quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Querida A.

Tinha eu uns sete anos, trabalhavam os nossos pais no quartel de Braga, quando pelo Natal organizavam um concurso de desenhos para os filhos de militares com o tema "O Natal".
Durante semanas eu treinava e voltava a treinar para que os meus desenhos fossem os melhores. O meu pai, que tinha muito jeito para o desenho, ensinou-me a desenhar estrelas com seis pontas, pinheiros graças a ajuda de triângulos e presentes graças a ajuda de cubos. Ainda o consigo ver, perto da lareira, debruçado sobre a mesa de centro, que outrora foi uma roda de carro de bois a ensinar-me a desenhar....


Nunca fiquei nos três primeiros lugares. Logo nunca recebi uma VHS da Disney. Mas todos os anos recebia um prémio de consolação: um livro de histórias. Estou neste momento a olhar para a prateleira que tenho no escritório que ainda conserva as minhas Anitas e outros livros que li e reli na minha infância. Consigo da mesa onde escrevo vislumbrar a lombada d'O Soldadinho de Chumbo (irónico para quem recebeu este livro pelas mãos de alguma patente do exército) e uma banda desenhada do Asterix, que recebi em dois anos diferentes como prémio de participação. 
Estou-te a escrever esta carta porque simplesmente bateu-me uma saudade dos nossos tempos em que éramos crianças e que passávamos fins de semana juntas, com mais filhos de outros militares no quartel. Era uma algazarra os nossos jogos de futebol, assim como era uma algazarra as nossas patinagens em linha muito pouco artisticas sob o olhar atento dos nossos pais.

O teu pai foi o primeiro a desaparecer. E o grupo desmoronou. O meu pai foi o segundo. E nunca mais soubemos uns dos outros.
Sei que te mudaste para Viana do Castelo. Mas não sei mais nada nem de ti nem dos teus irmãos. É pena. 

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