sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dos idosos... neste caso da minha avó

Recentemente, publiquei aqui algo sobre o drama que a minha família tem passado desde Abril, mais precisamente uma queda da minha avó que terminou numa hospitalização, cirurgia a um colo do fémur fracturado.

O facto da minha avó ter ficado ainda mais dependente de terceiros fez com que houvesse uma azáfama para encontrar um local que a pudesse acolher e que a pudesse reabilitar o melhor possível. Infelizmente o distrito de Braga carece (e muito) desses locais. Só tivemos resposta de um lar de idosos privado, que além de ficar muito longe para ir visita-la, tinha uma mensalidade de quase o vencimento de um professor a meio da carreira.  
Desta forma, contactei a D., uma das minhas melhores amigas, Assistente Social em Viana do Castelo e ela a todo o custo arranjou vaga num lar com parceria público-privada (onde pagaria uma mensalidade bem menor) no distrito onde ela trabalha. E ninguém da minha família aceitou tal proposta, alegando a questão da distância e do a minha mãezinha não vai para um lar, coitadinha, colocando a minha avó numa "Família de Acolhimento" que a assistente social do hospital recomendou (sim, são oito irmãos, ganhou a maioria porque queria uma solução rápida e que não mexesse nas suas vidinhas). 

Vou ser sincera: sou a pessoa mais desconfiada no que toca a esse tipo de cuidadoras. E quando a minha mãe me disse que ela, além da minha avó, tomava conta de mais três idosos, pedia uma mensalidade bem bem elevada na minha opinião, fora despesas com fraldas, cremes e medicação, exigiu que a família comprasse cadeira higiénica, cama hospitalar, andarilho, cadeira de rodas e outras coisas que pelos vistos não tinha apesar de ter três idosos em casa, NÃO PASSANDO RECIBO APESAR DE SER RECOMENDADA PELA ASSISTENTE SOCIAL DO HOSPITAL DE BRAGA, eu pensei logo: isto vai dar chatices das gordas...

Na primeira vez que a minha mãe foi visitar, quando falei com ela pelo skype, chorava baba e ranho, dizia e voltava a dizer que as condições em que a ´vó vivia eram miseráveis, logo ela que sempre foi uma senhora bla bla bla. Tentei acalmar a minha mãe, do tipo "ah e tal, mammy, a mãe não está habituada a ver a avó desta forma... logo logo acostuma-se..."
No dia seguinte, uma prima minha, daquelas que dão o corpo ao manifesto tal como eu diz-me: 

"Se tu estivesses aqui, terias dito quentes e boas à mulher... (Sim, Alima, sempre foi mãe do agir em tudo, estás a espera que seja eu a líder da revolta?) acreditas que estive a mexer no armário da cozinha onde ela prepara as refeições para as velhotas (pelos vistos, a mulher tem duas cozinhas em casa, uma das quais é para preparar as refeições para as idosas, não sei, nunca lá estive) e só vi latas de atum? E sabias que a minha mãe queria lhe dar uma cevadita à avó e a fulana disse que naquela casa os velhotes não bebem café nem vinho, nem comem chocolates porque estão proibidos...?"

Imediatamente recordei-me que durante a estadia da avó em minha casa, durante o mês de Dezembro e Janeiro, era matemático dar-lhe um café e um quadrado de chocolate ao almoço e ao jantar assim como meio copo de vinho, ao qual ela me agradecia porque graças ao café sentia-se mais arrebitada
Sabia que ela odiava iogurtes, mas sabia que ela adorava misturar gelatina com iogurtes, mas pelos vistos esta cuidadeira porque cuidadora não o é, segundo a minha prima, enfia o iogurte simples pela goela abaixo da minha avó.

Em videoconferência, juntei mi mammy, e duas tias minhas cada uma nos seus pc's. Todas elas eram contra a estadia da avó naquela casa. Elas queixaram-se de imensas coisas, mas quando eu perguntava de coisas que fui aprendendo como enfermeira, elas pouco sabiam dizer. O problema eram os outros cinco irmãos que para eles a avó estava num paraíso, que a senhora era uma querida e diabo ao quatro...
Então pedi a uma amiga minha, enfermeira de profissão, para ir com a minha mãe e passar-se por neta. E a mulher foi extremamente indelicada com a "neta" só porque ela foi ver se a avó tinha ulceras de pressão e por avaliar o estado da pele e mucosas. Coisas que o faro de qualquer enfermeiro vale mais que de um familiar que nada percebe do assunto. E sim, a avó estava desidratada, emagrecida e tem úlceras no sacro e calcaneo, para não falar de uma brutal dermatite de fralda.. 

E tudo isso expliquei aos meus tios que estavam a favor da permanência da avó naquela casa. Fui menina para enviar um texto para o facebook de alguns deles a explicar que defendia e que todos deveriam defender que deveria haver uma dignidade quando se morre. Ela tem 90 anos, não se pode esperar muito... E toda a dignidade que a minha avó teve foi roubada no momento em que a privaram do meio copo de vinho às refeições, dos seus dois cafés diários cheios de adoçante, da sua tablete de chocolate que ela tanto gostava de ter na gaveta, assim como das suas bolachinhas sortido que ela comia num ápice. É diabética sim, tinha sempre os níveis de glicose altos sim, mas era uma mulher activa, feliz e não uma velhinha na cama que se lamenta. Morra Marta, mas que morra farta, disse uma vez um médico do Centro de Saúde a um velhinho quando eu estava a assistir a uma dessas consultas como estudante.
Tudo isto resume aquela frase que às vezes digo à minha mãe: Pais, sejam bons para os vossos filhos porque são eles que escolhem o lar na velhice...

Os familiares mais cépticos ao meu ponto de vista lá cederam na condição que de que não iriam mover uma palha para conseguir conseguir outro local por falta de tempo. 
E em pouco tempo e com pouco trabalho consegui :)


O problema da cuidadeira é que se esticou demasiado. Exigiu mais medicação que era suposto. Neste caso, medicação para dormir, ao qual um dos genros, que é medico, lhe fez um manguito porque viu que praticamente estava a dopar a minha avó, porque aparentemente ela está muito pouco reactiva (logo ela, que em Janeiro me ajudava nas tarefas domésticas só para se manter ocupada...). 
Depois exigiu que a própria família trouxesse os cremes para a pele, já que o extra que lhe dávamos para fraldas não era suficiente, o que é impossível porque o extra é demasiado bem pago.
Depois começou a exigir material de pensos, betadines, soros, compressas, ao qual eu disse à minha mãe que feridas cirúrgicas (neste caso a ferida da cirurgia ao colo do femur) têm de ser vistas por uma ENFERMEIRA do Centro de Saúde e nunca por uma mulher que diz que tirou o curso técnico de geriatria em poucos meses. 
A cuidadeira tentou infantilizar demasiado a minha avó. Oh minha rica, Oh minha menina, não é forma de se tratar uma senhora. E fiquei a saber que a minha avó sofria com isso...
Além disso, a minha própria avó se queixava de que odiava comer em malgas de plástico e que gostava de comer com uma toalha na mesa, algo que a cuidadeira não lhe facultava. 
Depois, como viu que certos filhos estavam lá todas as tardes (neste caso a minha mãe e um outro tio), estipulou um horário em que não é possível visitas aos Domingos e a permanência máxima da visita é de 1h! E as vítimas desses horários eram os meus  familiares já que pelo menos um dos outros idosos tinha a família a viver no estrangeiro. 
A sua postura do quero, posso e mando fez com que ela perdesse toda a credibilidade possível. 
Outra coisa, teve o azar de se virar para a minha mãe e lhe dizer "Sabe, a sua mãe tem uma demência muito profunda", ao qual a minha mãe lhe respondeu "sabe, a senhora não é médica e nem deve saber ler uma ressonância para diagnosticar o quer que seja...", ao qual a mulher não gostou nada da resposta. A minha avó tem sequelas de um ligeiro AVC e tem 90 anos, daí alguns lapsos de memórias, especialmente de coisas recentes mas nada por aí além. Historinhas de infância e juventude sabe elas todas. Garanto. 

Não. não foi implicância à primeira vista.. Foi mais um acumular de coisas em poucos dias que a minha avó permaneceu.

0 impressões:

Enviar um comentário