terça-feira, 4 de novembro de 2014

Das Amizades

Há muitos anos atrás, um antigo colega de liceu do meu pai foi transferido para a mesma repartição do exército onde o meu pai trabalhava. E como duas pessoas de oriundas de uma terriola distante, consolidaram um forte laço de amizade.

Cervejas pós-fim do serviço para aqui, jantares e almoços para acoli, o colega do meu pai começou a frequentar amiúde a nossa casa... enfim... pareciam dois irmãozinhos.

Até que chegou o dia em que todos os elementos da repartição teriam que se avaliar uns aos outros para obterem Louvores. O meu pai, por amizade e porque foi na cantiga do amigo do "já que somos da mesma terra, temos de nos ajudar um ao outro", deu nota máxima (Muito Bom ou Excelente, não me recordo qual a máxima) ao amigo, enaltecendo em meia dúzia de linhas as qualidades que o amigo tinha... 

O amigo do meu pai, aquele que tinha sido transferido para a mesma repartição algumas semanas antes, o mesmo que andou no mesmo liceu e que frequentava a nossa casa avaliou-lhe com um simples Satisfaz, escrevendo na meia dúzia de linhas que o meu pai era preguiçoso, que se baldava do serviço, que provavelmente teria problemas de alcoolismo que poderiam ameaçar a sua conduta. 

Quando o meu pai soube desta avaliação do seu amiguinho ficou seriamente triste, como é de esperar, com a atitude dele. Julgo que nunca se dignou de confrontá-lo perante aquela avaliação,. 

Perante as avaliações Muito Boas ou Excelentes de todas as patentes, o meu pai recebeu mais um louvor nesse mesmo ano. Portanto, aquela avaliação de Satisfaz foi apenas uma pequena areia na bota da tropa dele. 

Sei que o amigo ainda se tentou justificar com "Tu estás sempre a receber Louvores, está na altura dos outros também receberem".

Esta história foi-me contada pela minha mãe poucos anos depois do meu pai falecer, enquanto eu estava a tirar os quadros dos Louvores da parede para os limpar. 

Imediatamente comecei a pensar que o meu pai, para um homem adulto, foi muito muito ingénuo. Uma ingenuidade de um garoto de doze anos que espera que o amigo lhe dê todas as respostas do teste de Matemática. No meu pensamento, achei que não cairia numa destas. Ou pelo menos com esta lição nunca irei cair. 

Adoro ler e reler os Louvores que estão expostos pela casa. A minha palavra favorita neles escrita é ALTRUÍSMO. Linda palavra, não é?

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