sexta-feira, 30 de maio de 2014

E fiquei esta semana a saber em primeira mão...

Que além de um trambolhão que deixou alguém todo fodido (foi nestes termos que me contaram), mi titia, única irmã que tem a mesma mãe e o mesmo pai que o meu pai, vai deixar França de vez.

Os seus quase 64 anos, com apenas 15 anos de descontos direitinhos pelas terras da Torre Eiffel (andou ilegal uma catrafada de anos, a malandra) vão lhe dar direito a uma reforma muito simpática. Com ela virá o marido também, que sim, esse está oficialmente reformado após 40 e tal anos na menage...

Agora estou para ver como vão eles sobreviver numa aldeia a quinze kilometros da vila, com vinte habitantes, meia dúzia de vacas, cabritos e galinhas quando passaram toda a vida no reboliço de Paris...

Quando perguntei à minha tia o que prentendia fazer agora que voltava a Portugal, ela disse-me: Vou plantar umas couves, uns tomatitos e ter o meu próprio galinheiro. (Então e a sciatique, oh chefa?)


E quando inquiri o meu tio do que iria fazer agora que voltava de vez a Portugal, o homem respondeu-me: Vou realizar o meu sonho: abrir um tasco, na aldeia, com direito a copos, petiscos e concertinadas (Oi, a aldeia tem vinte habitantes quase todos eles com pé na cova!?).

Bem vindos a Portugal, seus sonhadores!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ooooops

Em relação a este post, só quero dizer que os mandei só e apenas e apenas só para o caralho devido às maldades que andaram a aprontar-nos, e isso não significava de todo que desejasse que um deles desse um valente tramboljão em casa e ficasse com traumatismo craniano com direito a convalescença na cama e com colete imobilizador de coluna (em bom português, está todo fodido, segundo mi titia).


Karma is a bitch. Mai nada.

Alima

terça-feira, 27 de maio de 2014

Dos idosos (II)

E provisoriamente (continuo a achar que se calhar um lar seria melhor) consegui arranjar uma cuidadora decente: a mãe de uma das minhas melhores amigas, enfermeira reformada cheia-de-vida, sendo eu presença habitual em jantares de família e piqueniques, ao qual desde que a conheço a trato carinhosamente por Tia São. A tia São quando soube estava preocupada com isto tudo, ligou para a minha mãe e lhe disse que não se importava nada de ficar com a minha avó até conseguirmos algo mais definitivo. O facto de ela estar por casa sempre porque a sua mãe (uma joia de velhinha) vive com ela e o facto de saber que ela trabalha em casa como restauradora de móveis fez com que eu desse luz verde a mi mammy para propor a tia São como cuidadora.


No dia 17/5/2014, foram buscar a minha avó de surpresa para ficar na casa da Super-Tia-São. 
Fiquei hoje a saber pela minha boca da minha avó via skype que voltou de novo a tomar café e a jantar como as pessoas adultas, com uma toalha na mesa e loiça de barro.
Fiquei a saber que ela está a dar-se bem com a mãe da tia São, ao qual chama-a carinhosamente de aquela destrambelhada. Segundo a tia São, a avó tem tido algumas melhorias para se deslocar com o andarilho. E que já quase nem precisa de fralda, porque consegue ir ao WC sem problemas. E que gosta de se sentar num sofá na oficina juntamente com a mãe da tia São e passam horas na cavaqueira enquanto a tia São trabalha. Que dorme bem à noite porque já não dorme a sesta à tarde. Mesmo assim está fraquinha, fraquinha, fraquinha. E emagreceu de tal forma que é impossivel ela colocar a dentadura..

A velhice é algo complexo, principalmente porque nós não sabemos se lá chegamos, como lá chegamos e como seremos tratados nela. Sou defensora de que se a minha avó teve tantos filhos, foi para um dia a apoiarem na velhice. E alguns dos filhos tentaram apoiar directamente a 100% até ao momento em que ela se tornou mais dependente. Não é fácil cuidar de um idoso mais dependente, especialmente quando as casas têm escadas ou quando se trabalha das 8 às 20h. Daí a solução de conseguir um local onde ela terá todo o apoio e todo o carinho que ela merece. E tenho a certeza que ela está a ser bem tratada na nova família de acolhimento.

Alima

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dos idosos... neste caso da minha avó

Recentemente, publiquei aqui algo sobre o drama que a minha família tem passado desde Abril, mais precisamente uma queda da minha avó que terminou numa hospitalização, cirurgia a um colo do fémur fracturado.

O facto da minha avó ter ficado ainda mais dependente de terceiros fez com que houvesse uma azáfama para encontrar um local que a pudesse acolher e que a pudesse reabilitar o melhor possível. Infelizmente o distrito de Braga carece (e muito) desses locais. Só tivemos resposta de um lar de idosos privado, que além de ficar muito longe para ir visita-la, tinha uma mensalidade de quase o vencimento de um professor a meio da carreira.  
Desta forma, contactei a D., uma das minhas melhores amigas, Assistente Social em Viana do Castelo e ela a todo o custo arranjou vaga num lar com parceria público-privada (onde pagaria uma mensalidade bem menor) no distrito onde ela trabalha. E ninguém da minha família aceitou tal proposta, alegando a questão da distância e do a minha mãezinha não vai para um lar, coitadinha, colocando a minha avó numa "Família de Acolhimento" que a assistente social do hospital recomendou (sim, são oito irmãos, ganhou a maioria porque queria uma solução rápida e que não mexesse nas suas vidinhas). 

Vou ser sincera: sou a pessoa mais desconfiada no que toca a esse tipo de cuidadoras. E quando a minha mãe me disse que ela, além da minha avó, tomava conta de mais três idosos, pedia uma mensalidade bem bem elevada na minha opinião, fora despesas com fraldas, cremes e medicação, exigiu que a família comprasse cadeira higiénica, cama hospitalar, andarilho, cadeira de rodas e outras coisas que pelos vistos não tinha apesar de ter três idosos em casa, NÃO PASSANDO RECIBO APESAR DE SER RECOMENDADA PELA ASSISTENTE SOCIAL DO HOSPITAL DE BRAGA, eu pensei logo: isto vai dar chatices das gordas...

Na primeira vez que a minha mãe foi visitar, quando falei com ela pelo skype, chorava baba e ranho, dizia e voltava a dizer que as condições em que a ´vó vivia eram miseráveis, logo ela que sempre foi uma senhora bla bla bla. Tentei acalmar a minha mãe, do tipo "ah e tal, mammy, a mãe não está habituada a ver a avó desta forma... logo logo acostuma-se..."
No dia seguinte, uma prima minha, daquelas que dão o corpo ao manifesto tal como eu diz-me: 

"Se tu estivesses aqui, terias dito quentes e boas à mulher... (Sim, Alima, sempre foi mãe do agir em tudo, estás a espera que seja eu a líder da revolta?) acreditas que estive a mexer no armário da cozinha onde ela prepara as refeições para as velhotas (pelos vistos, a mulher tem duas cozinhas em casa, uma das quais é para preparar as refeições para as idosas, não sei, nunca lá estive) e só vi latas de atum? E sabias que a minha mãe queria lhe dar uma cevadita à avó e a fulana disse que naquela casa os velhotes não bebem café nem vinho, nem comem chocolates porque estão proibidos...?"

Imediatamente recordei-me que durante a estadia da avó em minha casa, durante o mês de Dezembro e Janeiro, era matemático dar-lhe um café e um quadrado de chocolate ao almoço e ao jantar assim como meio copo de vinho, ao qual ela me agradecia porque graças ao café sentia-se mais arrebitada
Sabia que ela odiava iogurtes, mas sabia que ela adorava misturar gelatina com iogurtes, mas pelos vistos esta cuidadeira porque cuidadora não o é, segundo a minha prima, enfia o iogurte simples pela goela abaixo da minha avó.

Em videoconferência, juntei mi mammy, e duas tias minhas cada uma nos seus pc's. Todas elas eram contra a estadia da avó naquela casa. Elas queixaram-se de imensas coisas, mas quando eu perguntava de coisas que fui aprendendo como enfermeira, elas pouco sabiam dizer. O problema eram os outros cinco irmãos que para eles a avó estava num paraíso, que a senhora era uma querida e diabo ao quatro...
Então pedi a uma amiga minha, enfermeira de profissão, para ir com a minha mãe e passar-se por neta. E a mulher foi extremamente indelicada com a "neta" só porque ela foi ver se a avó tinha ulceras de pressão e por avaliar o estado da pele e mucosas. Coisas que o faro de qualquer enfermeiro vale mais que de um familiar que nada percebe do assunto. E sim, a avó estava desidratada, emagrecida e tem úlceras no sacro e calcaneo, para não falar de uma brutal dermatite de fralda.. 

E tudo isso expliquei aos meus tios que estavam a favor da permanência da avó naquela casa. Fui menina para enviar um texto para o facebook de alguns deles a explicar que defendia e que todos deveriam defender que deveria haver uma dignidade quando se morre. Ela tem 90 anos, não se pode esperar muito... E toda a dignidade que a minha avó teve foi roubada no momento em que a privaram do meio copo de vinho às refeições, dos seus dois cafés diários cheios de adoçante, da sua tablete de chocolate que ela tanto gostava de ter na gaveta, assim como das suas bolachinhas sortido que ela comia num ápice. É diabética sim, tinha sempre os níveis de glicose altos sim, mas era uma mulher activa, feliz e não uma velhinha na cama que se lamenta. Morra Marta, mas que morra farta, disse uma vez um médico do Centro de Saúde a um velhinho quando eu estava a assistir a uma dessas consultas como estudante.
Tudo isto resume aquela frase que às vezes digo à minha mãe: Pais, sejam bons para os vossos filhos porque são eles que escolhem o lar na velhice...

Os familiares mais cépticos ao meu ponto de vista lá cederam na condição que de que não iriam mover uma palha para conseguir conseguir outro local por falta de tempo. 
E em pouco tempo e com pouco trabalho consegui :)


O problema da cuidadeira é que se esticou demasiado. Exigiu mais medicação que era suposto. Neste caso, medicação para dormir, ao qual um dos genros, que é medico, lhe fez um manguito porque viu que praticamente estava a dopar a minha avó, porque aparentemente ela está muito pouco reactiva (logo ela, que em Janeiro me ajudava nas tarefas domésticas só para se manter ocupada...). 
Depois exigiu que a própria família trouxesse os cremes para a pele, já que o extra que lhe dávamos para fraldas não era suficiente, o que é impossível porque o extra é demasiado bem pago.
Depois começou a exigir material de pensos, betadines, soros, compressas, ao qual eu disse à minha mãe que feridas cirúrgicas (neste caso a ferida da cirurgia ao colo do femur) têm de ser vistas por uma ENFERMEIRA do Centro de Saúde e nunca por uma mulher que diz que tirou o curso técnico de geriatria em poucos meses. 
A cuidadeira tentou infantilizar demasiado a minha avó. Oh minha rica, Oh minha menina, não é forma de se tratar uma senhora. E fiquei a saber que a minha avó sofria com isso...
Além disso, a minha própria avó se queixava de que odiava comer em malgas de plástico e que gostava de comer com uma toalha na mesa, algo que a cuidadeira não lhe facultava. 
Depois, como viu que certos filhos estavam lá todas as tardes (neste caso a minha mãe e um outro tio), estipulou um horário em que não é possível visitas aos Domingos e a permanência máxima da visita é de 1h! E as vítimas desses horários eram os meus  familiares já que pelo menos um dos outros idosos tinha a família a viver no estrangeiro. 
A sua postura do quero, posso e mando fez com que ela perdesse toda a credibilidade possível. 
Outra coisa, teve o azar de se virar para a minha mãe e lhe dizer "Sabe, a sua mãe tem uma demência muito profunda", ao qual a minha mãe lhe respondeu "sabe, a senhora não é médica e nem deve saber ler uma ressonância para diagnosticar o quer que seja...", ao qual a mulher não gostou nada da resposta. A minha avó tem sequelas de um ligeiro AVC e tem 90 anos, daí alguns lapsos de memórias, especialmente de coisas recentes mas nada por aí além. Historinhas de infância e juventude sabe elas todas. Garanto. 

Não. não foi implicância à primeira vista.. Foi mais um acumular de coisas em poucos dias que a minha avó permaneceu.

Regras de ouro para lidar com professores FDP (uma carta a quem ainda não aprendeu nada sobre o assunto)

FDP- Filhos da p*** 

Texto inspirado num certo professor que provavelmente nem bom dia lhe terei de dar mais a partir da próxima semana. Não sou pessoa de ter odiozinhos de  estimação por professores, mas este senhor foi dos poucos que conseguiu despontar em mim esse sentimento. Acha-se o maior sabichão do mundo, o melhor médico do mundo e o melhor professor do mundo, quando é daquele tipo de professores que não é capaz de dar uma aula sem a internet ligada, é o abre site-fecha site, é o wikipédia, é o youtube... Ah e tal, os médicos das gerações mais recentes ( o homem tem cinquenta-sessenta anos) are a piece of shit. Não sabem  nada de nada., diz ele. Estúpido. 
O homem perde-se na matéria. Começa em Viana e de repente está em Faro e sem saber como passa por Madrid, Sevilha e Lisboa. Não é objectivo em nada. Chegamos a passar uma aula a falar sobre espirómetros quando o tema era pancreatites. 
O homem teve várias atitudes racistas contra colegas meus africanos e árabes.  As suas vítimas favoritas são as mocinhas de lenço que, sejamos sinceros, fazem muito turismo pela faculdade. 

E esse é o grande problema dele: não dá matéria, tem-se testes e quem chumba a tais testes é obrigado a pagar cerca de 50 euros para um novo teste, algo único naquele departamento E NAQUELE PROFESSOR, já que mais nenhum exige dinheiro para repetir o teste. 


No entanto, assim que soube que este fulano seria meu professor, resolvi relembrar os conselhos


1. A minha mãe sempre me disse e a sua mãe já lhe dizia a ela a frase de ouro "Não se caçam moscas com Vinagre". Logo a minha postura com ele é de o mais formal possível.

2. Não discutir com ele, mesmo sabendo que temos razão, especialmente em frente à turma. Neste caso, respeitar a máxima "O professor tem sempre razão, mesmo que seja uma besta".

3. Nunca lhe altear de voz. Não vale a pena entrar em confronto com idiotas. Já vi muita gente a defronta-lo e a chumbar nos ditos testes que se chumbar, paga-se, por um ponto. 

4. Se for para conversar com ele, ir directamente ao departamento depois da hora do almoço. (E levar o telemóvel com muita bateria para jogar Candy Crush porque ele vai fazer-nos esperar mais de 1h, mesmo ele não estando a fazer nada no gabinete dele).

5. Ele lecciona cadeiras opcionais? Inscreve-se nelas. E como são sempre poucos alunos, ele esta mais relaxado, prepara melhor a aula (cadeira opcional, há que cativar alunos), os alunos ficam bem dispostos, ele fica bem disposto, ele escorrega e diz a matéria que vai sair no teste da cadeira obrigatória que lecciona. 

6. Ser educada e aborda-lo de uma forma sorridente. Mesmo quando por dentro estamos a gritar "tu aí, oh besta, nem sabes o quão ansiosa para deixar de te pôr a vista em cima".

7. Mentir-lhe um bocadinho. Para esta cadeira fiz um trabalho maravilhoso, do qual me orgulho muito, ao qual ele teve uma capacidade hercúlea de mo elogiar. E quando ele me perguntou se estava disposta a fazer a tese no departamento dele, disse que infelizmente eu não podia, porque o departamento de Nefrologia me tinha convidado antes. Mentirinha minha. Eu só não queria ter ele como tutor. E tive que pedir de joelhos (ok, não foi preciso tanto...)  para que o departamento de Nefrologia me aceitasse. 

Estas e outras regras são importantes para ter em conta. Às vezes penso que se esta criatura existe é para servir de exemplo daquilo que um professor e um médico nunca deve ser. Digo eu.


Acho que ele deveria colar isto no espelho da casa-de-banho para ler e reler quando lava os dentes. Digo eu.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Histórias de família na família- O exorcismo I

Segundo histórias da minha avó paterna, a minha bisavó, mãe da minha avó paterna, era um diabo vestido de mulher.
Sempre fria e cruel, sempre muito megera, porém agarrada a uma religiosidade profunda típica das gentes da serra, era temida pelos seus devido aos seus acessos de mau humor.
Um dia, alguém disse ao marido dela, meu bisavô, que possivelmente aqueles acessos de fúria, de malvadez, de desmaios e calores seriam frutos de diabo no corpo. Sim, só podia ser diabo porque ela não tocava numa gota de álcool.

Então, o meu bisavô, muito empenhado em resolver o problema da mulher, pediu ao genro (meu avô) para ver se arranjavam um padre para lhe expulsar o diabo do corpo.

Conseguiram um padre, deixaram que a mulher adormecesse e pediram ao padre para exercer o ritual.
Acontece que a mulher, que ainda não dormia um sono profundo, acorda, observa a cruz em frente a ela, um cheiro a incenso que Deus me livre, nota-se rodeada pelo padre, marido e genro e dá-lhe para gritar e expulsar os três homens do quarto para fora.

Seja como for, ela até morrer nunca mais dirigiu a palavra ao meu avô nem ao marido. Pegou nas suas poucas coisas e foi viver para a casa de um dos filhos. Foi uma espécie de separação sem divorcio. O marido morreu primeiro. Ela está enterrada por cima dele. Na campa deles que visito sempre que visito o meus avós, observa-se a foto de um homem de gravata e bigodinho, extremamente parecido ao meu primo A. ...e uma foto dela, vestida de negro, de lenço negro na cabeça e com ar de poucos amigos. Ficaram sem se falar por mais de 30 anos...

... e cá para mim os desmaios, calores e acessos de fúria era uma das coisas mais naturais da vida de uma mulher: menopausa. Just saying...


terça-feira, 20 de maio de 2014

Dos automóveis da minha infância

Durante alguns anos, o único carro que tínhamos em casa era o velhinho Renault 12 de 1974 que só o meu pai conduzia.
A minha mãe, apesar de ter carta de condução desde os seus 20 anos, tinha-se acomodado às boleias e autocarros que tinha de apanhar para ir para o trabalho.

Fartos de piadas e humilhações por parte da família por causa do velho carro da família, resolveram que estava na altura de investir num novo carro: um Seat Ibiza preto.

Era para mim o melhor carro do mundo. Tinha cinto de segurança nos bancos de trás, algo que o velhinho Renault não tinha. Tinha um rádio a cassetes com um som fantástico. Tinha uns bolsos no banco da frente, óptimos para eu guardar as minhas bonecas.

Uma semana do meu pai comprar o carro, resolveu que tinha de ir mostrar o carro aos meus avós paternos à aldeia. Como a minha irmã, na altura com três anos, estava doente e como a viagem de 2h de distância é ruim para alguém com vômitos e febre, ficou resolvido que o meu pai ia, eu, mana e mãe ficávamos em casa.

E lá foi o meu pai todo orgulhoso até à aldeia. Chegando lá, pegou no meu avô e foram à vila para um tasco conhecido pelo melhor bucho cozido. Terminada a refeição, o meu pai ao entrar no carro reparou que durante aquela horinha que passou no tasco, tinham-lhe roubado as jantes do carro.

No dia seguinte, o meu pai e o meu avô foram ao tasco da aldeia vizinha para beber o bagacinho com mel e para exibir o carro bonito que o filho do velho do C. tinha comprado.
Estacionaram o carro à porta do tasco e ficaram em amena cavaqueira dentro do tasco. A amena cavaqueira terminou subitamente quando ouviram um estrondo de chapa e de vidros partidos ao som de uma vaca a mugir e de um pastor a gritar com ela enquanto segurava uma vara.

O cenário: Umas galinhas se soltaram de um quintal, foram para o meio da estrada, o pastor vinha com as vaquinhas do pasto, uma das vacas se assustou com uma galinha e saltou precisamente para cima do capôt, vidros e tejadilho do seat ibiza recém comprado.

Numa era em que nem todos tinham telemóveis, a minha mãe não foi devidamente preparada para ver o espectáculo em que viu o carro assim que o meu pai o estacionou à porta do nosso prédio para descarregar a mala e as hortaliças e afins que a minha avó enviava como sempre... basicamente lhe deu um fanico.

E foi assim que uma semana depois de termos o carro, voltamos a ficar sem ele por umas semanas para o repararem...


sábado, 17 de maio de 2014

Das psiquiatrices

Jovem na casa dos 30, admitido no serviço de psiquiatria por causa de um problema típico nesta zona denominado Alcoolismo, vulgo too much vodka .

Um grupo de estudantes, sentou-se com ele numa sala de reuniões. Ele, cheio de tatuagens com estrelas (que na minha opinião são mais adequadas para mulheres), tinha umas características feições no rosto que dava a entender que tinha problemas com alcoolismo. O seu discurso era arrastado. As suas mãos tremiam.

O grupo, composto por portugueses, árabes, indianos, israelitas, polacos e uma alemã, fizeram-lhe várias perguntas ao qual o homem colaborou em respondê-las. 
A alemã era a mais activa a fazer perguntas. Aliás, poucos gostam dela por causa da sua postura altiva e de sabichona. Algumas das perguntas eu concordava, outras eu achava um tanto descabidas.
Perguntou ela, além do álcool, que outros vícios o paciente tinha. Ele confessou que fumava cerca de um maço por dia.
Ela perguntou-lhe que vício ele achava que tinha mais urgência em deixar, ao qual ele respondeu sem hesitações o álcool, porque era o vício que estava a estragar a sua vida.
E foi então que ela disse a coisa mais ridícula na minha opinião:

Já que quer deixar o vício do álcool, porque não deixa ao mesmo tempo o do tabaco?

Houve sussurro na sala. Em português sussurramos e que tal fechares a matraca?
O paciente responde-lhe que para deixar o vício do álcool já vai ser uma odisseia, deixar também o tabaco vai ser uma catástrofe.

A alemã não se convenceu. 
Mas é melhor para si combater dois vícios numa só batalha. Olhe que o tabaco faz muito mal...

Após o paciente se ter ido embora, surgiu a discussão. Fui das primeiras pessoas a intervir. Expliquei que qualquer vício é difícil de combater. Expliquei que quando tento fazer dieta, tenho de abdicar do meu vício de comer doces e por muita fruta e comida saudável que meta à boca, sinto sempre necessidade de algo doce. E é então que tento combater essa necessidade, fumando (passo semanas sem fumar, mas durante os exames ou em situações de stress, acalma-me imenso).Ou então, metendo açúcar no café, algo que nunca faço.  E com essa minha experiência dei a minha conclusão que deixar o álcool e o tabaco ao mesmo tempo é muito mais complicado. Maior parte dos meus colegas concordou comigo. Todos eles têm experiências semelhantes à minha: ou é o tabaco, ou as unhas, ou a erva (que sejamos sinceros, quase toda  a gente fuma).

Mas mesmo assim a alemã se demonstrou irredutível. Como sempre.
A psiquiatra concordou com a alemã, apesar de também concordar com a maioria que estava contra.
Mas o ambiente se tornou mais relaxado e mais tenso ao mesmo tempo quando o israelita diz:

- Alemães... sempre muito eficientes e práticos em tudo... Dra. (virando-se para a psiquiatra), e que tal uma visitinha de estudo a Auschwitz para mostrar a todos a eficácia alemã?

terça-feira, 13 de maio de 2014

Do Mês de Maria

Decorria o ano 1994 e estava a poucos dias de fazer a Primeira Comunhão.
O padre, as catequistas bem diziam que nós tínhamos que pensar que estávamos a fazer aquilo não por mera vaidade mas sim porque "Iríamos receber Jesus no Coração"... mas eu catraia de sete anos não queria saber nada disso...ou melhor não entendia nada sobre isso... o que queria era que o meu vestido fosse o mais bonito possível e que a festinha que os meus pais iriam fazer decorresse da melhor forma possível...

E para que recebêssemos Jesus no Coração da melhor forma, o Padre da freguesia sugeriu obrigou a que todas as criancinhas fossem de 2ª a 6ª feira depois do jantar para a sede da paróquia para ouvir as catequistas e para ensaiar. E então eu e mais uns quantos do bairro lá íamos...

Acontece que numa das vezes a freira/catequista sugeriu/obrigou que todas as criancinhas a acompanhassem ao terço. E eu na minha ingenuidade de sete anos a acompanhei sem pensar (ou se calhar pensei mas como a freira sugeriu/obrigou e já que estava a fazer uma graça a Nossa Senhora...) que a minha mãe estivesse apavorada porque eu não chegava a casa a horas.

Terminado o terço, saí da capela acompanhada pela minha vizinha e alguns coleguitas e dirigimos-nos a casa. Sei que já estava escuro. E pelo caminho encontrei a minha mãe, toda esbaforida que me deu a maior tareia de sempre (bem, se calhar não foi assim tão grande, mas a humilhação de ter levado uma tareia da minha mãe em frente aos meus amigos valeu bem por isso). Eu bem tentei explicar à minha mãe que a freira sugeriu/obrigou, a minha mãe deitava fogo pelos olhos e boca, mas sabia que não era de mentir. E facto foi comprovado pelos meus coleguinhas que estavam comigo. Mas mesmo assim a minha mãe não me pediu desculpa. Deveria ter dito à freira que não queria ir e pronto.

À noite, já na cama, pensei no porque é que a Nossa Senhora, essa mulher a quem fui rezar o terço não fez nada para me salvar da tareia que tinha levado pela minha mãe. Reflecti de que sabia aquelas ladainhas todas que a catequista e o padre me obrigaram a saber "para fazer uma boa primeira comunhão", logo  não era uma má menina. Reflecti também de que obedeci sem resmungar a uma sugestão/ordem de uma freira para rezar o Terço... e mesmo assim levei porrada??? Aonde estava a protecção de Maria contra outra Maria?

Foi a poucas semanas da minha primeira Comunhão, eu, com sete anos, que comecei realmente a duvidar a existência de DEUS... Não foi a fome nem as guerras que se passavam no Mundo, nem a lepra que afectavam meninos em África... foi mesmo a tareia que levei por causa de uma freira e do Terço.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

12 de Maio- Dia do Enfermeiro

Trabalhei três anos como enfermeira: dois anos em Espanha, um ano em Portugal. 
Entrei em Enfermagem não por gosto nem vocação mas porque diziam-me na altura que era um curso com muita saída profissional. Provavelmente o facto de ter feito o curso um bocadinho contrariada fez com que o meu desempenho não fosse dos mais exemplares: apesar de tirar boas notas, raramente punha os pés nas aulas. Algo que detestei no meu curso foi a existência de trabalhos de grupo com apresentação e entrega de trabalhos em que o que mais me moía a cabeça era a formatação e não o trabalho em si.

Fui muito abaixo no meu primeiro estágio no primeiro ano porque nunca tinha mudado uma fralda em toda a minha vida nem nunca tinha dado um banho em alguém. E a enfermeira responsável berrou comigo como se eu tivesse a obrigação de saber desenrascar-me bem desde o primeiro dia. 
"Se achas que não dás para isto, não percas o teu tempo neste estágio", disse-me no meu primeiro dia de estágio.
E eu continuei aquele estágio. Sem arrependimentos. Acabei o curso. Emigrei, regressei a Portugal onde trabalhei e onde fiquei com o coração nas mãos quando me disseram que o meu contrato de meio ano estava para acabar. Eu perguntei se era para continuar. Hum... não sei, depois o chefe lhe dirá. Foi quando comecei a pensar: Será isto que quero? Andar de meio em meio ano neurótica, a trabalhar muito e a receber pouco até chegar a idade da reforma? Se é para isso, que seja algo que se calhar goste...

Hoje, 12 de Maio, escrevo este post com uma conclusão: a culpa da Enfermagem estar caótica em Portugal está nos próprios Enfermeiros. São os Enfermeiros mais velhos que deveriam integrar os mais novos e os estudantes de Enfermagem e o que se vê muitas vezes? Hostilidade, incompreensão, a mania de que somos máquinas, que não temos sentimentos.  
Já vivi na pele quando trabalhei num hospital português em que pedi um conselho a um enfermeiro mais velho sobre algo, ele respondeu-me "se fosse a ti faria isto...", eu ingénua assim o fiz e passado uns dias recebo uma chamada de atenção da chefe a dizer que não tinha nada que fazer aquilo e oiço o tal enfermeiro mais velho a dizer que se quisesse fazer mesmo aquilo que tivesse estudado mais e que fosse médica. 

Os enfermeiros vão amadurecendo na carreira e tornam-se cada vez mais mesquinhos, mais invejosos. Surgiu uma nova onda de que todos acham que podem ser chefes. Sinto que detestam quando um colega entra numa pós graduação ou num mestrado. Olha ela... agora também quer virar especialista...Para quê é que ela vai-se meter nisto? E os turnos dela, quem vai cobrir?, perguntam. 

Sinto uma enorme pena da minha geração que se formou há menos de dez anos. Sinto uma enorme pena quando sei que fulana acabou de entrar em Enfermagem.
Dos poucos amigos que ainda conservo do tempo do curso (não conservei nenhuma amizade com enfermeiros dos serviço onde trabalhei em Portugal como enfermeira), poucos são os que estão sólidos nos locais onde trabalham. Terminaram o curso em 2007-2008 e muitos ainda estão a recibos verdes ou com contratos em que de x em x meses estão com o coração nas mãos porque não sabem se continuam ou não. Muitos deles já passaram os trinta e não se casaram ou não têm filhos porque não há dinheiro nem boas condições para formarem uma família. Ainda acreditam que num futuro a coisa irá ficar melhor. 
Depois há aqueles que emigraram e ainda não voltaram. Alguns já têm filhos espanhóis, franceses ou ingleses. Já têm dificuldades em escrever em português ou de encontrar as palavras adequadas na língua materna. Gostariam de trabalhar em Portugal mas consideram uma utopia. 
Há aqueles que como eu se cansaram de serem escravos e mudaram de profissão ou meteram-se noutro curso. Passaram de enfermeiros a estudantes de medicina ou a pasteleiros ou relações públicas ou a mediadores de seguros ou proprietários de lojas de roupa ou a empregados fabris.
Recordo-me bem no dia em que fui entregar a minha cédula à Ordem dos Enfermeiros para não voltar a pagar as cotas, uma recém licenciada estava  à minha frente para se inscrever. E achei um piadão quando ela pediu para se inscrever na Ordem, dando saltinhos e risinhos na secretaria. E enquanto ela preenchia o formulário, fui eu atendida, e numa de gozo dei saltinhos e risinhos quando disse que queria cancelar a minha inscrição, para espanto da rapariga e da mulher que estava na secretaria. 

Disse Nightingale, considerada a fundadora da Enfermagem como profissão, que a Enfermagem é uma arte que requer devoção exclusiva. Estas palavras já não têm grande fundamento, pois a maior arte do enfermeiro português do nosso tempo é sobreviver a um turno sem uma dor de pernas, de braços, de costas, sem disses que disses. Os serviços hospitalares tornaram-se numa selva urbana, numa lei de Murphy em que errar é humano, mas perdoar não é uma política da empresa.

Espero que um dia as coisas melhorem... Espero que um dia a sociedade valorize mais a Enfermagem e que pense nela não como os gajos das picas que não fazem um caraças no centros de Saúde ou ai e tal tenho uma tia que foi enfermeira com o antigo 2º ano e muito menos como os médicos frustrados. Não vislumbro grandes perspectivas apesar de sempre acreditar no impossível.

Feliz Dia dos Enfermeiros...

sábado, 10 de maio de 2014

História da Família na Família- Factos Arrepiantes III

Até à minha adolescência lidei muito pouco com a morte. No entanto, a partir do fatídico ano de 2004, a palavra morte entrava constantemente nos meus pensamentos.
Quando faleceu o meu pai, durante umas boas semanas sentia um cheiro enjoativo a velas de baunilha e a flores, um cheiro que emanava na capela mortuária durante o velório. É um cheiro que não consigo esquecer porque volta e meia sinto-o. Gosto de pensar que é uma maneira que o Além tem para comunicar-se connosco. No entanto sinto que cada vez menos sinto esse cheiro...


Mas estes dias, numa aula de Patologia Anatómica, foi feita a autópsia a um individuo que morreu exactamente nas mesmas circunstâncias que o meu pai. O cheiro a cancro deveria ser nauseabundo, assim como todos os fluidos frutos da decomposição autolítica. Todos usavamos a máscara o qual colocamos um lenço com aroma a mentol para disfarçar o odor... E eu senti de novo o cheiro enjoativo a velas de baunilha e flores, mantive a máscara mas tive que retirar o lenço de mentol. Um cheiro que detestava por ser enjoativo mas que me fazia tanto lembrar aquelas horas que passei na capela mortuária a lamentar o tempo que deveria ter sido mais aproveitado com o meu pai e o bom tempo que passamos juntos e terminou depressa. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Diz o ditado

"Mulher beata, pobre que muito reza, e homem muito cortês, é fugir de todos os três."

Dedicado a duas pessoas que sabem que estão geograficamente longe das vítimas das suas invejas e artimanhas e pensam que as mesmas vítimas andam a dormir e que desconhecem todas as maldades que lhes andam a ser feitas (Vulgo, pensam que as suas vítimas andam a comer gelados com a testa). 

Um conselho a essas duas pessoas em forma de ditado:


"Não desejes mal ao teu vizinho, porque o teu mal vem a caminho"



E já agora, fica aqui uma frase que o meu avô muitas vezes dizia (e que vocês muitas vezes ouviram da boca dele...)

"Antes invejado do que lastimado"

Portanto, deixem-me lhes dar um conselho, sra beata e senhor muito cortês. Resignem-se à vossa insignificância, tratem de parar com mexericos e ACIMA DE TUDO de se intrometerem nos negócios das suas vítimas. Vocês os dois andam a dar mais chatices do que vocês realmente valem. Isto de meterem o focinho onde não são chamados, de espalharem boatos de que há fantasmas na casa das vossas vítimas e que as vossas vítimas têm mau olhado, para posteriormente fazerem negócios com os nossos interessados, já me está a deixar seriamente irritada. Seriamente mesmo.  Fatalidades todas as famílias tem. E se vamos a olhar em detalhe, ainda somos todos parentes afastados. 
E olhem que a nova geração está bem próspera, sabiam? É a única geração de todas as famílias da aldeia em que todos os elementos têm um ou mais canudos. Não andam felizmente a limpar retretes e a assentar tijolos em França como os vossos filhos e netos.  E é muito feio andarem com estes mexericos, sabiam? Feio, feio, feio. 

"O pinheiro mais alto é aquele que o vento agita mais vezes"

De qualquer forma, eu e a minha irmã estamos a planear fazer uma grande festa de final de curso para ela em Julho próximo (ah sim, mais uma sra. Dra., neta do pobre bêbedo da aldeia) na casa que por VOSSA culpa não conseguimos arrendar. Vai haver muito sexo (ou talvez não), álcool, drogas, rock n roll e cerca de vinte participantes que esperamos que estejam com fairplay de fazer muito barulho, de vos arrasar durante a tarde, noite e manhã. Desta vez nem nos vamos dar ao luxo de vos pedir autorização que sempre fazíamos mais por uma questão de educação e cortesia. Porque até somos pessoas civilizadas. Mas não posso responder pelas cerca de vinte pessoas. Aparecemos lá, com a malta, cerramos os portões e pronto.

Posto isto, os primeiros interessados que aparecerem para arrendar a casa, sejam ciganos ou drogados (que vocês tanto nos imploraram para não enfiar na aldeia para vossa harmonia) serão os felizes contemplados de apreciar a Natureza e a péssima vizinhança que são vocês! E que Deus me perdoe, mas desde que paguem a  renda direitinha, que vos façam a vida num inferno.

Sra Beata e Senhor muito cortês: ide os dois para o caralho!

 Alima, a neta do bêbedo da aldeia. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Da passagem do tempo...

Recordei-me agora de uma página de um livro de História do meu pai do tempo do liceu se não estou em erro.
Trata-se de um livro do inicio da década de 70 em que nessa página aparece quatro imagens: o trisavô, o bisavô, o avô, o pai e o estudante.

Tinha escrito algo como:
O teu trisavô assistiu à guerra civil em Portugal;
O teu bisavô assistiu à revolução industrial.
O teu avô assistiu à queda da Monarquia e à Primeira Guerra Mundial;
O teu pai assistiu à Segunda Guerra Mundial.
Tu assististe ao lançamento de foguetões e viste o Homem a chegar à Lua.

E os teus filhos o que assistirão?

Bem, acho que na qualidade de filha do estudante já posso responder qualquer coisa antes de eu própria ter trinta anos.

Assisti aos primeiros telemóveis lançados no mercado, os telemóveis deixaram de ser apenas algo para fazer chamadas e passaram a servir para mandar sms, ouvir música, ver filmes, fotografar ou filmar, aceder à internet, toda uma panóplia de gadgets e funções que actualmente são essenciais. Para não falar que os vulgares mapas de viagem em papel foram substituídos por GPS ou aplicações de telemóvel.
E a televisão deixou de ser uma raridade em casa. Mais: há em quase todas as cozinhas, salas e em muitos quartos de portugueses. Anexada a ela, havia o leitor de VHS, dvd ou bluray. Ultimamente uma simples pendrive nas costas da televisão serve como instrumento para visualização de filmes.
Assisti a máquinas que eram pesadas, caras, obsoletas e mais exclusiva a entidades que a uso doméstico, invadirem as nossas casas, as nossas bibliotecas, faculdades, os nossos comboios. Essa máquina chama-se computador.
Assisti à dinamização da informação e a actualização ao minuto graças à Internet. É graças a ela que posso ir onde físicamente não posso ou ainda não fui. Graças a ela posso comprar o livro X que está nos Estados Unidos ou partilhar experiências como todo o mundo. E graças às redes sociais consigo manter contacto diário com os meus amigos do jardim de infância, com aquela prima que foi pro Brasil e nunca mais a vi, onde tenho noticias actualizadas ao segundo.
Assisti à robotização das cozinhas e da casa. Temos microondas, máquinas de cafés que não exigem grandes cuidados de limpeza, robots de cozinha, máquinas de lavar tudo e mais alguma coisa.
Assisti à geração do canudo. Porque antes contava-se pelos dedos as pessoas que eram doutoras numa família,  agora conta-se pelos dedos as pessoas que não o são.
Assisti pela televisão a queda de duas torres nos Estados Unidos em 2001. E desde então o mundo nunca mais foi o mesmo.
Assisti, vibrei e chorei com cada quase campeões da Europa e do Mundo por parte da nossa Selecção Nacional de Futebol.

Sim, já assistimos a muito e a muito mais iremos assistir. E apesar de uma crise política económica e social nunca vivemos tão bem como esta geração :)

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Vícios

Há dois Verões atrás a minha irmã ficou viciada em Game of Thrones.
Como ela já ia avançada nos episódios, preferi não assistir com ela sob o risco de não perceber nada porque tem continuidade. Apesar de ela não ser grande fã de livros, sei que devorou os três primeiros volumes em poucos dias.

Nesta Páscoa comecei a ver a primeira temporada. E a segunda. E tenho feito tudo por tudo para deixar a terceira e a quarta temporada para o Verão. Mas está difícil. Muito difícil.


Planos de leitura Verão 2014: Game of Thrones, os livros.

sábado, 3 de maio de 2014

ROAD TRIP- História mirabolante de quatro portugueses rumo a Ucrânia- O rescaldo

Em continuação a este post, quatro tugas meteram-se no carro rumo à Ucrânia e não à Roménia. O preconceitouoso ficou por casa, pensando que nós não nos iríamos meter a caminho e assim que soube que nos metemos a caminho seguramente fez figas que tudo corresse mal.

10h:  Vai-se buscar o carro à rent a car. Roda bate no passeio numa manobra que por momentos pensamos que o pneu tinha ido à vida.
10h03: Pusemos-nos a caminho. Destino: Ucrânia, cidade de U a 6km da fronteira.
11h30: Fronteira com a Ucrânia. Reza-se uma avé Maria para que não tenhamos chatices em entrar no país.

12h: Guarda da fronteira revista passaportes e documentos do carro: VOCÊS NÃO PODEM ENTRAR NA UCRÂNIA COM CARRO ALUGADO!!!. Diz-nos isto num italiano fanhoso, alheio ao facto de sermos portugueses e não italianos
Perguntamos como poderemos passar a fronteira.
"A única forma de passar a pé fica a 30km daqui... mas vocês podem sempre pedir boleia para passarem o lado ucraniano".
Após estacionarmos o carro, quatro tugas batem no vidro dos carros que estão na fila para entrar no país para pedir boleia.  Um senhor num Lada bem soviético aceita dar-nos boleia até à fronteira.


13h atravessada a fronteira do nosso país, chega-se à fronteira ucraniana. Voltam a confirmar os nossos passaportes. Guardas armados até aos dentes com armas em ferro com ar de serem bem pesadas.
Guarda Ucraniano lê o meu nome alto, sussurra com os colegas e faz uma cara de poucos amigos, e pergunta-me: RUSKI?
Digo que não sou, apesar do meu nome ser bem russo (como não pensei nisso antes?). Pergunta-nos o que queremos fazer na Ucrânia. Estive quase para responder PUTAS E VINHO VERDE ou então a verdade TABACO A 1 EURO E VODCA BARATA, mas acabei eu por responder PASSEAR, VOLTAREMOS AO FINAL DA TARDE.

13h30 O sujeito do Lada deixa-nos na praça de taxi. O taxista pede-nos cerca de 50 Grívnias (cerca de três euros) para nos levar ao centro da cidade. E lá fomos.

13h40 Chegados ao centro. Mostro o mercado municipal. Sou a guia dos meus colegas porque já conheço bem a cidade. No mercado de U., vendem de tudo: desde fruta, pão, carne, peixe, vegetais. Há cães enormes a passear no meio das pessoas. A carne está sem qualquer tipo de protecção, ficando às moscas em cima de uma mesa suja.

14h20 Entramos num restaurante com um aspecto rústico com ambiente muito acolhedor. A empregada de mesa fala um inglês mais que perfeito e aceitamos almoçar o que ela nos sugeriu como prato típico. Preço total por pessoa: 40 Grívnias (2.46 cêntimos)

15h-18h30 Fotos, entradas nas igrejas ortodoxas, sinagoga, chocolate quente, tabaco barato, matrioskas e coisas que tais

19h Entrada da fronteira. Pedimos educadamente ao polícia ucraniano que nos ajudasse a conseguir boleia
para fronteira, ao qual ele recusa. Quatro tugas aproximavam-se dos carros que tinham que parar para entrar na fronteira. Os carros paravam, nós explicávamos o que pretendíamos e todos eles davam a entender que iam só dar a volta no espaço entre a Ucrânia e a nossa fronteira e que iriam voltar de novo para a Ucrânia.

19h30 depois de muito bufarmos, finalmente um ucraniano deu-nos boleia. Sujeito extremamente simpático e fluente no inglês. Explicou-nos que muitos ucranianos compravam os carros do outro lado da fronteira por serem mais baratos e que de cinco em cinco dias tinham de dar a volta na fronteira para não terem problemas com a polícia e não precisarem de legalizar os carros. Durante o tempo que estivemos para atravessar falamos de Portugal e da nossa vida lá, falamos sobre estâncias de ski.

20h Finalmente no lado do nosso país. Quisemos recompensar o ucraniano ao qual ele recusou. Pediu-nos que desejássemos apenas Boa Sorte. Posto isso voltou de novo para cruzar a fronteira. Ainda há boa gente neste mundo.

21h30 Chegando a nossa cidade. Uma pizza e uma Pilsen para encher o estômago e uma boa aventura para contar...

Apesar deste conflito todo, a Ucrânia continua linda como sempre. Espero bem lá voltar em breve e espero bem que as coisas estejam mais calmas.


Até breve, Ucrânia!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O posto do leite

Estes dias, a minha mãe contou-me que perguntou a um grupo de alunos de onde vinha o leite, ao qual um aluno respondeu "do pacote".

Eu com a idade desse aluno sabia perfeitamente que o leite que consumimos vinha da vaca. Mais até: eu com a idade dele já tinha ordenhado uma.

Recordo-me que os meus avós paternos terem sempre duas vacas. Normalmente chamavam-se Morena, Flora ou Gabriela (em homenagem à Gabriela do Jorge Amado) . Era um prazer para mim, quando estava de férias, acompanhar a minha avó a pastar as vaquitas. E era um prazer maior, quando ela me sentava sob uma trave, no curral, e debaixo de uma luz ténue, ao final da tarde, ela ordenhava as vacas. A avó falava com elas em tom mansinho e elas lá consentiam. Depois de ordenhar para um balde em folha, ela colocava o leite numa leiteira de tamanho generoso. Mas antes disso, dava-me um copo de leite (quentinho ainda, cheio de gordura, o melhor leite que provei... qual pasteurização, qual quê...). Ás vezes reclamava com as natas que aquilo formava, a avó com um garfo retirava-as e dizia-me que aquilo é que dava valor ao leite.  Soube anos mais tarde, que muitas pessoas quando viam as vacas urinar, punham o balde debaixo da vaquita para misturar a urina com o leite para render mais "leite gordo".

Depois, metia um pano na cabeça e transportava a leiteira à cabeça. Encontrava as vizinhas à frente do tasco e partiam todas a pé para o  posto do leite que ficava na entrada da aldeia, a cerca de 1km das casas.
Durante o caminho conversavam, falavam de quem tinha morrido, como ia o milho, dos malditos javalis que focinhavam as culturas todas e a que horas iriam regar (sim, porque no Verão, as regas são feitas a meio da noite).
Chegadas ao posto do leite, a encarregada abria o posto e lá despejavam o leite para um contentor industrial.
                                                     Um dos postos do leite da zona já extinto

Grande parte daquelas mulheres já morreu. E mais ou menos desde que a minha avó faleceu em 1997 e com a reforma agrária, o posto de leite foi extinto. As poucas famílias que ainda têm vacas actualmente, consomem o leite ou fazem queijos, mas nunca para venda. Ainda conservam as vacas porque existem subsídios e para evitar o aparecimento de mato nas bouças... Mas sim, indubitavelmente graças ao desaparecimento das gentes da Serra, as vacas daquela região poderão entrar em extinção...