terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dos velhos da aldeia

O senhor Emílio (nome fictício) é mais um habitante da aldeia-natal do meu pai.
Durante muitos anos emigrado na França, sempre muito supersticioso com bruxas, mortes e bruxedos.
De uma maneira estranha, abraçou a religião muçulmana cumprindo o Ramadão e não comendo carne de porco nem tocando em gota de álcool, mas mesmo assim cumpria escrupulosamente a ida às romarias e procissões pela serra.
Solteiro, sem filhos sempre levou uma vida solitária, especialmente quando começou a cismar que as irmãs lhe tinham tentado envenenar uma vez.

Desde pequena que nutro um grande carinho pelo sr. Emílio. Levantava sempre o chapéu que tanto o caracteriza sempre que os meus pais ou mesmo eu e a minha irmã passávamos por ele, sempre com palavras amigáveis.
Sempre que estava de férias em Portugal, o meu pai convidava-o para um churrasco em nossa casa, em que a minha mãe entrava em pânico já que como o senhor era tão desconfiado, tinha receio que caso o jantar não lhe caísse bem e ele pensasse que lhe tivéssemos posto veneno na comida ou algo do gênero.

E como homem educado, sempre que ia jantar a nossa casa, trazia para mim e para a minha irmã, embalagens ainda lacradas, de 100 unidades de molhos de chicletes "Hollywoood" de mentol. Cada molho continha cinco chicletes, o que fazia com que cada embalagem contivesse 500 chicletes. Isto significava que passava todo o Verão a mascar chicletes até a mandíbula doer. Oferecia também um saco cheio de amostras de perfumes, shampoos e loções que não faço a mínima ideia de onde ele desencantava aquilo.


Aparentemente já se reformou há cinco anos e desde então tem vivido em Portugal na aldeia. E no outro dia, enquanto fui fazer umas compras, reencontrei-o na vila sentado numa das esplanadas centrais, com o seu chapéu americano. Perguntei-lhe se precisava de boleia para a aldeia já que o único meio para lá chegar é apenas o taxi. Prontamente respondeu-me que sim mas que tinha medo.

- Medo da minha condução?- perguntei-lhe.
- Não menina... das más línguas... sabe-se lá o que os outros possam dizer... um velho e a menina no carro...- respondeu-me.
- Olhe, fazemos o seguinte... vamos deixar falar as más línguas e o sr. poupa o dinheiro do taxi e faz-me companhia.

Deduzo que deve ter sido das viagens mais emocionantes que o velho sr. Emílio deve ter feito no trajeto vila-aldeia. O homem estava fascinado pelo facto de viajar num jipe, cuja altura é melhor para observar a paisagem "Isto é que é uma categoria, menina... carros baixos não prestam". Pelo caminho parei num tasco em que a praxe dos mais velhos é beber a taça de vinho antes de subir a serra (da vila à aldeia são ainda 20 minutos numa estrada com curvas e contracurvas,  buracos e rebanhos no meio da estrada). O sr. Emílio, claro, optou pelo sumo de laranja.

Ao deixá-lo em casa ele perguntou-me porque é que eu lhe fiz o favor de lhe dar boleia até à aldeia ao qual respondi que como boa menina tenho de ajudar os outros especialmente aos que em miúda foram responsáveis por dores na mandíbula de tanta chiclete que me ofereciam.

Uns dias depois, preso ao portão, estava um saco plástico com uma embalagem de chicletes Gorila.  :)


Obrigada sr. Emílio por mais umas semanas a mascar.

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