domingo, 2 de março de 2014

Ao pão da minha avó...

Hoje de manhã, enquanto tomava o pequeno almoço, veio-me à memória uma recordação muito singela de ver a minha avó paterna a fazer pão.

O pão que ela cozia, apesar de poder ser para consumo próprio, normalmente não o era. Naquela zona de Portugal, as pessoas têm o costume de cozer pão para o gado. Neste caso, para as duas lindas vacas arouquesas que ela religiosamente levava ao monte de manhãzinha ia pela tarde ia busca-las com um fardo de fetos e outras ervas à cabeça. O padeiro passava (e ainda passa) todos os dias na sua carrinha pela a aldeia para que as pessoas possam comprar o pão.

Se havia coisa que mais gostava antes de começar a frequentar a escola primária, era acompanhar o meu pai até à aldeia  para lá passar o fim de semana. A minha irmã era ainda bebé, a casa dos meus avós não tinha grandes condições, logo a minha mãe optava por ficar em Braga com a minha irmã, eu ia com o meu pai até à aldeia.

E pronto, lembro-me bem de ver a minha avó e as vizinhas a porem bosta de vaca dentro do forno da cozinha de uma delas (para vedar bem, diziam-me), lembro-me da masseira aberta que estava na cozinha, onde punham a farinha, a água e fermento. E amassavam aquela massa com braços firmes. Não sei porquê, mas o flash que tenho é de ver a minha avó e outras duas vizinhas a praticarem o mesmo ritual num daqueles dias. Provavelmente se juntavam para utilizar o mesmo forno. Não sei.

Lembro-me de ver a D. I. com um lenço na cabeça e com um avental velho, enquanto amassava. Lembro-me de ver os movimentos bruscos dela sobre o pão e dos seus brincos com peringalhos a mexerem-se.  Lembro-me que cortou aquela enorme bola com a mão, fazendo uma cruz enquanto dizia uma breve oração (tinha quatro-cinco anos na altura, não sei que ladainha era). Mas sim, o gesto de fazer uma cruz na massa é talvez a recordação mais marcante daquele dia. Digo isso porque perguntei à avó o porquê da cruz se logo logo ela desapareceu com mais amassadelas. A avó respondeu que era para que Deus deixasse o pão crescer.

Num mundo moderno e urbano em que as pessoas têm pastelarias pão quente ou padarias em fase de sobrevivência, num mundo moderno em que vamos a um hipermercado e temos mil e uma qualidades de pão pronto a levar, num mundo moderno em que os fornos são eléctricos, ou máquinas específicas de fazer pão ou então as Bimbys, o pão é congelado e cozido nesses fornos na hora, gosto de pensar que não há muito tempo vi gente a pôr bosta de vaca no forno a lenha para vedar, em que vi mulheres a fazer uma cruz na massa acompanhadas por uma ladainha para que o pão crescesse. Tradições que a pouco e pouco vão desaparecendo lamentavelmente. E o verdadeiro sabor do pão caseiro, esse jamais será o mesmo.

1 impressões:

S* disse...

Gosto tanto desses sabores da tradição. :')

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