segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Querida V.

Agosto é o mês dos emigrantes.
Agosto é dos meses que mais gosto porque além dos emigrantes bimbos que invadem tudo que seja supermercado, shopping e praia, vem também os meus emigrantes favoritos, um bocadinho bimbos mas adoro-os na mesma: os primos do meu pai e a irmã do meu pai.

A minha tia, irmã do meu pai, é a única pessoa que resta da família próxima, os meus primos que tanto amo já são em 2º e 3º grau.  Tenho anos que gosto muito muito dela, tem anos que não a posso ver à frente tal é a sua tendência a fazer coisas estúpidas. E pessoas com tendência a fazer estupidez têm que se juntar a pessoas iguais. E foi assim que ela se casou com o meu tio G. 
A única diferença entre ela e o marido, é que o marido tem um coração de ouro. Ela é matreira como uma raposa. Nunca me ofereceu nada de livre vontade (considerando que só tem duas sobrinhas e não tem filhos, é triste). Volta e meia ela lá trazia vestidos de França que eu odiava de morte. Vestidos cheios de folhos e de laços que me deixavam cheia de calor e que mesmo assim me obrigava a vesti-los nas romarias. Ele desde miúda enchia-me de presentes caros. Um dos presentes que mais me deixou comovida foi o acordeão que ele me ofereceu quando tinha 11 anos. E comprou o melhor acordeão que encontrou em França, disse-me ele. O problema é que ele é pesado como tudo, o que me obriga a toca-lo sentada numa cadeira e em frente a um espelho. Muitas vezes ele não me dava presentes caros, mas sim simbólicos: recebi  dele alguns brinquedos que se vendiam nas romarias ou então sacos se regueifa doce e cavacas. 


Este ano aqueles dois pares de jarras surpreenderam-me. No dia da festa da aldeia, foram lá a casa com dois embrulhos. O da minha irmã continha uma bolsa em pele da Tous e uma caneta Mont Blanc. Vou a abrir o meu e tratava-se de uma pasta em couro castanha, com otoscópio, caneta com luz para a reactividade pupilar, esfigmomanômetro manual, uma esferográfica da Mont Blanc, um estetoscópio Littmann electrónico demasiado sofisticado para as minhas aulas no hospital. Um presente bonito, um bocado caro e desnecessário. 
Pergunto a ela de onde desencantou a ideia de me oferecer tal presente ao que ela responde que fazia ménage na casa e consultório de um médico francês e que ele próprio fez questão de me oferecer o estetoscópio porque não o usava(!!!).

Faço um teste com o estetoscópio, auscultando o coração e os pulmões da minha tia (caramba aquilo é mesmo bom). Eles desatam num berreiro cheio de ranho e lágrima de tão comovidos por eu estar a testar o aparelho. 
Guardei religiosamente aquela prenda no meu quarto enquanto eles foram para a romaria.
Mais tarde, passei pela romaria acompanhada pela minha irmã. Estava a minha tia e o marido sentados à mesa com mais gente da aldeia  sob a sombra do tolde de um bar-caravana. 
Boquinhas do povo que estava naquela mesa não faltaram:
- Então Alima, isso é que é sorte. Olha que eles gastaram mais de x euros com a tua prenda.
- Então Alima e V. olhem que vocês têm uns tios muito bons.
- Então V., tu que és Doutora da farmácia, que remédio achas que é melhor para...
- Então Alima, quase médica, hein? Já que te deram material, eles que te paguem um consultório...
- Ai que bonito... uma passa receitas, a outra avia.
- Olha lá, não queres ver o que se passa aqui nas minhas costas? Ando aqui com uma dor...

Eu e a minha irmã fizemos um olhar de querer matar alguém ou os nossos tios. Ambos estavam com os olhos molhados. Ele já a suar com os copos. Ela à espera que eu esboçasse um sorriso e alinhasse a responder às perguntas e comentários feitos pelo povo que estava na mesa.

Às vezes não sei se eles fazem destas coisas para fazerem ver o quanto querem ser queridos para as sobrinhas ou se fazem isto porque transpiram de orgulho em mim e na minha irmã. Ou então as duas coisas.

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