terça-feira, 3 de junho de 2014

Do piano...

Tinha eu uns quatro-cinco anos, quando os meus pais compraram um piano numa loja de instrumentos musicais ali prós lados da igreja do Galo. 
Era um piano preto, de marca alemã Rosenkranz, de se encostar à parede. Abrindo o tampo onde se vislumbra a maquinaria do instrumento, estão incrustadas umas moedas douradas e escrito também a dourado o ano 1906. As teclas já estavam bem amareladas e algumas delas meias rachadas. O som nunca foi lá muito harmonioso. No entanto sentia-me orgulhosa de ser a única pessoa que conhecia por ter um piano a sério em casa e não daqueles teclados de meia leca. 
Lembro-me do dia em que chegou a casa. Foram precisos cinco homens bem encorpados para o subir pelas escadas até ao quarto andar, tal era o peso dele. 
Os meus pais, mal o piano foi posto na sala, disseram logo "Sem chance, um dia que a gente venda esta casa, o piano fica cá".

O meu pai aprendeu a tocar piano nos seus tempos de seminarista. E nem eu andava sequer na escola primária quando me inscreveram numa escola de música mesmo atrás do prédio onde morava. 
Apesar de ter começado a ler muito precocemente (aos quatro anos já lia e escrevia porque acompanhei durante um ano as aulas da minha mãe, já que ela foi trabalhar para muito longe obrigando-a a viver fora de casa), aos cinco anos já sabia ler a pauta musical sem grandes problemas.
Apesar de na altura não ter noção disso, era frequentemente elogiada pela directora da escola de música e dos professores de teoria e de piano. Consideravam-me uma geniazinha por rapidamente dominar o piano, sem ainda ter tamanho suficiente para chegar aos pedais e por ter umas mãos tão pequeninas. Estranhavam o facto de eu dizer que em casa não era incentivada a praticar (tinha uma irmã bebé no quarto ao lado da sala). E achavam extraordinário por ter um ouvido musical muito apurado. O que é certo, é que incentivaram muito os meus pais a me inscreverem na Escola da Gulbenkian, coisa que não fizeram porque por motivos geográficos e profissionais, não haveria grande disponibilidade de me levar e trazer à escola. 
Recordo-me de ter ido a uma audição de um programa da Sic muito em voga na altura chamado Bravo Bravíssimo, tinha eu seis anos. Mas fiquei apenas pela audição. Ganhou um puto que cantava fado.
Recordo-me de numa das festas de aniversário da escola, ainda eu era muito catraia, ver um homem de óculos escuros, com um barrete em veludo todo bordado, cheio de espelhos pequeninos e que declamava as canções, não as cantava. Meses mais tarde, Pedro Abrunhosa tornou-se conhecido por todo Portugal com a música "Socorro".

O que é certo, eu cheguei a frequentar as aulas de piano, ano sim, ano não, até aos 11 anos. Depois parei de ir às aulas. Mudei de casa e o piano veio afinal connosco, depois de quase ter partido umas costelas a um dos carregadores e de ter quebrado alguns degraus do prédio. 
O piano encontra-se na sala lá da casa nova. Ficou um bocado arranhado com a mudança. Não me recordo da última vez que me sentei no banco e tocasse o quer que fosse durante mais de dez minutos.  Só toco um bocadinho nele quando lhe estou a limpar e pó. Desde que mudamos de casa nunca mais foi afinado (o piano deve ser afinado anualmente). Ainda cheguei a pedir o orçamento para a afinação mas 100 euros é muito para um instrumento que está parado. Volta e meia lá enfio naftalina debaixo dele porque sei que as borboletas e as traças dão cabo da madeira.

Se tenho saudades dos tempos em que tocava piano? Tenho pois. O meu ouvido não está tão apurado como outrora mas continuo a achar que se toda a gente nasce com um talento, o meu é indubitavelmente a música. Mas algo que não gostava dos tempos em que tinha aulas, era o facto de apenas ter partituras clássicas. Como não tinha Internet naquele tempo e como os livros de instrumentos são caros como tudo, eu só tocava aquilo que me arranjavam e isso significava que gramei Mozart pai e filho, Beethoven, Debussy, Chopin e outros até me fartar. E quando eu tocava tais maravilhosas peças para os meus amigos, eles diziam "Ah sim, muito lindo... mas sabes tocar aquela música dos Metallica?" 
Anos mais tarde, comprei uma guitarra, tive umas aulas para aprender os acordes daquilo e rapidamente comecei a domina-la. Qual é a vantagem da guitarra em relação ao piano? Arranja-se num estalar de dedos imensas músicas para guitarra, principalmente aquelas que toda a gente conhece. Além disso, pode-se levar a guitarra para a casa dos amigos e fazer uma festa e tanto, coisa que com o piano não dá, pois não?

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