segunda-feira, 12 de maio de 2014

12 de Maio- Dia do Enfermeiro

Trabalhei três anos como enfermeira: dois anos em Espanha, um ano em Portugal. 
Entrei em Enfermagem não por gosto nem vocação mas porque diziam-me na altura que era um curso com muita saída profissional. Provavelmente o facto de ter feito o curso um bocadinho contrariada fez com que o meu desempenho não fosse dos mais exemplares: apesar de tirar boas notas, raramente punha os pés nas aulas. Algo que detestei no meu curso foi a existência de trabalhos de grupo com apresentação e entrega de trabalhos em que o que mais me moía a cabeça era a formatação e não o trabalho em si.

Fui muito abaixo no meu primeiro estágio no primeiro ano porque nunca tinha mudado uma fralda em toda a minha vida nem nunca tinha dado um banho em alguém. E a enfermeira responsável berrou comigo como se eu tivesse a obrigação de saber desenrascar-me bem desde o primeiro dia. 
"Se achas que não dás para isto, não percas o teu tempo neste estágio", disse-me no meu primeiro dia de estágio.
E eu continuei aquele estágio. Sem arrependimentos. Acabei o curso. Emigrei, regressei a Portugal onde trabalhei e onde fiquei com o coração nas mãos quando me disseram que o meu contrato de meio ano estava para acabar. Eu perguntei se era para continuar. Hum... não sei, depois o chefe lhe dirá. Foi quando comecei a pensar: Será isto que quero? Andar de meio em meio ano neurótica, a trabalhar muito e a receber pouco até chegar a idade da reforma? Se é para isso, que seja algo que se calhar goste...

Hoje, 12 de Maio, escrevo este post com uma conclusão: a culpa da Enfermagem estar caótica em Portugal está nos próprios Enfermeiros. São os Enfermeiros mais velhos que deveriam integrar os mais novos e os estudantes de Enfermagem e o que se vê muitas vezes? Hostilidade, incompreensão, a mania de que somos máquinas, que não temos sentimentos.  
Já vivi na pele quando trabalhei num hospital português em que pedi um conselho a um enfermeiro mais velho sobre algo, ele respondeu-me "se fosse a ti faria isto...", eu ingénua assim o fiz e passado uns dias recebo uma chamada de atenção da chefe a dizer que não tinha nada que fazer aquilo e oiço o tal enfermeiro mais velho a dizer que se quisesse fazer mesmo aquilo que tivesse estudado mais e que fosse médica. 

Os enfermeiros vão amadurecendo na carreira e tornam-se cada vez mais mesquinhos, mais invejosos. Surgiu uma nova onda de que todos acham que podem ser chefes. Sinto que detestam quando um colega entra numa pós graduação ou num mestrado. Olha ela... agora também quer virar especialista...Para quê é que ela vai-se meter nisto? E os turnos dela, quem vai cobrir?, perguntam. 

Sinto uma enorme pena da minha geração que se formou há menos de dez anos. Sinto uma enorme pena quando sei que fulana acabou de entrar em Enfermagem.
Dos poucos amigos que ainda conservo do tempo do curso (não conservei nenhuma amizade com enfermeiros dos serviço onde trabalhei em Portugal como enfermeira), poucos são os que estão sólidos nos locais onde trabalham. Terminaram o curso em 2007-2008 e muitos ainda estão a recibos verdes ou com contratos em que de x em x meses estão com o coração nas mãos porque não sabem se continuam ou não. Muitos deles já passaram os trinta e não se casaram ou não têm filhos porque não há dinheiro nem boas condições para formarem uma família. Ainda acreditam que num futuro a coisa irá ficar melhor. 
Depois há aqueles que emigraram e ainda não voltaram. Alguns já têm filhos espanhóis, franceses ou ingleses. Já têm dificuldades em escrever em português ou de encontrar as palavras adequadas na língua materna. Gostariam de trabalhar em Portugal mas consideram uma utopia. 
Há aqueles que como eu se cansaram de serem escravos e mudaram de profissão ou meteram-se noutro curso. Passaram de enfermeiros a estudantes de medicina ou a pasteleiros ou relações públicas ou a mediadores de seguros ou proprietários de lojas de roupa ou a empregados fabris.
Recordo-me bem no dia em que fui entregar a minha cédula à Ordem dos Enfermeiros para não voltar a pagar as cotas, uma recém licenciada estava  à minha frente para se inscrever. E achei um piadão quando ela pediu para se inscrever na Ordem, dando saltinhos e risinhos na secretaria. E enquanto ela preenchia o formulário, fui eu atendida, e numa de gozo dei saltinhos e risinhos quando disse que queria cancelar a minha inscrição, para espanto da rapariga e da mulher que estava na secretaria. 

Disse Nightingale, considerada a fundadora da Enfermagem como profissão, que a Enfermagem é uma arte que requer devoção exclusiva. Estas palavras já não têm grande fundamento, pois a maior arte do enfermeiro português do nosso tempo é sobreviver a um turno sem uma dor de pernas, de braços, de costas, sem disses que disses. Os serviços hospitalares tornaram-se numa selva urbana, numa lei de Murphy em que errar é humano, mas perdoar não é uma política da empresa.

Espero que um dia as coisas melhorem... Espero que um dia a sociedade valorize mais a Enfermagem e que pense nela não como os gajos das picas que não fazem um caraças no centros de Saúde ou ai e tal tenho uma tia que foi enfermeira com o antigo 2º ano e muito menos como os médicos frustrados. Não vislumbro grandes perspectivas apesar de sempre acreditar no impossível.

Feliz Dia dos Enfermeiros...

1 impressões:

humming disse...
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