quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Praia na Póvoa de Varzim, Agosto 2014

Estava eu e a minha mãe na praia a trabalhar para o bronze, quando liguei a internet do tablet para ver as novidades do facebook.
O facebook da minha mãe estava ligado no tablet e assim como não quer a coisa, estive a dar uma vista de olhos no que os amigos da minha mãe publicaram.
A minha mãe tem uma amiga que pelos vistos é conhecida na minha cidade como (mais uma) poetiza já com algumas obras publicadas, convidada para saraus de poesia e feiras do livro. Comecei a ler um poema da sua autoria no facebook em voz alta e achei-o mauzinho, com poucas figuras de estilo, figuras de estilo essas que normalmente caracterizam um poema que eventualmente nos possa marcar. Além disso parecia que tinha sido formado por versos pegados daqui e dali e que não eram capazes de transmitir qualquer emoção... Oco, oco, oco.

Comentei com a minha mãe que não tinha gostado assim que terminei de o ler. A minha mãe concordou comigo... assumiu que nenhum dos poemas da amiga lhe cativava... Mas que lhe punha gosto num e noutro poema numa de "ah e tal, ponho-te um gosto só porque parece mal não fazer nada...".  E continuei a ler outro e outro poema dela em voz alta e nenhum deles me despertou qualquer sentimento.

A minha mãe comentou que provavelmente nós somos umas parolas em termos culturais porque não sabíamos apreciar aqueles poemas, porque todos eles tinham gostos de muita gentinha... e que nem todos esses gostos significariam gostos de caridade.

Declamei um poema que decorei no secundário enquanto olhava para o tablet num site onde ele estava escrito, não com o medo de me esquecer de algum verso, mas mais numa de me guiar de verso a verso:



Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


A minha mãe, que estava entretida a fazer sudoku enquanto me ouvia, fechou a revista, arregalou os olhos e disse-me:
- Acho que é sem dúvida o melhor poema dela...


Olhei para a minha mãe e comecei a rir...
- Este poema não é dela!!! É do Miguel Torga!


"Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar..."

Tenho esta frase emoldurada no meu quarto...  Miguel Torga não é de todo o meu escritor favorito, mas é o autor desta frase que me fez pensar na aventura que é a minha vida...

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