ajudava nas lidas domésticas e saia sempre cedo, não ajudando a lavar a loiça.

Há meia noite tocava o sino para a missa de Natal. Ainda havia quem defendesse que deveríamos ir, mas não me recordo de ninguém que se tenha levantado para ir realmente.

Quase há hora da saída aparecia um Pai Natal que ia dando as prendinhas às crianças, normalmente uma caixa de chocolatitos para cada uma... Esse Pai Natal era claramente a minha tia Constança, porque mesmo atrás das barbas, via-se a quantidade de maquilhagem que ela usava (e usa) que sempre a fez com um aspecto pesarão. 
Mas a verdadeira magia do Pai Natal acontecia quando chegava à minha casa e na lareira estavam as minhas prendas que o velho de barbas deixava. Nunca eram as prendas que realmente pedia, eram bem mais fraquitas, mas para mim era fantásticas.
No dia seguinte, reecontravamos na casa do avô Adelino para comer a roupa velha e para acabar com os doces.

Eram Natais felizes e abundantes e sinto que a morte do meu avô Adelino no dia 25 de Dezembro de 1994 tenha sido a causa da decandência que foi aumentando nas Consoadas nos anos seguintes.

Na casa do avô Custódio, casa pobre e velhinha, comia-se na escura e decadente cozinha beirã junto ao fogo para fugir do frio, muitas vezes com o prato na mão. Eramos apenas 5-6 pessoas à mesa, não havendo mais crianças além de mim e da minha irmã, logo a refeição era feita em silêncio, ainda por cima sem televisão, porque a televisão ficava na sala. A refeição consistia apenas no bacalhau e nas batatas e um prato de aletria e mexidos. E depois de jantar, ficava-se à lareira a falar trivialidades. 

O pai Natal nunca chegou àquela aldeia. Ali era o Menino Jesus que dava as prendas. E era ali que compreendia que num frio daqueles, uma vaca e uma mula não são de todo suficientes para aquecer alguém. A casa do avô Custódio nunca soube o que era um presépio nem uma fita de Natal sequer. Que eu saiba, só a casa da frente e a de outra família é que tinham umas luzitas de Natal e pouco mais.

Todos os anos a minha mãe chorava porque queria estar na casa dos pais dela e no meio da confusão. Era a dramática da festa: ou porque aquele bacalhau era do fraco, ou porque a aletria estava uma porcaria (a minha avó metia leite na aletria, coisa que a minha mãe odiava), ou porque era o seu pior Natal de sempre. 
O problema é que ela mal sabia que iríamos passar no futuro Natais bem piores, Natais ainda com menos gente, Natais com menos comida.

O último Natal que passei na casa dos meus avós paternos foi o de 1996. Depois disso todas as festas começaram a ser feitas na casa da minha avó materna até à morte do avô Custódio a 22 de Dezembro em 1999.  E foi a partir desse ano que os Natais perderam completamente aquele sabor. Pode ser que volte a ter sabor quando voltarem a haver crianças à mesa. Nunca mais montei presépios nem decorei pinheiros de Natal. Tais decorações estão guardadas em parte incerta no sotão de casa. 

Alima.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Caro C.,

Como tu disseste naquela esplanada junto ao mar, debaixo de um sol tímido, a nossa amizade dura há anos. Uma amizade em que o contacto físico foi pouco, mas que graças ao computador, esse contacto não é assim tão obrigatório. Passamos horas a lermos um ao outro. Desabafamos um com o outro tantas vezes. Foste um porto de abrigo quando eu passei por um momento menos bom na minha vida. E o mais engraçado é que naquela esplanada fizemos piadas sobre essa fase que passei.
E com a mesma naturalidade continuamos a falar na cara um do outro sobre acontecimentos das nossas vidas. 

E quando me interrogaste porque é que nunca tentamos uma coisa séria um com o outro apesar de nos completarmos mutuamente, simplesmente sorri e limitei a explicar o meu conceito de distância e as consequências dela. Tal como toda a gente, estamos a lutar por chegar ao auge da nossa felicidade, auge esse que é inconstante e sempre mais difícil de alcançar, como se de patamares se tratasse. E nessa luta estamos juntos, meu querido, como camaradas de guerra contra as adversidades deste mundo e do nosso destino. 

Quando me falaste que irias tentar lutar por uma pessoa da qual achas que estás realmente disposto a abdicar de muitas coisas, eu limitei a advertir-te das consequências que às vezes eu sei bem e tu nem por isso. Abdicar de qualquer coisa faz parte da vida, mas até que ponto vale abdicar algo por alguém?

Desejo acima de tudo que a luta seja curta: ou que a conquistes depressa ou que assim que perceberes que talvez não valha a pena, desistas depressa. Porque desistir nem sempre é coisa de cobardes. Desistir muitas vezes é a solução para que não te leve à loucura, loucura que tu bem sabes que eu passei e que vou recuperando.


Na nossa despedida, abraçamos-nos e seriamente pensei em beijar-te. Um beijo terno, doce, sem compromisso e não tão intenso como naqueles do cinema. Mas optei por não o fazer não fosse eu ser mal interpretada ou de poder dar-te esperanças onde penso que talvez não existam.

Boa sorte com a tua luta...e que aquele farol que me mostraste ilumine sempre o teu caminho...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Facto

Enfardar dois pacotes de amendoins cobertos de Paprika e de Chilli, enquanto se olha para os livros, a menos de uma semana de começar os exames, deixa-me um bocado mal dispostinha.




Não sei se é dos livros. Ou do stress dos exames. Ou dos amendoins.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Tia Emília

A tia Emília era a irmã mais velha do meu avô. 
Era dona de uns olhos azuis, tal como os seus irmãos, um desdentado sorriso simpático e uma pele bem enrugada, fruto dos ventos da serra e dos anos na lida nos campos.

Em nova era uma mulher bonita. Loira e de olhos azuis. Como se de uma germânica ou viking se tratasse. Bonita e pobre. Tão bonita e tão pobre que fez com que o padre da aldeia se aproveitasse dela e lhe fizesse um filho. Chamaram-na de perdida. Perguntámos uma vez onde tinha ela a cabeça para se meter com um homem da igreja ao que ela respondeu que a fome e a necessidade era tanta que tinha que se sujeitar.

E como ninguém queria casar com uma mulher já com um filho, sujeitou-se a casar-se com um pobre bêbedo da aldeia. Dele teve mais cinco filhos. Todos os seus seis filhos dormiam na mesma cama em pequenos: três de um lado, três do outro. E quando os filhos foram crescendo, deixou-os na casa da cunhada para que os fosse criando. Dele também teve uma vida dura de violência doméstica e de muita miséria.

Viu dois filhos partirem para a guerra no Ultramar. Voltaram vivos. Viu todos os seus filhos emigrarem para França. Viu todos a voltarem com alguma fortuna para que pudessem abrir negócios no vila. Os pobres da aldeia tornaram-se praticamente donos de tudo que fosse negócio no vila.

A tia Emília foi uma figura que fez parte da minha infância e da minha adolescência, não fosse ela cunhada e confidente da minha avó. Recordo-me dela na cozinha escura da minha avó a descascar ervilhas à lareira. Tenho uma lembrança dela ter um prato enorme de barro com um galo pintado, onde ela, a minha avó e o meu avô comiam ao mesmo tempo do mesmo prato. 
Recordo-me que num Natal qualquer, a minha mãe comprou-lhe um perfume baratucho, o que a deixou extremamente comovida: foi o primeiro perfume que recebera em toda a sua vida.

Assistiu ao funeral do seu irmão mais novo (que morrera de silicose pouco após o encerramento das minhas de vulfrâmio), do seu irmão do meio, da sua cunhada, do marido, de dois filhos e de um neto. Foi ela que vestiu e asseou o irmão do meio quando ele faleceu. 
E com a perda dos dois filhos e do neto, começou-se a pensar que ela iria morrer de desgosto em breve. Aguentou-se da melhor forma como pode, indo semanalmente visitar o túmulo dos filhos. Mas foi, claro um duro golpe para ela. 
Os sintomas de senilidade logo logo apareceram. Sempre que a via na vila ia cumprimentá-la e ela já não me reconhecia. Mas educadamente lá trocava duas palavras comigo mesmo sem sabendo quem eu era.

A tia Emília resolveu partir numa manhã fria de Dezembro. Os seus olhos azuis fecharam-se para sempre. Tinha 97 anos e uma vida de muito sofrimento. Espero que ela tenha alcançado a paz que sei que ela merece. 


P. S. Nenhum filho ou neto destes três irmãos herdaram os olhos azuis. Foi a última pessoa da família a morrer com tal característica. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Como fazer com que a Alima se engasgue, fazendo estrandalhaço numa biblioteca pública...

Alima liga o computador.
Quando o computador da Alima se liga, liga imediatamente o Skype e Facebook Messenger.
Alguém escreve mensagem com um Olá no Skype para a Alima. A Alima responde-lhe.



E não... ele não estava a brincar... :(
E não.. não somos namorados.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Então Alima, que viste e sentiste ao ver a tua janela esta manhã?


Neve. E vontade de cortar pulsos tal o meu entusiasmo.

E começando logo a rezar que não vá ver muitas bacias e fémures partidos no Departamento de Ortopedia...ou que eu não vá lá parar tal a minha grande propensão a quedas.


Já disse que detesto neve..?

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Do enxoval

Não há muito tempo, se houvesse boa mãe que se prezasse, teria de aos poucos e poucos fazer um enxoval para os seus filhos. 

A minha mãe, de boas famílias minhotas, acabou por herdar da mãe dela, assim como das suas avós, das tias solteiras, de um padre bonacheirão e de um advogado da família que morreu solteiro, entre alguns objectos de valor, uma generosa quantidade de lençóis de linho assim como uma enorme panóplia de toalhas, camisas, cortinas e panos em linho bordado e rendas. 
Todo este enxoval que a minha mãe herdou está religiosamente bem guardado na arca renascentista que ela tem no quarto dela. Esta arca, quando aberta (o que é para aí uma vez ao ano), liberta um cheio intenso a alfazema dos saquinhos de algodão que tem lá dentro. 

Ou seja, em casa temos dois enxovais: o que vamos rompendo e o que nunca o vemos para não o romper. 

Volta e meia a minha mãe lava todo aquele linho porque é um tecido que mancha rapidamente. Fica meio amarelado como se estivesse em contacto com a ferrugem. Lava, põe limão nas manchas e deixa a curar ao sol... E como se não bastasse, se há passatempo que ela tem é passear por feiras de antiguidades e compra mais e mais linho ou bordados em linho.

"Vês, Alima... este linho caseiro pode não ser tão bonitinho como o industrial, mas que é melhor lá isso é.. Isto nunca mais acaba", diz-me sempre quando a acompanho.

Outro passatempo que ela tem é crochet. Cresci com a minha mãe sentada no sofá com a telenovela ligada enquanto contava os quadrados do seu crochet. E quem tem uma mãe que faz crochet, tem uma mãe que colecciona cortinas, colchas, toalhas e outras coisas. Até começarmos a comprar LCD's, todas as televisões tinham um paninho em cima.
E recordo-me bem daquele dia em que a minha mãe amuou, porque retirei as cortinas de linho do quarto para substituir por umas mais leves. "Assim desvalorizas o teu quarto, Alima!!!". Respondi-lhe que já bastava ter mobília estilo D. José no quarto, que não precisava de mais coisas para que se parecesse um quarto de museu. 

Poucas vezes por ano a tal arca é aberta e das poucas vezes que o é, é para resgatar algum jogo de lençóis de cama ou de banho quando temos visitas.
Sei que há lá uma toalha adamascada de mesa com quatro metros que a minha mãe comprou há muitos anos para que a usássemos na minha festa de final de curso. Eu já acabei um curso, a minha irmã também e a toalha nunca foi usada. Em tom de gozo perguntei à minha mãe, quando é que ela quer usá-la mesmo ao que ela respondeu que ainda não acabei o curso, nem fiz uma recepção aos convidados no meu casamento... pois, pois...

Nós bem dizemos à minha mãe que está na altura de ela começar a usar as coisas que ela foi herdando ao que ela responde "é pena estarmos a estragá-las... não querem que os meus futuros genros quando vieram cá visitar-me, durmam em lençóis bons? Estas coisas é para guardar para as visitas!"

Aposto que nenhum genro da minha avó dormiu em tais lençóis...