quinta-feira, 20 de março de 2014

Da puta da vida...

Em todas as cadeiras do meu curso, faço questão de querer saber sempre mais. Gosto de pensar que tenho excelentes professores que não se importam nada em partilhar a sabedoria que têm. 

Tenho um professor que na minha opinião é um óptimo professor. Não é um excelente professor porque volta e meia aparece nas aulas completamente embriagado. E nessas aulas, ele obriga a desligar as luzes, a fechar as janelas para que o ambiente esteja o mais escuro possível e quando abra a boca para falar é para não dizer coisa com coisa. É uma pessoa muito bem humorada, com um riso extremamente cómico.
Dizem que quem abraça vícios é porque tem qualquer coisa por detrás. E questionava-me muitas vezes a razão daquele seu vício.
Até que estes dias, depois de sair da aula dele, fazia um frio descomunal, tinha que esperar cerca de vinte minutos pelo autocarro, eu e o D. resolvemos entrar num café junto ao hospital e da paragem do autocarro. E lá estava o prof., sentado no bar com um copo de líquido transparente em frente dele (vodka quase na certa).
Eu e o D. sentamos-nos ao lado dele e num gesto maternal e sem medo, dei-lhe um tapinha nas costas e disse-lhe que se calhar era melhor parar por ali. O prof. olhou para nós e deu uma gargalhada típica dele, enquanto eu e o D. olhávamos para ele com pena. Após de ele ter bebido todo o líquido ele diz-nos no seu inglês manhoso e arrastado:

- My wife and my son... both were killed in a car accident... me... alone. 

O grande problema da incompreensão das pessoas reside-se no facto de desconhecermos as tragédias que passam com os outros. Ele é um excelente profissional, um óptimo professor mas tem uma vida transtornada e está a auto-destruir-se a olhos vistos. Não o condeno, não o censuro e quando ele disse aquilo (e pelos vistos metade da faculdade sabia da sua história...), eu simplesmente não lhe pude dizer nada. Não fui capaz de lhe bater novamente nas costas e lhe dizer que tudo vai ficar bem. Eu e o D. fechamos os nossos rostos, até que o D. pediu uma vodka para cada um de nós para brindarmos aos mortos e à saúde daquele professor. Isso mesmo.  

3 impressões:

Lia disse...

Aii... imagino o soco no estômago :S

S* disse...

Ai meu Deus, que dor de alma.

driftin' disse...

O "vício", se calhar, até nem o é. Talvez seja uma forma de tentar iludir a solidão. Uma forma de ultrapassar as palavras que não existem porque, quase sempre, não é fácil saber o que dizer a quem se encerra assim na sua própria concha.

A quem, apesar do silêncio, consegue permanecer na fronteira que separa um óptimo de um excelente professor!...

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