quarta-feira, 23 de julho de 2014

Das caminhadas...

Obriguei mi mamy a fazer o percurso a pé desde Bouro (Santa Maria) até ao Santuário da Senhora da Abadia, mesmo às portas do Gerês.
A minha mãe, sendo filha da terra, fez esse percurso dezenas de vezes, porque era quase obrigatório que as pessoas da zona fizessem a peregrinação à Abadia no último domingo de Maio e no quinze de Agosto. E também fazia parte da tradição que tal peregrinação fosse acompanhada por garrafões, farnel e mantas porque depois da missa é costume que as famílias abanquem na sombra para fazer piqueniques. Mas desde que se casou e que tem um carro, as peregrinações a pé foram substituídas de viagens de carro.

E por muito que ela estrebuchasse e dissesse que estava velha para essas coisas, obriguei-a LITERALMENTE a acompanhar-me até ao Santuário.
Deixamos o carro junto à pousada de Bouro, combinando com a minha irmã que ela deveria nos buscar dentro de duas horas. Destino: Abadia.

E lá fizemos o caminho que a minha mãe conhecia. Ela lamentou-se durante o trajeto o facto de muitos dos campos estarem ao abandono e muitas das bouças estarem cheias de silvas. Passamos por um calhau em que a tradição mandava que deveríamos mandar uma pedra para cima dele, viradas de costas e se a pedra caísse em cima do calhau, significava que nos iríamos casar naquele ano. Desafiei a minha mãe. Durante este ano ficaremos as duas sem casar...

Chegando ao santuário, já com uma sede dos diabos, resolvi beber um pouco de água de uma fonte que existe perto do riacho. A minha mãe, que estava a comer qualquer coisa, começou ao berros comigo:
- NÃO BEBAS DESSA ÁGUA!!! Olha que o sê Carlos (um velho caseiro dos meus avós que já morreu há imenso tempo), uma vez bebeu dessa fonte e achou-se muito mal! E olha que um sr. ali de Parada (de Bouro), colega de liceu do teu avô, também bebeu e acabou por morrer!!!

Sempre que vou ao santuário, bebo sempre água daquela fonte porque a água é tão leve que quanto mais bebemos, mais vontade dá de beber. Mesmo viciante... E quando a minha mãe me disse isso, recordei-me que o meu avô há muitos anos já me tinha dito o mesmo e que eu na minha imaginação infantil associei que a água estivesse contaminada.

- Mas mãe, eles tinham acabado de vir a pé para cá?
- Sim, o sê Carlos, tinha vindo com o teu avô, deu-lhe a sede e...
- A mãe já pensou por momentos que lhe pode ter dado uma congestão por causa do choque térmico?

A minha mãe ficou a olhar para mim com ar de estupefacto. Durante anos ouviu falar no afrontamento do caseiro e da morte do outro senhor e seguramente deve sempre ter imaginado em água contaminada. Acho que ela nunca tinha pensado em tal teoria.
E foi assim que se desvendou um mito.


PS. O santuário continua maravilhoso. Tenho que falar com o pessoal para organizar um piquenique por lá.

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