sábado, 17 de maio de 2014

Das psiquiatrices

Jovem na casa dos 30, admitido no serviço de psiquiatria por causa de um problema típico nesta zona denominado Alcoolismo, vulgo too much vodka .

Um grupo de estudantes, sentou-se com ele numa sala de reuniões. Ele, cheio de tatuagens com estrelas (que na minha opinião são mais adequadas para mulheres), tinha umas características feições no rosto que dava a entender que tinha problemas com alcoolismo. O seu discurso era arrastado. As suas mãos tremiam.

O grupo, composto por portugueses, árabes, indianos, israelitas, polacos e uma alemã, fizeram-lhe várias perguntas ao qual o homem colaborou em respondê-las. 
A alemã era a mais activa a fazer perguntas. Aliás, poucos gostam dela por causa da sua postura altiva e de sabichona. Algumas das perguntas eu concordava, outras eu achava um tanto descabidas.
Perguntou ela, além do álcool, que outros vícios o paciente tinha. Ele confessou que fumava cerca de um maço por dia.
Ela perguntou-lhe que vício ele achava que tinha mais urgência em deixar, ao qual ele respondeu sem hesitações o álcool, porque era o vício que estava a estragar a sua vida.
E foi então que ela disse a coisa mais ridícula na minha opinião:

Já que quer deixar o vício do álcool, porque não deixa ao mesmo tempo o do tabaco?

Houve sussurro na sala. Em português sussurramos e que tal fechares a matraca?
O paciente responde-lhe que para deixar o vício do álcool já vai ser uma odisseia, deixar também o tabaco vai ser uma catástrofe.

A alemã não se convenceu. 
Mas é melhor para si combater dois vícios numa só batalha. Olhe que o tabaco faz muito mal...

Após o paciente se ter ido embora, surgiu a discussão. Fui das primeiras pessoas a intervir. Expliquei que qualquer vício é difícil de combater. Expliquei que quando tento fazer dieta, tenho de abdicar do meu vício de comer doces e por muita fruta e comida saudável que meta à boca, sinto sempre necessidade de algo doce. E é então que tento combater essa necessidade, fumando (passo semanas sem fumar, mas durante os exames ou em situações de stress, acalma-me imenso).Ou então, metendo açúcar no café, algo que nunca faço.  E com essa minha experiência dei a minha conclusão que deixar o álcool e o tabaco ao mesmo tempo é muito mais complicado. Maior parte dos meus colegas concordou comigo. Todos eles têm experiências semelhantes à minha: ou é o tabaco, ou as unhas, ou a erva (que sejamos sinceros, quase toda  a gente fuma).

Mas mesmo assim a alemã se demonstrou irredutível. Como sempre.
A psiquiatra concordou com a alemã, apesar de também concordar com a maioria que estava contra.
Mas o ambiente se tornou mais relaxado e mais tenso ao mesmo tempo quando o israelita diz:

- Alemães... sempre muito eficientes e práticos em tudo... Dra. (virando-se para a psiquiatra), e que tal uma visitinha de estudo a Auschwitz para mostrar a todos a eficácia alemã?

2 impressões:

capitão disse...

Alima:
Eu ando nesta vida de médico, há décadas, e tenho uma ideia do que é mudar hábitos ou vícios, como estes hábitos a que se refere.
O nosso corpo tem uma "memória metabólica" que não se altera em meses. Necessita de anos de investimento, com o radicalismo dessa alemã, se se pretendem resultados e não recaídas.
É a vida! Esse desgraçado está condenado. Ou o prendem durante dois anos num local onde não haja vinho nem tabaco, ou não lhe dou duas semanas após a alta para andar de novo aos bordos.

humming disse...

Essa saída do israelita é quase a mesma coisa que os ingleses a quererem ganhar conversas a perguntar-me pela Maddie. Não consigo achar uma boa tirada.

Mas vim cá por uma razão mais simpática, desculpa-me por ter entrado a comentar pela negativa. Vim, porque também sou corresponde de cartas e é sempre bom encontrar mais alguém que goste delas. Ainda por cima, encontro aqui uma etiqueta de "psiquiatrices", quando a Psiquiatria é um dos meus interesses mais queridos. E esse nome, Alima, era um nome que eu poderia bem ter adoptado, gosto do som e do significado (tive um blog em que me chamava "Alina", mas por causa de um album de Arvo Part). É raro identificar-me três vezes no mesmo sítio. :) Foi bom cá passar.

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