quarta-feira, 16 de abril de 2014

Carta ao Cancro II

Mais uma vez te escrevo.
Fez esta semana oito anos que vi o meu pai pela última vez por tua causa. Oito anos que por vezes que passaram rápido, outras vezes parece que o tempo de arrastou demasiado.

Faz oito anos que deixaste uma criança com catorze anos orfã de pai. Faz oito anos que envelheceste uma jovem de dezanove anos a olhos vistos. Tornei-me insegura. Sofri de alguns surtos de amnésia. Às vezes penso que um bocadinho da loucura doentia que tenho se deve a ti. Apesar de maior parte das vezes a vida nos ter sorrido, volta e meia temos altos e muitos baixos com retoques de cambalhotas como se de um carrossel se tratasse.

Em casa vivemos-te nove meses na insegurança. Rezávamos para que fosses apenas mais um pesadelo. E por muito que nos beliscássemos sabíamos que estávamos a viver-te ao minuto.  E por tua causa tentamos aproveitar mais e mais os minutos com aquela pessoa que era o meu pai mas que cada vez menos se parecia com ele. E quanto rezamos nós por um milagre... S. Judas Tadeu, Santa Rita de Cassia, advogados das causas difíceis, de pouco ou nada nos valeram.

Pensando agora, acho que aquele tempo todo foi como se tivesse vivido debaixo de água, em que a imagem e o som são pouco nítidos. E lamento que cada dia que passe, por tua causa, cada vez tenho mais dificuldade em me lembrar da voz do meu Pai. Por muito que queira, tenho também dificuldade em associa-lo àquele homem saudável com um sentido de humor fantástico e uma humildade extraordinária. 
Apenas o vislumbro deitado numa cama de hospital, de fralda, com um olhar perdido e um amarelo  ictérico na pele. Ou então a última vez que o vi quando fecharam o caixão. Como é possível que sejas assim tão má? Como é possível?

Cada morte de cada pessoa conhecida que morre por tua causa mexe sempre comigo. Sinto uma enorme inveja de quem diz que conseguiu lutar contra ti e que te venceu. No entanto essa minha inveja fica apagada porque ainda conservo uma fé de que toda a gente te vai vencer e que não passarás de um mero boato malicioso.

Odeio-te...

Alima

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