segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Das crianças

Nunca fui apaixonada por crianças. Apesar de ter um enorme carinho pela minha pseudo-sobrinha com dois anos e três meses, prefiro ter uma postura de tu lá e eu cá. O problema é que ela é terrivelmente mimalha e amorosa, sempre a pedir beijinhos e a dar abraços. Tal facto faz com o meu gélido coração de cabra insensível de vez em quando amoleça.


E quando a mãe dela disse-me que estava sozinha com a miúda porque o marido tinha feito uma viagem, prontamente fui busca-las para dar uma voltinha no shopping depois do jantar.

E pronto arrependi-me. Levar uma criança com pouco mais de dois anos para um shopping é das coisas mais stressantes. É o xi-xi de dez em dez minutos, é o parque infantil insuflavel do piso 0 que ela quer passar aos saltos mais de dez minutos mais o parque das bolas do piso 1, é a correria pelo shopping, o sujar-se com o gelado, o fazer birrinha só porque sim.

A coisa acalmou não com a palmada da mãe, mas com a cara de má que fiz à miúda quando vi que ela tinha se esticado demais.


Serei eu má pessoa?


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Agosto 2014

Fomos passar a noite a uma famosa discoteca na zona de Esposende. Com a graças de não-sei-quem (ok, de um azeiteiro que anda pelo beicinho pela D.) ficamos na ala Vip, local porreiro anti encontrões, anti queimadelas de cigarros e perfeito para cravar bebidas ao barman, meu namoradinho do tempo do Jardim de Infância.

Saio por alguns minutos da pista de dança onde estava com a malta. Sento-me um bocado nos puffs para o aliviar os pés dos saltos altos e para aliviar as dores da coluna (a idade não perdoa mesmo). 

Senta-se um sujeito todo bem parecido à minha beira que esboça um sorriso para mim ao qual eu educadamente repeti o mesmo gesto.

Diz-me ele:
- Sabes, há muita gente que está aqui a curtir isto porque está sob efeito de drogas. 
- Acredito- respondo-lhe.
- Pois, olha, eu sou psiquiatra no hospital X em Viana e estou habituado a ver este tipo de comportamentos. E sabes uma maneira de reparar se a pessoa está sob o efeito de ecstasy e outras drogas?
- Não, conte-me lá... - finjo-me de interessada e de leiga no assunto e mortinha para ver a onde ele quer chegar.
- Pela reactividade das pupilas! Por exemplo, aquela rapariga ali, de vestido vermelho (aponta para alguém que está na pista) ela está claramente sob o efeito de alguma substância. Observa os movimentos dela  do tipo Tónico- Clónico- Mioclónico bla bla bla. E se eu observar as pupilas dela ela deve miose, que significa que...

Eu já não ouvia o homem. Estava a ver quem era a rapariga de vermelho. E ao fim de segundos constato que a rapariga de vermelho é do meu grupo de amigos... Aliás... é... a... minha... irmã!!!
E todos sabem menos o fulano que estava ao meu lado do puff que a minha irmã quando vai para a pista de dança, ela ocupa uma grande área com os seus movimentos todos malucos...

Esbocei um sorriso para ele enquanto ele falava e falava e eu não estava nem aí para lhe cortar a conversa. Mas poucos segundo mais tarde, a rapariga de vermelho, minha irmã, aproxima-se de nós e grita:
- Alima, preciso de mijar, acompanha-me ao WC... já!

Levantei-me do puff e para grande tristeza minha não vi a cara (concerteza de parvo) do sujeito. Pena.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Das misérias do passado

Tinha eu me infiltrado na casa dos meus primos durante o banquete no dia da romaria, quando assim do nada se falou na pobreza e miséria que muitos dos presentes à mesa sofreram na sua infância e mocidade.

O tema veio à tona porque alguém leu numa revista que o famosérrimo Tony Carreira tinha passado dificuldades na sua juventude e que na mesma revista o próprio irmão do Tony afirmou que a primeira vez comeu uma banana na sua vida simplesmente não a comeu: lambeu a casca.

O tio H., homem que sempre foi de poucas falas mas de ouvido sempre muito apurado para a tv e conversas à mesa (e principalmente ultimamente devido ao Parkinson que padece raramente abre a boca porque tem muita dificuldade em articular palavras), afirmou que a primeira vez que tinha provado uma banana foi no Brasil para onde emigrou com vinte anos.

- Passou-se muita fominha e miséria aqui- diz a esposa do tio H, enquanto olhava distraidamente para o copo. -A irmã do teu avô (uma das famílias mais pobres da aldeia) teve seis filhos, onde quatro dormiam numa cama, sabe-Deus-como e os mais novitos dormiam com os pais. E não havia dinheiro para cobertores! Usava-se mantas de trapos! Muitas vezes ouvia-se eles a gritar porque havia pulgas na cama e nas mantas. E sabes, para que não passasem frio na cama, porque havia sempre alguém que ficava mais tapado, o teu avô pregava as mantas de um lado da cama para que ela não fugisse. A tua avó praticamente criou aqueles cachopos da cunhada graças a carne em banha e sardinhas rançosas...e batata com batata! Olha, criou os filhos da cunhada e deixou morrer os dela novitos.
Depois os homens foram para França e as coisas melhoraram muito. Apareceram os iogurtes e os frigoríficos. Agora não há tanta miséria. Chimpa-se tudo agora (Chimpar é um termo comummente usado na zona que significa deitar fora).  Vão para a televisão dizer que a casa não tem condições porque tem ratos e baratas e que querem uma casa nova... Olha que a minha casinha é limpinha e tem ratos também e não me vou queixar para a televisão! Os pobres agora querem tudo dado e arregaçado. Mas ninguém quer os sapatos e a roupa dos todos. Sei de gente daqui que naquele tempo ia aos hospitais buscar a roupa de quem lá morresse! Muitas vezes até crostas de pele ainda tinha. Roupa de gente desconhecida com doenças! Puta miséria, puta miséria, meu Deus!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Querida V.

Agosto é o mês dos emigrantes.
Agosto é dos meses que mais gosto porque além dos emigrantes bimbos que invadem tudo que seja supermercado, shopping e praia, vem também os meus emigrantes favoritos, um bocadinho bimbos mas adoro-os na mesma: os primos do meu pai e a irmã do meu pai.

A minha tia, irmã do meu pai, é a única pessoa que resta da família próxima, os meus primos que tanto amo já são em 2º e 3º grau.  Tenho anos que gosto muito muito dela, tem anos que não a posso ver à frente tal é a sua tendência a fazer coisas estúpidas. E pessoas com tendência a fazer estupidez têm que se juntar a pessoas iguais. E foi assim que ela se casou com o meu tio G. 
A única diferença entre ela e o marido, é que o marido tem um coração de ouro. Ela é matreira como uma raposa. Nunca me ofereceu nada de livre vontade (considerando que só tem duas sobrinhas e não tem filhos, é triste). Volta e meia ela lá trazia vestidos de França que eu odiava de morte. Vestidos cheios de folhos e de laços que me deixavam cheia de calor e que mesmo assim me obrigava a vesti-los nas romarias. Ele desde miúda enchia-me de presentes caros. Um dos presentes que mais me deixou comovida foi o acordeão que ele me ofereceu quando tinha 11 anos. E comprou o melhor acordeão que encontrou em França, disse-me ele. O problema é que ele é pesado como tudo, o que me obriga a toca-lo sentada numa cadeira e em frente a um espelho. Muitas vezes ele não me dava presentes caros, mas sim simbólicos: recebi  dele alguns brinquedos que se vendiam nas romarias ou então sacos se regueifa doce e cavacas. 


Este ano aqueles dois pares de jarras surpreenderam-me. No dia da festa da aldeia, foram lá a casa com dois embrulhos. O da minha irmã continha uma bolsa em pele da Tous e uma caneta Mont Blanc. Vou a abrir o meu e tratava-se de uma pasta em couro castanha, com otoscópio, caneta com luz para a reactividade pupilar, esfigmomanômetro manual, uma esferográfica da Mont Blanc, um estetoscópio Littmann electrónico demasiado sofisticado para as minhas aulas no hospital. Um presente bonito, um bocado caro e desnecessário. 
Pergunto a ela de onde desencantou a ideia de me oferecer tal presente ao que ela responde que fazia ménage na casa e consultório de um médico francês e que ele próprio fez questão de me oferecer o estetoscópio porque não o usava(!!!).

Faço um teste com o estetoscópio, auscultando o coração e os pulmões da minha tia (caramba aquilo é mesmo bom). Eles desatam num berreiro cheio de ranho e lágrima de tão comovidos por eu estar a testar o aparelho. 
Guardei religiosamente aquela prenda no meu quarto enquanto eles foram para a romaria.
Mais tarde, passei pela romaria acompanhada pela minha irmã. Estava a minha tia e o marido sentados à mesa com mais gente da aldeia  sob a sombra do tolde de um bar-caravana. 
Boquinhas do povo que estava naquela mesa não faltaram:
- Então Alima, isso é que é sorte. Olha que eles gastaram mais de x euros com a tua prenda.
- Então Alima e V. olhem que vocês têm uns tios muito bons.
- Então V., tu que és Doutora da farmácia, que remédio achas que é melhor para...
- Então Alima, quase médica, hein? Já que te deram material, eles que te paguem um consultório...
- Ai que bonito... uma passa receitas, a outra avia.
- Olha lá, não queres ver o que se passa aqui nas minhas costas? Ando aqui com uma dor...

Eu e a minha irmã fizemos um olhar de querer matar alguém ou os nossos tios. Ambos estavam com os olhos molhados. Ele já a suar com os copos. Ela à espera que eu esboçasse um sorriso e alinhasse a responder às perguntas e comentários feitos pelo povo que estava na mesa.

Às vezes não sei se eles fazem destas coisas para fazerem ver o quanto querem ser queridos para as sobrinhas ou se fazem isto porque transpiram de orgulho em mim e na minha irmã. Ou então as duas coisas.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Da (in)sensibilidade masculina

Se há coisa que detesto nos seres humanos, são os seres humanos que se acham mais inteligentes e melhores que eu. Meu corpo, minha mente, meu templo, digo vezes sem conta a mim mesma.

E estes dias, quando me forçaram a um café a sós com um amigo de um amigo meu e o gajo começou com o discurso de "Olá, sou o X., não sei se o nosso amigo te disse, mas tirei o curso Y, com doutoramento nisto e pós-doutoramento naquilo, muito prazer...", eu pensei : "Vais já de vela com uma pinta, convencido...prazer o tanas!".

O que é certo é que educadamente expliquei que aceitei tomar café com o X., porque o nosso amigo em comum quase me ameaçou com um bisturi na jugular, porque o X. estava a precisar de uma menina bonita que o aturasse durante umas semanas para amizade ou algo mais. E o X. ficou convencido que eu estava numa de algo mais. Pergunta-me o que achava dele assim de repente. E como menina bem educada disse-lhe que era bonito, parecia inteligente e culto e que se enquadrava no perfil de homens que poderia apresentar à minha mãe (big mistake, descobri mais tarde... nunca elogiar convencidos). 
O homem sente a minha resistência a avanços durante o café.
À saída, queria-me roubar um beijo nos lábios, ao qual descontraidamente lhe dei um abraço para evitar tal ato e desejei-lhe boa sorte. Meu corpo, minha mente, meu templo, oh palhaço! 


Lixou-me o juízo durante um fim de semana inteiro via facebook: "Porque é que tu...? Porque é que nós não...nem que seja só uma vez para ver no que isto dá?" Ao qual, educadamente lhe disse que não estava nem aí. Pergunta-me se achava que ele era um troféu pra mim, quando li tal mensagem eu disse em voz alta "WTF???", ao qual disse-lhe que pobre de mim se o visse a ele como troféu, porque nenhum homem deve ser visto de tal forma. 
Então insistiu porque é que eu lhe disse que se enquadrava no perfil de homem para apresentar à minha mãe... eu disse-lhe que era uma verdade irrefutável, mas que não andava à caça de homem para apresentar a ninguém. "Mas é por eu ser um homem bonito?", pergunta-me. "Não... por seres um homem culto e inteligente", respondi-lhe.

Expliquei-lhe mais uma vez que não estava interessada nele, e que as suas técnicas de sedução comigo não davam certo. Expliquei-lhe que me estava a borrifar pelo facto do paizinho dele ser presidente de uma certa autarquia, nem queria conhecer a sua maravilhosa casa nessa mesma autarquia nem a quem tem em Braga.

O gajo literalmente chamou-me retardada puta insensível. E eu mandei-o brincar com os seus ratinhos de laboratório onde ele nunca deveria ter saído para ir tomar café comigo. 

Idiota...

domingo, 10 de agosto de 2014

Das feirinhas de Verão...

Se há coisa que gosto mesmo, mesmo, mesmo é visitar feiras. Qualquer tipo de feiras: feiras com ciganos à mistura, feiras do livro, feiras de usados, feiras de antiguidades, de velharias... consegue-se arranjar verdadeiros achados a preços muito acessíveis...


E há uns dias fui a uma feira de velharias/coisas usadas e outras tretas. E consegui fazer um grande negócio: Comprei livros muito em voga pela módica quantia de 1 euro cada. Livros que se fosse comprar novas pagaria por alguns deles mais de dez euros.


Confesso: adoro livros de auto-ajuda... pena esquecer-me de muitos dos ensinamentos...

Este Verão está a saber-me muito bem... Ainda não gastei dinheiro numa única revista, logo ainda não contribui para o jet7 :)
OK.... minto... já comprei umas quantas revistas de sudoku e passatempos para a minha mãe caso contrário ela não pára quieta na praia, logo não me deixa ler sossegada.

Jornais opto sempre por ler online, e os jornais que leio normalmente, leio no café ou um determinado supermercado oferece o jornal da região.


Ai Verão, Verão, Verão... como me dás cabo das vistas...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Querida A.

Tinha eu uns sete anos, trabalhavam os nossos pais no quartel de Braga, quando pelo Natal organizavam um concurso de desenhos para os filhos de militares com o tema "O Natal".
Durante semanas eu treinava e voltava a treinar para que os meus desenhos fossem os melhores. O meu pai, que tinha muito jeito para o desenho, ensinou-me a desenhar estrelas com seis pontas, pinheiros graças a ajuda de triângulos e presentes graças a ajuda de cubos. Ainda o consigo ver, perto da lareira, debruçado sobre a mesa de centro, que outrora foi uma roda de carro de bois a ensinar-me a desenhar....


Nunca fiquei nos três primeiros lugares. Logo nunca recebi uma VHS da Disney. Mas todos os anos recebia um prémio de consolação: um livro de histórias. Estou neste momento a olhar para a prateleira que tenho no escritório que ainda conserva as minhas Anitas e outros livros que li e reli na minha infância. Consigo da mesa onde escrevo vislumbrar a lombada d'O Soldadinho de Chumbo (irónico para quem recebeu este livro pelas mãos de alguma patente do exército) e uma banda desenhada do Asterix, que recebi em dois anos diferentes como prémio de participação. 
Estou-te a escrever esta carta porque simplesmente bateu-me uma saudade dos nossos tempos em que éramos crianças e que passávamos fins de semana juntas, com mais filhos de outros militares no quartel. Era uma algazarra os nossos jogos de futebol, assim como era uma algazarra as nossas patinagens em linha muito pouco artisticas sob o olhar atento dos nossos pais.

O teu pai foi o primeiro a desaparecer. E o grupo desmoronou. O meu pai foi o segundo. E nunca mais soubemos uns dos outros.
Sei que te mudaste para Viana do Castelo. Mas não sei mais nada nem de ti nem dos teus irmãos. É pena. 

domingo, 3 de agosto de 2014

O colega que virou Padre

Estudei num colégio misto, onde alguns dos alunos eram seminaristas, logo possíveis candidatos a serem futuros elementos da igreja.
Muitos deles, anos mais tarde, descobriram que a sua vocação não era essa e agora são pais de família, mas há outros que mantiveram-se fieis à sua vocação.
Um deles, o Alberto era conhecido pelos seus toques efeminados e a sua voz fininha. Recordo-me uma vez quando ele estava a ler em voz alta para a turma, um professor (não sei qual) berrou-lhe. "Oh rapaz, fala mais grosso!", ao que o A. começou a ler o texto e o som que produzia era como se fosse o som de um trombone. Risota geral.
Toda a gente dizia na brincadeira: ou vai para Padre e fica para tio ou não vai para Padre e fica para tia.

No fim de semana passado fui a um baptizado da filha de uma amiga minha. Quem era o Padre? O Alberto! Como é que dei conta? Assim que ele iniciou a celebração com aquela vozinha de pífaro.
Como é que reagi? Inevitavelmente com uma gargalhada bem sonora!

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Do jardim

Ofereci à minha irmã no aniversário dela dois porquinhos da Índia ainda bebés.
São uns bichinhos maravilhosos e meigos e uns comilões de primeira (para não falar que a palavra "porco" está bem adequada para este tipo de animais).


Passado uns dias, adotei uma porquinha da Índia já adulta.
Experimentamos deixa-los no jardim protegidos por uma vedação, não fosse algum gato vadio ou os meus próprios cães mata-los.

Conclusão:

Jovem:
- Tens um jardim cuja relva cresce de dia para dia?
- Detestas andar para trás e para frente com a máquina de cortar relva, sob sol abrasador e suadelas?
- Detestas ter que meter a relva cortada na caixa da compostagem por causa do cheiro intenso a putrefacção?
- Tens porquinhos da Índia que adoram comer e comer e depois tens de apanhar os dejectos da gaiola?


Façam como eu:

Enquanto estiver bom tempo, os porquinhos ficam no jardim durante o dia a comer relva. E como comem...



Claro que lhes dou ração, feno e material adequado para eles roerem...