sexta-feira, 18 de abril de 2014

Páscoa

Já há cerca de nove anos que não celebro a Páscoa.
Apesar de ter nascido em Braga, uma das cidades que mais vive esta época, pouco me recordo do que lá se passa.
Até uma certa idade passava a Páscoa na aldeia dos meus avós paternos, numa aldeia nas Beiras, depois os meus avós desapareceram e mesmo assim mantivemos a tradição de abrir a casa na aldeia.
Tanto na minha casa na cidade como a da aldeia, nessa altura levava uma limpeza geral de fio a pavio. Depois de chão e mobília encerada, ambas as casas mantinham aquele aroma agradável da cera por alguns dias.
Recordo-me de aguardar ansiosamente pelo sino do Compasso Pascal. Todos os anos era o Padre J., já conhecido do meu pai desde os tempos de mocidade. Como tínhamos sempre uma mesa bem composta e como éramos da primeira casa da aldeia, era ali que o Padre e a comitiva começavam com os seu lanchinho de cinco minutos e dois dedos de conversa.  Beijava-se a cruz, benzia-se a casa, boas festas, boas festas aleluia, aleluia.
Nesse dia a vitela assada ou o cabritinho fazia parte do banquete.

Na semana que antecede ao Domingo de Páscoa era daquelas semanas que mais odiava passar em Braga. Da Quaresma à Pascoa, Braga, boa cidade católica, está literalmente coberta de véus negros e roxos. Sente-se  uma tristeza, porque nada parece alegre a não ser as flores que vão abrindo nos jardins. Uma semana com procissões pela noite, figurantes com cruzes às costas, cânticos tristes, farricocos e tristeza, angustia e muita dor.
Do que fui aprendendo sobre religiões, acho que a religião cristã é a religião mais triste que conheço, não fosse a principal figura um Homem crucificado com semblante de dor.
Semana Santa sempre foi sinal de turistas espanhóis que visitam Braga por essa altura, turistas esses que falam ruidosamente e ocupam as esplanadas do Viana, da Brasileira ou até do Bom Jesus.

Nessa Semana durante muitos anos significava algo que eu realmente odiava: ida ao Confesso. Ninguém gostava desse ritual em casa, com a excepção do meu pai. Ele, apesar de ser um homem religioso, não era de idas à missa (gramou muitas no seminário, dizia ele), mas achava que confessar uma vez por ano era algo obrigatório lá em casa. E ele obrigava todos os anos que toda a família fosse confessar. Nós amuávamos e  bem lhe dizíamos que seria a última vez que nos metíamos numa fila para dizer qualquer coisa ao confessor, mas ele ameaçava-nos puxar as orelhas.
E depois contava todos os anos a história do amigo dele que se foi confessar para se casar pela igreja e que o padre lhe tinha perguntado à quanto tempo não se confessava ao que ele respondeu treze anos. O padre disse-lhe que três anos era muito tempo, e que o amigo do meu pai não se dignou de corrigir que eram treze e não três.
Escusado será dizer que desde que ele faleceu nunca mais entrei num confessionário...

Depois o meu pai faleceu e nunca mais abrimos a casa nem ao Compasso Pascal em Braga nem ao da Aldeia. Nós próprias ausentamos-nos do bairro por umas horitas para ir até ao centro comercial para que não pensem que possamos estar em casa e não queiramos abrir a porta. Mais um ritual que perdemos... mais um ritual...

2 impressões:

S* disse...

Porque não tentar recuperar a tradição? Em nome da família. <3

Alima das Cartas disse...

Não faria tal coisa por vários motivos:
1- Estudo no estrangeiro e não faço intenções de ir a Portugal nesta altura.
2. Não gosto da Páscoa por razões que dei a entender no texto.
3. Tornei-me revoltada contra a religião.

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