terça-feira, 28 de outubro de 2014

Quase ébola

A P. é das minhas melhores amigas aqui da parvónia. Apesar de ser bem mais nova que eu, vejo-a como se fosse a minha irmã mais nova. E como tal, tento protege-la de todos os males.

E quando no fim-se-semana passado a vejo a bater à minha porta com ar abatido e pálido, curvada e com ar de esgar de dor na cara, eu pensei logo: vamos ter chatices.

Cházinho para aqui, balde para vomitar ali, a miúda vomitava e chorava de dores abdominais. Jactos de vómito à filmes tipo Exorcista. Tudo fazia lembrar uma apendicite se ela ainda tivesse apêndice. Assustada perguntava-me o que poderia ser. Discutimos a possibilidade de ovários poliquísticos, cuja sintomatologia pode ser semelhante a uma apendicite, mas não pusemos fora de questão que fosse uma gastroenterite lixada porque a diarreia era cada vez mais frequente. 
Nem Buscopan nem Primperans aguentavam no estômago, porque ela simplesmente não tolerava nada. 
Recordou-se que tinha comido cogumelos à hora do almoço. Começou a entrar em pânico quando por momentos suspeitou que fossem cogumelos venenos, algo que desmistifiquei porque eram cogumelos  comuns comprados num hipermercado e não daqueles colhidos no campo.

Contrariada, foi arrastada por mim até às urgências, porque deduzi logo que aquilo iria ser uma noite mal passada e que talvez uma injecçãozita no traseiro com primperan e algo para as dores à mistura pudessem ajuda-la.

Na triagem, a médica e a enfermeira que nem inglês arranhavam, quando lhes expliquei com o meu checo arranhado que éramos portuguesas (a P. não dá uma para a caixa de checo), correram de imediato a pôr as máscaras e perguntavam assustadas "Spanielsko? Spanielko?" (Espanha?Espanholas?) ao qual eu respondi em português "Oh minhas burras... PORTUGUESAS enfiadas neste país há UM MÊS!"antes de responder educadamente que NÃO em checo. 

A médica diz-me que a P. terá de ir para o serviço de infecciologia, ao qual eu como "irmã mais velha" concordei sem explicar à P. o que andava eu e a médica a conspirar.
Entrega-me um papel para entregar posteriormente no serviço para fazer a admissão da P..

E lá fomos nós pelo hospital fora, sem máscara, nem com nada a mostrar que se calhar somos portadoras de Ébola. Chegadas ao serviço, uma enfermeira, toda protegida, com ar ensonado acolhe-nos. Começa a falar de uma forma rápida e agressiva até que lhe digo que não entendemos bem o que ela está para ali a ladrar, ao qual ela ainda ladra ainda mais agressiva e mais rápida. A P., pálida e meia prostrada susurra um "Grande filha da p***", coisa que a mulher ouviu mas não entendeu. Chega a médica do serviço com ar de poucos amigos, com uma postura insolente, também toda protegida, agressiva que só ela. Ainda tive a esperança que ela falasse inglês mas qual quê??? Nicles. Expliquei que iria ligar para uma pessoa que dominasse o checo para perceber o que realmente andavam as duas a ladrar, mas ela ladrou ainda mais alto e mais agressivo, o que não me demoveu de ligar a um colega que sabia que estava a fazer noite no mesmo hospital.

Assim, que o meu colega chegou para saber quais as intenções da médica, a P. ficou internada em isolamento no serviço de infecciologia para descarte de uma infecção séria, eu, possível portadora de Ébola, vim para casa de metro como se nada fosse.

A P. ficou internada durante 3 dias. A única forma que tinha para a contactar era através da janela de vidro do quarto dela que só era aberta duas horas por dia. Depois disso, fechavam as cortinas e acabava-se o espectáculo. O nosso astral estava muito baixo: ela ictérica, assustada e deprimida, eu assustada e a tentar armar-me em forte.

Diagnóstico final: gastroenterite viral lixada.. que talvez pudesse ser tratada bem em casa sem tanto alarido.

Aqui fica a experiência de duas portuguesas na Europa de Leste, num país em que poucos são os enfermeiros e médicos que entendem inglês e de geografia :)

2 impressões:

capitão disse...

Febre. icterícia, idade jovem. Mononucleose ?, CMV ?
Qual o diagnóstico de Alta ??

Alima das Cartas disse...

Uma gastroenterite. Desconheço o agente causador (porque a minha colega com o trauma nunca mais quis ir ao hospital para saber os resultados).

Já nas aulas no mesmo hospital, fiquei a saber que nessa mesma semana, cerca de 400 pessoas recorreram ao hospital com a mesma sintomatologia, em que internaram as mais debilitadas, mas nunca nunca em isolamento. Portanto, acho que foi um stress com o Ébola...

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