domingo, 23 de março de 2014

Das pronúncias...

O facto de ter nascido em Braga fez com que sem querer adoptasse uma pronúncia um tanto característica e adoptasse também umas quantas expressões que fazem a rir muita gente.
Há quem diga tampo da panela, eu digo testo.
Há quem diga espigueiro, eu cá digo canastro.
Há quem diga que está com água na boca, eu digo augar.
Há quem diga guarda-chuva, eu prefiro chamar-lhe chuço.
Há quem chame cabide, eu chamo cruzeta.
A um parolo eu chamo azeiteiro ou begueiro.

Nos meus últimos três anos tenho convivido com muitos portugueses de todos os cantos do nosso Portugalzeco. Maior parte deles são lisboetas ou alentejanos. E isso muitas vezes causa um choque de culturas brutal.
No outro dia, em conversa com um alentejano disse algo como "já que lá vou e vou " o que o fez rir quase às lágrimas. Perguntei-lhe o porquê daquelas gargalhadas, ao que ele respondeu "Vê-se mesmo que és do Norte... ninguém no Sul tem expressões destas". A minha vontade era de lhe mandar a açorda que ele estava a comer pela tromba abaixo, mas lá me contive quando ele disse quer até era uma expressão encantadora (!) e de gente desenrascada (!), assim típica do Norte. 

Estes dias uma colega minha, qual tia de Cascais virou-se para mim e disse que a pronúncia do Norte é de gente brega. E que é típica só de gente da ralé com poucos estudos. E que o calão que temos é extremamente ofensivo, de tal modo que todos os nortenhos deveriam ter pimenta na língua desde o dia que nasceram.  Que os Lisboetas não têm pronuncia. Assim mercado do Bolhão não é de gente digna 'tá a ver? E pronto, tive que tentar ser educada ao discordar com a jovem (para não a chamar de gaja), de tal modo que me contive para não a mandar para o c***lho e de lhe dar treuze razões para fechar aquela matraca snobista. Tentei abrir-lhe os olhos a tamanha burrice ingenuidade ao explicar-lhe que Norte não é só Mercado do Bolhão, nem Porto. E que brega era a avó dela. Todas as cidades têm uma cultura característica de tal forma que têm uma pronuncia característica. E o pior é que tal como as zebras se conseguem distinguir umas das outras pelas riscas, nós sabemos distinguir-nos pelas nossas pronúncias. 
Sim, de uma maneira geral todas as palavras começadas por V no norte são lidas como B.

Há alguns anos, uma mãe de um aluno da minha mãe veio ter com a professora toda contente:
"Sabe, sra professora, já ensinei o meu filho a distinguir os V dos B. Olhe, expliquei-lhe que existe a BACA de casa e a VACA da professora."

A minha irmã também me confidenciou que acha um piadão e um choque tamanho quando está em Coimbra, toda a gente lhe chama Vitória e em Braga ela é a Bitória. 

Confesso que não tenho um sotaque muito demarcado da zona norte. Mas sei que em presença de nortenhos, sem querer, dou largas à pronuncia da minha cidade. E também quando vejo algum nortenho a falar na televisão, assim com aquela voz nasalada não me escapa um txiiiiiii, este é la da zona

De qualquer forma, sinto-me às vezes muito retraída em conversas com lisboetas. A forma como eles falam dá-me a sensação muitas vezes que me querem ensinar a falar correctamente. São muito coisinhas e snobzinhos a falar. E até os risinhos silenciosos são estranhos, quando para mim o que tem realmente piada é para rir às gargalhadas. Acho-os às vezes uns nojentinhos que falam como se tivessem um garfo espetado no traseiro.  E eu quando falo sinto que a minha pronuncia destoa como um trombone no meio de flautas. É isso aí, carago. Mas tenho um orgulho do caraças em ser nortenha :)


2 impressões:

Lia disse...

Todas as palavras que usaste não as identifico como sendo de Braga, mas de todo o norte "tuga".... Ouço-as desde Porto a Guimarães, passando por Chaves... E eu adoro o sotaque do norte apesar de, EM BRINCADEIRA, dizer aos meus amigos que parecem parvinhos a falar :p

Alima das Cartas disse...

acredito que há palavras que são as mesmas por todo o Norte, mas há palavras que não tem nada a ver. Vou por exemplo comparar certos termos utilizados no Minho com os das Beiras.
Existem as Bouças no Minho que são as Cavadas nas Beiras.
Existe o pão (tambem conhecido por bijou), mas em certas zonas das beiras chamam Meletes.
E isso claro, dá um nó na cabeça a muito gente quando usamos este tipo de expressões porque não as entendem (e muitas vezes temos dificuldade em arranjar uma tradução)

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