segunda-feira, 14 de abril de 2014

O ciganês

Aula de Medicina Interna no serviço de Medicina Interna do hospital velho.

O professor explica-nos os tipos de hipertensão que existem e como diagnostica-los consoante exames bioquímicos.
Leva-nos à enfermaria onde estava uma cigana, com os seus 40 e poucos anos, muito bem conservada: tinha longos cabelos pretos relativamente bem tratados e a pele, apesar de escura estava também bem tratada. No entanto já lhe faltavam alguns dentes. E típico dos ciganos daqui, cheirava terrivelmente mal.
O professor teve que atender uma chamada telefónica e ausentou-se da enfermaria, deixando os cinco alunos, todos eles portugueses, a fazer o exame físico da senhora. Na cama ao lado da paciente em questão, estava outra cigana, bem mais velha, parecida com a avó Willow da Pocahontas que além de também cheirar terrivelmente mal, pôs se entoar um cântico ignorando o facto que nos estava a perturbar imenso. 

- É mesmo cigana...- diz o H. em português já irritado com aquilo.

Por uma questão de comodismo, desligamos a sintonia inglesa, e começamos a falar entre nós em português enquanto um lhe avaliava o pulso, outro a auscultava e tal. A mulher olhava para nós aturdida até que começou a gritar connosco, enquanto que olhávamos uns para os outros com ar de estúpidos. Pena que nenhum de nós entendeu aquele checo/eslovaco/ciganês. Com aquela gritaria toda, mesmo à drama queen  vs novela mexicana  em modo cigano, uma das médicas que estava a fazer a visita à enfermaria disse para nós sairmos do local, não dando qualquer explicação do que a cigana gritava. Minutos depois,  professor chega, entra na enfermaria, fala com ela e sai da enfermaria com um ar de quem tinha vontade de rir.

Antes da aula acabar, como sempre vamos para a biblioteca do serviço onde fazemos um apanhado do que vimos e do que deveríamos fazer em relação ao que vimos. Então o professor perguntou:
- Vocês em Portugal também têm ciganos?
- Sim, temos alguns- respondeu uma das minhas colegas.
- E vocês lidam bem com eles?
- Depende, há aqueles que trabalham nas feiras, vendem polos da Lacoste e cuequinhas gola alta e há outros que são uma espécie de parasitas: não trabalham, dedicam-se ao roubo, tráfico de droga, fazer escândalos nos hospitais, na segurança social... Tem direitos mas não têm deveres, está a entender?

O professor coça o queixo e diz:
- Sim, estou a ver... Esta cigana é uma dessas. 46anos, oito filhos, cinco netos, vive num barraco sem condições e azar dos azares em risco de ter de fazer hemodiálise porque tem os rins em mau estado. Síndrome de Alport é comum na população cigana muito por causa da consanguinidade.  Vocês sabem porque é que ela gritou com vocês?
- No idea- respondo.
- Porque vocês segundo ela estavam a gozar com ela. Estavam a falar CIGANÊS, disse ela. E ela estava a se sentir muito ofendida. 

 Um dos meus colegas em português vira-se para o prof.  (que por acaso é um velhote super amoroso e um Harrisons em forma humana) e diz:
- FILHA DA PUTA DA CIGANA. CHEIRA MAL QUE ATÉ TOMBA, INFESTA O MAU CHEIRO PELA ENFERMARIA TODA E AINDA ACHA-SE OFENDIDA...!

Foi risota geral. O professor mesmo não entendendo ponta de um corno do que o meu colega disse riu-se  também. Ciganês... Ciganês o caraças!

Só para realçar:
1. Não sou racista nem xenófoba. Só tenho preconceito de quem cheira mal e nada faz.
2. Mesmo a falarem checo/eslovaco/hungaro eles falam de forma aciganada com retoques de alentejanês, tal como em Portugal.
3. Tuga que é tuga não se importa de dizer calão. Eu própria já chamei palhaço em português a um prof no meio de uma discussão em inglês. Pena que alguns profs já estão a entender o significado do calão português, italiano e grego. Cazzo. 

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