sábado, 10 de maio de 2014

História da Família na Família- Factos Arrepiantes III

Até à minha adolescência lidei muito pouco com a morte. No entanto, a partir do fatídico ano de 2004, a palavra morte entrava constantemente nos meus pensamentos.
Quando faleceu o meu pai, durante umas boas semanas sentia um cheiro enjoativo a velas de baunilha e a flores, um cheiro que emanava na capela mortuária durante o velório. É um cheiro que não consigo esquecer porque volta e meia sinto-o. Gosto de pensar que é uma maneira que o Além tem para comunicar-se connosco. No entanto sinto que cada vez menos sinto esse cheiro...


Mas estes dias, numa aula de Patologia Anatómica, foi feita a autópsia a um individuo que morreu exactamente nas mesmas circunstâncias que o meu pai. O cheiro a cancro deveria ser nauseabundo, assim como todos os fluidos frutos da decomposição autolítica. Todos usavamos a máscara o qual colocamos um lenço com aroma a mentol para disfarçar o odor... E eu senti de novo o cheiro enjoativo a velas de baunilha e flores, mantive a máscara mas tive que retirar o lenço de mentol. Um cheiro que detestava por ser enjoativo mas que me fazia tanto lembrar aquelas horas que passei na capela mortuária a lamentar o tempo que deveria ter sido mais aproveitado com o meu pai e o bom tempo que passamos juntos e terminou depressa. 

2 impressões:

S* disse...

Mas que horror. :(

capitão disse...

A morte é um facto natural de qualquer ser vivo.
Todos eles têm uma pulsão para se manterem vivos, que se vai refreando depois de terem os filhos criados, como se se vissem continuados depois de desaparecerem.
A morte pode ser um alívio e pode-se morrer em paz se sentirmos que os que ficam respeitam o nosso legado.
Não veja a morte como um fim. Podemos "continuar" se deixarmos um pouco de nós nos outros, pelo exemplo, pela obra, pelos genes.

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