quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Das misérias do passado

Tinha eu me infiltrado na casa dos meus primos durante o banquete no dia da romaria, quando assim do nada se falou na pobreza e miséria que muitos dos presentes à mesa sofreram na sua infância e mocidade.

O tema veio à tona porque alguém leu numa revista que o famosérrimo Tony Carreira tinha passado dificuldades na sua juventude e que na mesma revista o próprio irmão do Tony afirmou que a primeira vez comeu uma banana na sua vida simplesmente não a comeu: lambeu a casca.

O tio H., homem que sempre foi de poucas falas mas de ouvido sempre muito apurado para a tv e conversas à mesa (e principalmente ultimamente devido ao Parkinson que padece raramente abre a boca porque tem muita dificuldade em articular palavras), afirmou que a primeira vez que tinha provado uma banana foi no Brasil para onde emigrou com vinte anos.

- Passou-se muita fominha e miséria aqui- diz a esposa do tio H, enquanto olhava distraidamente para o copo. -A irmã do teu avô (uma das famílias mais pobres da aldeia) teve seis filhos, onde quatro dormiam numa cama, sabe-Deus-como e os mais novitos dormiam com os pais. E não havia dinheiro para cobertores! Usava-se mantas de trapos! Muitas vezes ouvia-se eles a gritar porque havia pulgas na cama e nas mantas. E sabes, para que não passasem frio na cama, porque havia sempre alguém que ficava mais tapado, o teu avô pregava as mantas de um lado da cama para que ela não fugisse. A tua avó praticamente criou aqueles cachopos da cunhada graças a carne em banha e sardinhas rançosas...e batata com batata! Olha, criou os filhos da cunhada e deixou morrer os dela novitos.
Depois os homens foram para França e as coisas melhoraram muito. Apareceram os iogurtes e os frigoríficos. Agora não há tanta miséria. Chimpa-se tudo agora (Chimpar é um termo comummente usado na zona que significa deitar fora).  Vão para a televisão dizer que a casa não tem condições porque tem ratos e baratas e que querem uma casa nova... Olha que a minha casinha é limpinha e tem ratos também e não me vou queixar para a televisão! Os pobres agora querem tudo dado e arregaçado. Mas ninguém quer os sapatos e a roupa dos todos. Sei de gente daqui que naquele tempo ia aos hospitais buscar a roupa de quem lá morresse! Muitas vezes até crostas de pele ainda tinha. Roupa de gente desconhecida com doenças! Puta miséria, puta miséria, meu Deus!

0 impressões:

Enviar um comentário