terça-feira, 20 de maio de 2014

Dos automóveis da minha infância

Durante alguns anos, o único carro que tínhamos em casa era o velhinho Renault 12 de 1974 que só o meu pai conduzia.
A minha mãe, apesar de ter carta de condução desde os seus 20 anos, tinha-se acomodado às boleias e autocarros que tinha de apanhar para ir para o trabalho.

Fartos de piadas e humilhações por parte da família por causa do velho carro da família, resolveram que estava na altura de investir num novo carro: um Seat Ibiza preto.

Era para mim o melhor carro do mundo. Tinha cinto de segurança nos bancos de trás, algo que o velhinho Renault não tinha. Tinha um rádio a cassetes com um som fantástico. Tinha uns bolsos no banco da frente, óptimos para eu guardar as minhas bonecas.

Uma semana do meu pai comprar o carro, resolveu que tinha de ir mostrar o carro aos meus avós paternos à aldeia. Como a minha irmã, na altura com três anos, estava doente e como a viagem de 2h de distância é ruim para alguém com vômitos e febre, ficou resolvido que o meu pai ia, eu, mana e mãe ficávamos em casa.

E lá foi o meu pai todo orgulhoso até à aldeia. Chegando lá, pegou no meu avô e foram à vila para um tasco conhecido pelo melhor bucho cozido. Terminada a refeição, o meu pai ao entrar no carro reparou que durante aquela horinha que passou no tasco, tinham-lhe roubado as jantes do carro.

No dia seguinte, o meu pai e o meu avô foram ao tasco da aldeia vizinha para beber o bagacinho com mel e para exibir o carro bonito que o filho do velho do C. tinha comprado.
Estacionaram o carro à porta do tasco e ficaram em amena cavaqueira dentro do tasco. A amena cavaqueira terminou subitamente quando ouviram um estrondo de chapa e de vidros partidos ao som de uma vaca a mugir e de um pastor a gritar com ela enquanto segurava uma vara.

O cenário: Umas galinhas se soltaram de um quintal, foram para o meio da estrada, o pastor vinha com as vaquinhas do pasto, uma das vacas se assustou com uma galinha e saltou precisamente para cima do capôt, vidros e tejadilho do seat ibiza recém comprado.

Numa era em que nem todos tinham telemóveis, a minha mãe não foi devidamente preparada para ver o espectáculo em que viu o carro assim que o meu pai o estacionou à porta do nosso prédio para descarregar a mala e as hortaliças e afins que a minha avó enviava como sempre... basicamente lhe deu um fanico.

E foi assim que uma semana depois de termos o carro, voltamos a ficar sem ele por umas semanas para o repararem...


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