segunda-feira, 30 de junho de 2014

O casaco sem mangas

O tio Américo, mais conhecido por tio Merco, não era tio mais sim primo do meu avô paterno.
Era um homem bastante corpulento e alto e andava sempre acompanhado por um bastão daqueles que as pessoas usavam para picar as vacas. Tinha uma voz melancólica, típica de um avozinho fofo.

O tio Merco era um velhote cinco estrelas: como os netos viviam para os lados de Viseu, adotou a mim e a minha irmã como netas sempre que íamos a aldeia.
"Dá-me a tua mão, Alima!", dizia-me. E eu dava. E na mão dele estava sempre 50- 100 escudos.
E como bom avô adotivo, enchia-nos de gelados, coca-colas e de bolachas baunilha no tasco do velho Torrão.

Contou o tio Merco que tinha uma irmã que morreu atropelada por uma vaca muitos anos atras. E como ficaram órfãos de mãe e de pai muito novos, fruto do clima agreste da montanha, foi a própria irmã que criou o tio Merco.

A pobreza das gentes da serra era tanta que tinham apenas uma-duas mudas de roupa: a roupa de trabalho (que usava nas minas e no campo) e a roupa domingueira/roupa de ir á vila.
E num dia bem chuvoso e de inverno, o tio Merco, ainda cachopo, resolveu pôr a sua vestimenta de trabalho junto a lareira, enquanto se aquecia de ceroulas e de manta de trapos.

Mas uma chama teimosa aproximou-se da sua roupa molhada e incendiou-a. A irmã do tio Merco e o tio Merco bem que bateu a roupa contra a parede da cozinha para ver se apagava a roupa queimada.

Contou o tio Merco que desatou em lágrimas de tristeza e de revolta ao ver a sua roupinha quase toda queimada.

Disse-lhe a sua irmã:

"Oh Merco, porque te zangas?
Tens as calças queimadas
E um casaco sem mangas!"


True story.


O tio Merco morreu já há quinze anos, vítima de enfisema pulmonar. Mais uma vítima da silicose e asbestose típica de quem trabalhou nas minas. Afinal nem sempre os ares da serra curam tudo.

sábado, 28 de junho de 2014

Acabadinho de ler no Kindle em mode férias II

De Profundis Valsa Lenta- José Cardoso Pires

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Das merdas deste Portugal

Ligo para tomar café com uma das minhas velhas amigas do tempo do liceu, também ela enfermeira.

Saio do café completamente revoltada: Uma enfermeira a trabalhar no turno da noite num lar com tanto prestígio que até website tem, com capacidade para quarenta idosos, com o apoio de uma auxiliar apenas.

O salário da enfermeira: 500 euros a recibos verdes.

Trabalha lá há três meses e ainda não assinou qualquer contrato, porque a Direção anda a esquivar-se a todo gás de tais burocracias.


Portugalzinho de merda. Portugalzinho de merda mesmo.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Desta Braga que tanto amo

Se há coisa que adoro no mês de Junho em Braga é sem dúvida o cheiro característico a tília (cheira-me a Junho!) e o ambiente são joanino que tanto vibrava nos meus tempos de criança.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Da Equipa das Quinas...

Não sou fanática por futebol. Gosto de ver os jogos da nossa Selecção Nacional e os jogos do meu FCP.
Mas hoje sinto-me revoltada. Péssima actuação, arbitragem cega e quiça demasiado rigorosa. Optei por ver sozinha o jogo, no conforto do sofá e de um ambiente escuro da sala. Mas o meu entusiamo foi pouco. Maior foi a minha decepção.

A esperança é pouca para chegarmos à final. Acho que vou apoiar mesmo a equipa brasileira.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Primeiro livro lido em modo férias 2014



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Da inveja...

Quando há cerca de quatro meses me disseram que poderia pedir transferência para Portugal e que a conseguiria sem qualquer problema nem sequer tentei por medo de chegar lá e ter que fazer mais cadeiras adicionais, o que faria que esse ano seria um ano de cão com o enorme risco de ter de repetir o ano pois talvez não seria capaz de conseguir fazer tudo antes de chegar aos anos clínicos.

E quando há um mês vi a lista dos que tentaram e dos que foram admitidos para entrevista (quase ninguém me disse que o faria, fizeram isto na máxima confidencialidade) fiquei extremamente feliz por saber que os que foram admitidos têm fortes chances de estudarem em Portugal já em Setembro. Eu sabia que entraria este ano considerando o meu curso anterior e os créditos já conseguidos, mas não foi por covardia mas sim por precaução resolvi não tentar. Preferi jogar o certo pelo incerto e dessa forma sei que não sentiria pontada de arrependimento.

A T., de uma forma inócua perguntou-me se não estava com uma ponta de inveja. Sem dúvida que não. Inveja teria se tivesse tentado e não fosse apurada (o que seria só possível se eu não fizesse a candidatura correctamente, porque segundo os cálculos ficaria acima da metade dos apurados). Alias, cruzo os dedos para que tudo lhes corra bem. E sei que vai correr. E também sei que abrirão caminho para quando entrar para o ano. Se para o ano arriscar. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Do piano...

Tinha eu uns quatro-cinco anos, quando os meus pais compraram um piano numa loja de instrumentos musicais ali prós lados da igreja do Galo. 
Era um piano preto, de marca alemã Rosenkranz, de se encostar à parede. Abrindo o tampo onde se vislumbra a maquinaria do instrumento, estão incrustadas umas moedas douradas e escrito também a dourado o ano 1906. As teclas já estavam bem amareladas e algumas delas meias rachadas. O som nunca foi lá muito harmonioso. No entanto sentia-me orgulhosa de ser a única pessoa que conhecia por ter um piano a sério em casa e não daqueles teclados de meia leca. 
Lembro-me do dia em que chegou a casa. Foram precisos cinco homens bem encorpados para o subir pelas escadas até ao quarto andar, tal era o peso dele. 
Os meus pais, mal o piano foi posto na sala, disseram logo "Sem chance, um dia que a gente venda esta casa, o piano fica cá".

O meu pai aprendeu a tocar piano nos seus tempos de seminarista. E nem eu andava sequer na escola primária quando me inscreveram numa escola de música mesmo atrás do prédio onde morava. 
Apesar de ter começado a ler muito precocemente (aos quatro anos já lia e escrevia porque acompanhei durante um ano as aulas da minha mãe, já que ela foi trabalhar para muito longe obrigando-a a viver fora de casa), aos cinco anos já sabia ler a pauta musical sem grandes problemas.
Apesar de na altura não ter noção disso, era frequentemente elogiada pela directora da escola de música e dos professores de teoria e de piano. Consideravam-me uma geniazinha por rapidamente dominar o piano, sem ainda ter tamanho suficiente para chegar aos pedais e por ter umas mãos tão pequeninas. Estranhavam o facto de eu dizer que em casa não era incentivada a praticar (tinha uma irmã bebé no quarto ao lado da sala). E achavam extraordinário por ter um ouvido musical muito apurado. O que é certo, é que incentivaram muito os meus pais a me inscreverem na Escola da Gulbenkian, coisa que não fizeram porque por motivos geográficos e profissionais, não haveria grande disponibilidade de me levar e trazer à escola. 
Recordo-me de ter ido a uma audição de um programa da Sic muito em voga na altura chamado Bravo Bravíssimo, tinha eu seis anos. Mas fiquei apenas pela audição. Ganhou um puto que cantava fado.
Recordo-me de numa das festas de aniversário da escola, ainda eu era muito catraia, ver um homem de óculos escuros, com um barrete em veludo todo bordado, cheio de espelhos pequeninos e que declamava as canções, não as cantava. Meses mais tarde, Pedro Abrunhosa tornou-se conhecido por todo Portugal com a música "Socorro".

O que é certo, eu cheguei a frequentar as aulas de piano, ano sim, ano não, até aos 11 anos. Depois parei de ir às aulas. Mudei de casa e o piano veio afinal connosco, depois de quase ter partido umas costelas a um dos carregadores e de ter quebrado alguns degraus do prédio. 
O piano encontra-se na sala lá da casa nova. Ficou um bocado arranhado com a mudança. Não me recordo da última vez que me sentei no banco e tocasse o quer que fosse durante mais de dez minutos.  Só toco um bocadinho nele quando lhe estou a limpar e pó. Desde que mudamos de casa nunca mais foi afinado (o piano deve ser afinado anualmente). Ainda cheguei a pedir o orçamento para a afinação mas 100 euros é muito para um instrumento que está parado. Volta e meia lá enfio naftalina debaixo dele porque sei que as borboletas e as traças dão cabo da madeira.

Se tenho saudades dos tempos em que tocava piano? Tenho pois. O meu ouvido não está tão apurado como outrora mas continuo a achar que se toda a gente nasce com um talento, o meu é indubitavelmente a música. Mas algo que não gostava dos tempos em que tinha aulas, era o facto de apenas ter partituras clássicas. Como não tinha Internet naquele tempo e como os livros de instrumentos são caros como tudo, eu só tocava aquilo que me arranjavam e isso significava que gramei Mozart pai e filho, Beethoven, Debussy, Chopin e outros até me fartar. E quando eu tocava tais maravilhosas peças para os meus amigos, eles diziam "Ah sim, muito lindo... mas sabes tocar aquela música dos Metallica?" 
Anos mais tarde, comprei uma guitarra, tive umas aulas para aprender os acordes daquilo e rapidamente comecei a domina-la. Qual é a vantagem da guitarra em relação ao piano? Arranja-se num estalar de dedos imensas músicas para guitarra, principalmente aquelas que toda a gente conhece. Além disso, pode-se levar a guitarra para a casa dos amigos e fazer uma festa e tanto, coisa que com o piano não dá, pois não?

domingo, 1 de junho de 2014

Marcha Soldado, Cabeça de Papel, se não marchares direito

... vais preso pro quartel!

Dos meus tempos de miúda se há coisa que deixou mesmo saudades foi mesmo as minhas visitinhas aos locais de trabalhos dos meus pais.
O meu pai durante muitos anos foi militar. Uns anos em Braga, outros nas Caldas da Rainha, outros em Lisboa e tal, mas como filho pródigo a casa retorna, retornava sempre aos sábados ao quartel de Braga para conviver com os amigos.

Muitas tardes de  Sábado eu lá passei no quartel. Eu e filhos de outros militares, amigos do meu pai.
Era uma confraternização fantástica: todos os amigos do meu pai eram meus tios, todos os filhos deles eram como se fossem meus irmãos.
Jogávamos à bola (sim, eram mais rapazes que raparigas no grupo), andávamos de patins ou de bicicleta por lá, trocava-se cromos do bolicao ou tazos das batatas fritas, lia-se os semanários que tinham saído no dia anterior e que se mantinham numa mesa na messe junto aos sofás de napa preta, foi lá na messe onde aprendi a jogar ao Keims, às damas e ao xadrez.
Mas se havia coisa que eu gostava mesmo mesmo, era quando um dos amigos do meu pai, o meu querido tio R., que era o veterinário lá do quartel, nos disponibilizava um cavalo para montarmos no picadeiro. Podiam ser três minutos a trote, mas eram três minutos que valiam horas para nós.

O primeiro tio a desaparecer do palco foi o tio R.. um enfarte do miocárdio o levou muito precocemente. Pouco tempo depois o meu pai. Os outros três dos cinco magníficos que eles eram, estão agora reformados. Um deles já é avó e os outros dois em vias de. 

O que é certo é que essas perdas irreversíveis desfizeram o elo que havia entre os compadres que eram e os filhos dos compadres. Mantenho apenas contacto com dois desses miúdos que agora já são senhores, assim como eu já não sou aquela miúda.

Tenho umas enormes saudades desses tempos. Como digo, era feliz e nem sabia. E não sabia mesmo...