segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Carta a uma jovem mãe que partiu

Soube da tua morte na noite de S. Martinho. Apesar de não me recordar muito bem de ti, sei que nos cruzamos diversas vezes, não fosses tu minha caloira, minha antiga colega de curso.

Fiquei chocada e revoltada com a tua morte apesar de não te conhecer. Sou uma valente lamechas no que toca a dramas destes, especialmente quando me são próximos. A onda de solidariedade por parte de colegas nossos ocupou o meu facebook durante os dias em que lutaste e o dia em que partiste. Deves ter sido uma pessoa maravilhosa, porque foram mesmo muitas as mensagens de pesar.  

Nos dias de hoje, no nosso Portugal, ninguém morre nas mesmas circunstâncias que tu. A mortalidade materna em 2012, segundo pesquisa, rondou os 4.5 por cem mil mulheres. E pelos vistos, 2014 foi o ano em que entraste para tais macabras estatísticas. A palavra lúpus é uma palavra feia que infelizmente ajuda muitas pessoas a ter um fim ainda mais feio. 


Mais uma vez volto-me a questionar a existência de Deus... Afinal, se Ele existe, onde estava Ele quando lutavas pela tua vida e pela vida do teu bebé? Não me venham com tretas, que assim foi a vontade Dele e que o ser humano não tem legitimidade de ficar ofendido com os joguinhos fatídicos de um Ser Supremo mesquinho. 

O lugar de uma mãe é junto ao filho recém-nascido e não prostrada num caixão, vítima de uma fatalidade. O lugar de uma mãe é junto à família que tem desde sempre e que há pouco tempo constituiu.
Porque foste mãe, filha, neta, prima, amiga, colega de trabalho, vizinha e agora não passas de uma recordação.
Aposto que as horas que em estiveste viva após o parto, foste à tua maneira, uma excelente mãe. Serias ainda melhor mãe se tivesses tido oportunidade. Tal como aposto que o teu desaparecimento precoce e dramático seja motivo para que pensemos que nós neste mundo não passámos de pó.
Sabias das consequências de levar esta gravidez adiante. E mesmo assim a levaste. O milagre de sobreviveres não aconteceu, mas o nascimento do teu filho é meio milagre. Não é um milagre inteiro porque tiveste que abdicar da tua vida. 

Espero que o lugar onde estás agora seja bem melhor que o lugar de onde acabas de partir. Espero que desse lugar possas velar por aqueles que te amaram em vida e que sentirão a tua falta... e se não existe esse lugar, qual foi realmente o objectivo da tua partida tão abrupta?

Alima 


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