segunda-feira, 7 de julho de 2014

Do padre da aldeia

O padre J. foi uma pessoa que me marcou a minha infância nas minhas idas à aldeia dos meus avós paternos.
Era um homem um pouco mais velho que o meu pai e um pouco mais novo que os meus avós, que tinha um aspecto muito descuidado: barba muito comprida acompanhado por um cabelo comprido sem corte. A sua roupa aparentava já estar muito muito gasta. Se não fosse a batina que usava para celebrar missas, o homem a meu ver parecia um autêntico mendigo.

Chegava sempre atrasado quando ia celebrar as missas à capela (porque a freguesia é constituída pela freguesia em si e três lugares, dois dos quais com uma capela onde em determinado dia a missa da semana a missa era rezada lá). Neste caso os meus avós viviam num desses lugares.
De qualquer forma ele podia chegar atrasado mas havia algo que eu realmente gostava nas missas dele: duravam menos de quinze minutos, não haviam cânticos nem homilias nem outras coisas que a meu ver são uma autentica perda de tempo. 

Tinha uma voz melancólica e extremamente baixa, sem vida e sem retórica nenhuma o que fazia com que aquelas missas em dias festivos ou domingueiros que são por norma mais compridas fossem convidativas a reais bocejos e a distracções, algo que ainda mantenho quase vinte anos depois em algumas cadeiras da faculdade.  :)

O padre J. tinha conhecimentos de tirar diabos do corpo. Muitos anos se passaram e todos ainda falam como ele enfrentou o diabo de uma certa jovem lá da aldeia (que por acaso é uma das mais conhecidas cantoras (ou cantadeiras) de cantares ao desafio na actualidade)
O padre J. já era o padre da freguesia antes da Revolução de Abril. Poderia ser a maior seca enquanto padre mas foi um verdadeiro activista anti-regime. Sem que ninguém soubesse, reunia todos os rapazes (meu pai inclusive) que ele achava pertinente e discretos, entre os 16 e os 20 e tal anos na casa dele e distribuía folhetins, livros abolidos pelo regime, assim como ouviam músicas que eram non grata nessa altura. Foi então aí que o meu pai e outros começaram a interessar-se pelo comunismo, pelo Kafka, pelas músicas do Zeca Afonso, pela questão estudantil. 
Apesar do Pe. J. ter sido discreto nesta causa, não o foi assim tanto. Chegou a ser apertado pela PIDE, mas felizmente nada de grave lhe aconteceu. Aparentemente fez pressão na diocese do Porto para que safassem o meu pai de um verdadeiro sarilho com a PIDE, já que o meu pai se tornou um universitário revolucionário. O meu pai sempre sentiu uma grande gratidão por aquela intervenção do padre e isso se reflectia em conversas todos os anos quando o Compasso Pascal passava na nossa casa.

O padre J. antes e após o 25 de Abril, viu quase todos os seus rapazes a partirem para França. Viu que a aldeia começava a ser formada de pessoas velhas e que essas pessoas velhas estavam também a desaparecer. E no início da década de 80 resolveu abraçar outra nova causa: dar qualidade aos seus paroquianos. Graças a ele surgiram as carrinhas diárias que levavam e traziam as pessoas da aldeia à vila. Passado uns anos, com os lucros, resolveu comprar e restaurar casas que estavam abandonadas e após formada uma cooperativa, começou a aluga-las para turismo rural. Estimulou a produção de doces típicos para posteriormente vender a turistas. Tudo em prole das paróquias que ele cada vez mais ele aceitava pela serra, porque a escassez de padres era cada vez maior. 


Haviam quem gostasse dele e das suas iniciativas e havia quem o achasse um capitalista nato "ele só quer é dinheiro para ele", diziam. E a bolha estourou pelas gentes da serra quando ele propôs em aumentar a população das paróquias com refugiados ( penso eu que na altura eram do Kosovo), hospedando-as nas casas fechadas. A população foi unânime: não queriam dividir o mesmo caminho com estrangeirada que não sabiam de onde vinham. 
Mais tarde propôs em que algumas das famílias se tornassem famílias de acolhimento de crianças vindas de África. Algumas famílias disseram que sim, os papeis foram tratados e na hora H, resolveram que não queriam tomar conta de pretos.

Seja como for, ele já há alguns anos que não é o Padre de lá. Deduzo que ou se reformou ou tornou-se padre de outra freguesia. Não acredito que tenha morrido.

A paróquia agora já não tem padre. Vai um de não sei de onde celebrar uma missa de vez em quando. Aliás, dado que as minhas idas à aldeia se resumem a dois-três dias por ano, uma das quais para a festa religiosa da aldeia (que por acaso é a única missa anual que assisto, não pela fé mas mais para ver gente e ser vista,  vou negar para quê?), estou completamente a leste de como andam os fieis a fazer.

 De qualquer forma, a grande necessidade de haver um padre na zona não existe por causa dos casamentos e baptizados mas por causa das extremas unções e funerais. Mas isso acontece já no tempo do Pe. João. E tenho pena que padres como o Pe. J., homens revolucionários, solidários e com capacidade de celebrar missas em quinze minutos estejam a desaparecer.

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