segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Da procriação

Estes dias num hipermercado fui abordada por uma senhora que lá trabalhava:

- Olá Alima...
- Hummmm... Olá!?
- Não me estás a conhecer...?- perguntou-me.
- Peço imenso desculpa, mas não...
- Sou a mãe da Cristina... uma que frequentou o infantário contigo!!! Andei contigo muitas vezes ao colo... e levei-te muitas vezes ao infantário com a minha filha! Reconheci-te por causa da tua mãe que há bocadinho estava à tua beira.
- Cristina... Cristina... Ah, a Cristina! Já não a vejo há muitos anos... que é feito dela?- perguntei-lhe com alguma curiosidade.
- Olha, está casada, vive em Inglaterra e está muito feliz por lá! E já tem três meninos e vem um quarto a caminho!!! Que é feito de ti?

Pensei durante cinco segundos no que iria responder... pensei em dizer-lhe que tinha tirado uma licenciatura, que tinha trabalhado na área durante três anos até que depois resolvi meter-me noutro curso assim que descobri que provavelmente vou ser uma solteirona cheia de estrias e mau feitio que provavelmente só vai viver para o trabalho e para os sobrinhos.

- Olhe... cá ando... solteira...e também pelo estrangeiro- respondi com uma certa dissimulação enquanto ela fazia uma cara de oh... pobrezinha.



"Três filhos e um quarto a caminho? A Cristina abusou no quarto, caramba!!!!"


Há pouco mais de vinte anos eu e a Cristina brincávamos às mães e às filhas com Nenucos... Há cerca de quinze anos ela passou a ser uma galdéria de primeira que dava beijos de língua atrás dos balneários da escola. Há dez anos ela optou por fazer os seus próprios Nenucos enquanto eu marrava para entrar na faculdade.

Awesome!

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dos vizinhos (II)

Como já disse anteriormente, a prenda de aniversário da minha irmã foi um casal de porquinhos da Índia. E como bons comedores de praticamente tudo que seja vegetal, e bons defecadores, resolvemos deixa-los durante o dia no quintal a comer a relvinha para a noite dormirem na sua gaiola.
Ao passar por eles, numa tarde, viro-me para eles e digo-lhes:

- Como estão, fedorentos?

A minha mãe, em pânico, faz-me um sinal para me calar....

A minha vizinha alemã, que estava no seu jardim, levanta o pescoço com  ares de Oi? essa do fedorentos foi comigo?



Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dos vizinhos

Vivo num bairro exclusivamente constituído por vivendas a 2km do centro. O contacto que tenho com os vizinhos da minha rua é quase nulo, uma vez que fazemos muito vida de casa-trabalho-casa, onde se estaciona o carro na garagem sem sequer sair do carro, já que os portões eléctricos facilitam todo o trabalho.

Durante o Verão, sei que a casa mesmo ao lado da minha é ocupada por um casal emigrante na Alemanha. Pessoalmente não sou muito de dar confiança aos meus vizinhos, coisa que já não posso dizer da minha mãe que se desfaz em simpatia com toda a gente, especialmente com a canalhada que brinca na rua (sim, ainda é um bairro muito tranquilo em que as crianças podem brincar na rua com toda a segurança).

Estes dias estava eu na minha jardinagem a cortar umas plantas. Do outro lado do muro está a tal vizinha alemã com ares de que queria paleio comigo.
Abordagem dela:

- Ai... vocês têm um jardim tão feio...  Acabaram com as roseiras que estavam junto ao muro e puseram-se a plantar tomates e pimentos... que horror... por meia duzia de cêntimos vão ao supermercado e compram isso... ora agora plantar...

Eu fiquei aparvalhada a olhar para ela e saiu-me isto:
- Nós não temos jardim... nós temos um quintal!

Ela não se fez de rogada:
-Oh... mas ter um espaço tão grande com estas árvores? Pessegueiros? Limoeiros? Figueiras? Laranjeira? Vocês até couves plantaram! Para quê? Por meia dúzia de cêntimos?

Respondi-lhe:
- Nós gostamos de dar utilidade ao quintal que temos... é um bom desenrasque... Se eu quiser fazer uma omolete, não ponho rosas nela... Ponho salsa, manjericão, alho francês...

- Oh... mas tem um jardim tão feio... nós na Alemanha...

Nem a deixei falar mais. Respondi-lhe de forma a terminar o assunto.
- Com o devido respeito, nós cá em casa não nos damos ao trabalho de olhar para o seu jardim. Temos mais coisas com que nos entretermos. Nada que temos deste lado a está a incomodar, portanto não tem nada que dar bitaites de como devemos nós zelar pelo que é nosso.

Passado uns dias a vejo aganchada no muro a tentar roubar tomates como se nada fosse... Parva

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Da higiene

Pelos vistos, existe essa cadeira no curso de medicina e como todas as cadeiras deve ter o seu quê de utilidade. Pelo menos pensei assim quando fiz o esforço para frequentá-la.

E lá fui eu toda galifona à primeira aula. A sala que na aula anterior estava completamente cheia porque a exigência e a dificuldade da aula assim o exige, ficou com meia vazia na aula de higiene.

A professora de higiene, uma avozinha com os seus 60 e poucos anos, vestida com fatinho de saia e casaco típico de uma sô dotora de meia idade aqui da zona, revelou-se uma queridinha. Perguntou a nacionalidade do pessoal que estava presente na aula ao qual respondia um UAU de interesse fingido.

E começou então a aula... abriu o powerpoint e leu, leu, leu todo o seu conteúdo. O assunto até era interessante, era sobre a potabilidade da água, mas a sua voz monocórdica de quem lia o powerpoint fez com que eu passasse pelas brasas em dois tempos. Procurei rapidamente a minha caixa de chicletes para que me ajudasse de alguma forma a manter-me acordada. Duas filas à minha frente, alguém roncava RUIDOSAMENTE, apanhando um susto valente quando o colega do lado lhe deu uma palmadinha no ombro.

E a professora falava e falava. Falava dos tipos de água engarrafada, qual devemos nós consumir, o que é a poluição, que tipos de poluição se conhecem... coisas que aprendi algures em Ciências Naturais no Ciclo.


Acordei para a vida quando ela disse que não existia vulcanismo activo na Europa. Imediatamente levantei o braço e disse-lhe que não concordava com o que ela tinha dito. Exemplifiquei o geisers dos Fiordes e dos Açores, falei dos vulcões mais especificamente na ilha do Pico que volta e meia prega um susto, das águas quentes termais na Hungria... não quis alargar-me muito para não dar uma de sabichona.


A mulher, retira os óculos, olha para mim e pergunta-me num sorriso:
- Portugal na Europa? Onde mesmo, minha querida?


Vemos-nos no dia do exame, professora!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Praia na Póvoa de Varzim, Agosto 2014

Estava eu e a minha mãe na praia a trabalhar para o bronze, quando liguei a internet do tablet para ver as novidades do facebook.
O facebook da minha mãe estava ligado no tablet e assim como não quer a coisa, estive a dar uma vista de olhos no que os amigos da minha mãe publicaram.
A minha mãe tem uma amiga que pelos vistos é conhecida na minha cidade como (mais uma) poetiza já com algumas obras publicadas, convidada para saraus de poesia e feiras do livro. Comecei a ler um poema da sua autoria no facebook em voz alta e achei-o mauzinho, com poucas figuras de estilo, figuras de estilo essas que normalmente caracterizam um poema que eventualmente nos possa marcar. Além disso parecia que tinha sido formado por versos pegados daqui e dali e que não eram capazes de transmitir qualquer emoção... Oco, oco, oco.

Comentei com a minha mãe que não tinha gostado assim que terminei de o ler. A minha mãe concordou comigo... assumiu que nenhum dos poemas da amiga lhe cativava... Mas que lhe punha gosto num e noutro poema numa de "ah e tal, ponho-te um gosto só porque parece mal não fazer nada...".  E continuei a ler outro e outro poema dela em voz alta e nenhum deles me despertou qualquer sentimento.

A minha mãe comentou que provavelmente nós somos umas parolas em termos culturais porque não sabíamos apreciar aqueles poemas, porque todos eles tinham gostos de muita gentinha... e que nem todos esses gostos significariam gostos de caridade.

Declamei um poema que decorei no secundário enquanto olhava para o tablet num site onde ele estava escrito, não com o medo de me esquecer de algum verso, mas mais numa de me guiar de verso a verso:



Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


A minha mãe, que estava entretida a fazer sudoku enquanto me ouvia, fechou a revista, arregalou os olhos e disse-me:
- Acho que é sem dúvida o melhor poema dela...


Olhei para a minha mãe e comecei a rir...
- Este poema não é dela!!! É do Miguel Torga!


"Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar..."

Tenho esta frase emoldurada no meu quarto...  Miguel Torga não é de todo o meu escritor favorito, mas é o autor desta frase que me fez pensar na aventura que é a minha vida...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Dos termos carinhosos

Este Verão comecei a frequentar uma esplanada muito in na minha cidade porque simplesmente os meus amigos in começaram a frequentá-la. Segundo eles é considerada uma das melhores esplanadas da zona Norte. E talvez pela piscina no meio da esplanada acompanhada pelos claustros que outrora fora um convento e talvez pela musiquinha , realmente valha a pena essa distinção


Na primeira vez que lá fui, sentei-me com o pessoal e pedi o cardápio.
- Nós não temos cardápio. A menina diz o que lhe apetece e nós preparamos.

Naquele momento apetecia-me beber uma tequilla sunrise ou um white russian ou um cosmopolitan mas optei por uma simples cerveja, não fosse eu pagar os olhos da cara por um cocktail onde em lugar algum aparece o preço.

E lá veio a cerveja.
E volta e meia uma empregada passava por nós e perguntava:
- Está tudo bem? Não necessitam de mais nada?

Alguém pediu não sei o quê...

- Com certeza minha jóia, é para já!- responde a empregada extremamente simpática.

Muito sinceramente olhei para ela com cara de aparvalhada com os termos carinhosos com que se dirigia ao clientes. Minha flor, minha jóia, coração etc etc... este tipo de termos utiliza a sra. Emília no seu cafézinho na aldeia, mas nunca nunca uma empregada com a minha idade numa das melhores esplanadas a nível nacional...

Mais tarde, alguém pediu sangria enquanto eu bebericava a minha cerveja.
- A querida não quer mais nada?- pergunta-me enquanto põe a mão nas minhas costas.

Assim que ela foi buscar a sangria, eu comentei em tom divertido:
- É de mim ou ela acabou de me passar a mão nas costas?

Muito sinceramente não tenho nada contra este excesso de gentileza mas também não tenho nada a favor. Se ela assumisse uma atitude mais sóbria e mais profissional, de certeza que ficaria a ganhar um bocadinho mais. Ou pelo menos eu não estranharia tanta gentileza- Estamos a falar de uma esplanada dedicada a pessoal jovem adulto que não se importa de pedir uma bebida sem saber o preço e não na padaria do bairro...


E sim... paguei 4 euros por uma SuperBock...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Dos casamentos

Estes dois últimos sábados foram assustadores para mim.
Cinco colegas meus que tiraram o meu primeiro curso comigo deram o nó em igrejas diferentes e chaparam fotos no próprio dia de quão linda festa está a ser e de quão apaixonados andam os noivinhos e futuros noivinhos. Para adicionar à sopa, uma prima e uma vizinha minha também se casaram. Segundo parece, casar em Setembro é mais barato que casar em Agosto. Perfeito.

Apesar de ter sido convidada para três dessas bodas, optei por declinar todas elas com o pretexto de que tinha já confirmado a minha presença num casamento. Mentirinha simpática... Nada tenho contra sobre tais rituais... tenho contra o dinheirão que se gasta em prenda, sapatos, vestido, acessórios e penteado. Sou uma sovina! 

À noite, em conversa na esplanada com malta que não foi convidada para nenhum desses casamentos e que também tinham visto as mesmas fotos que eu, na brincadeira ainda comentamos "Como é que aquela/e serrana/parola/feioso se casa primeiro que eu?" 


E depois surgiu à baila o tema "Sou solteiro e descomprometido e detesto ir sozinho a uma boda debaixo dos olhares piedosos dos outros convidados" e "Sou solteiro e descomprometido e detesto gente que se meta comigo nos casamentos a perguntar quando é a minha vez".


Bem, vou fazer as malas... Um ano lectivo está prestes a começar a 3500km de Portugal. Mais um ano como medical student in a foreign country. Fingers crossed

Até breve, Portugal :)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dos velhos da aldeia

O senhor Emílio (nome fictício) é mais um habitante da aldeia-natal do meu pai.
Durante muitos anos emigrado na França, sempre muito supersticioso com bruxas, mortes e bruxedos.
De uma maneira estranha, abraçou a religião muçulmana cumprindo o Ramadão e não comendo carne de porco nem tocando em gota de álcool, mas mesmo assim cumpria escrupulosamente a ida às romarias e procissões pela serra.
Solteiro, sem filhos sempre levou uma vida solitária, especialmente quando começou a cismar que as irmãs lhe tinham tentado envenenar uma vez.

Desde pequena que nutro um grande carinho pelo sr. Emílio. Levantava sempre o chapéu que tanto o caracteriza sempre que os meus pais ou mesmo eu e a minha irmã passávamos por ele, sempre com palavras amigáveis.
Sempre que estava de férias em Portugal, o meu pai convidava-o para um churrasco em nossa casa, em que a minha mãe entrava em pânico já que como o senhor era tão desconfiado, tinha receio que caso o jantar não lhe caísse bem e ele pensasse que lhe tivéssemos posto veneno na comida ou algo do gênero.

E como homem educado, sempre que ia jantar a nossa casa, trazia para mim e para a minha irmã, embalagens ainda lacradas, de 100 unidades de molhos de chicletes "Hollywoood" de mentol. Cada molho continha cinco chicletes, o que fazia com que cada embalagem contivesse 500 chicletes. Isto significava que passava todo o Verão a mascar chicletes até a mandíbula doer. Oferecia também um saco cheio de amostras de perfumes, shampoos e loções que não faço a mínima ideia de onde ele desencantava aquilo.


Aparentemente já se reformou há cinco anos e desde então tem vivido em Portugal na aldeia. E no outro dia, enquanto fui fazer umas compras, reencontrei-o na vila sentado numa das esplanadas centrais, com o seu chapéu americano. Perguntei-lhe se precisava de boleia para a aldeia já que o único meio para lá chegar é apenas o taxi. Prontamente respondeu-me que sim mas que tinha medo.

- Medo da minha condução?- perguntei-lhe.
- Não menina... das más línguas... sabe-se lá o que os outros possam dizer... um velho e a menina no carro...- respondeu-me.
- Olhe, fazemos o seguinte... vamos deixar falar as más línguas e o sr. poupa o dinheiro do taxi e faz-me companhia.

Deduzo que deve ter sido das viagens mais emocionantes que o velho sr. Emílio deve ter feito no trajeto vila-aldeia. O homem estava fascinado pelo facto de viajar num jipe, cuja altura é melhor para observar a paisagem "Isto é que é uma categoria, menina... carros baixos não prestam". Pelo caminho parei num tasco em que a praxe dos mais velhos é beber a taça de vinho antes de subir a serra (da vila à aldeia são ainda 20 minutos numa estrada com curvas e contracurvas,  buracos e rebanhos no meio da estrada). O sr. Emílio, claro, optou pelo sumo de laranja.

Ao deixá-lo em casa ele perguntou-me porque é que eu lhe fiz o favor de lhe dar boleia até à aldeia ao qual respondi que como boa menina tenho de ajudar os outros especialmente aos que em miúda foram responsáveis por dores na mandíbula de tanta chiclete que me ofereciam.

Uns dias depois, preso ao portão, estava um saco plástico com uma embalagem de chicletes Gorila.  :)


Obrigada sr. Emílio por mais umas semanas a mascar.