terça-feira, 25 de março de 2014

A tatuagem

Faço a admissão no serviço de Medicina Interna, acompanhada por um médico.
Tratava-se de um homem na casa dos 80 e pico, com um quadro médico cardiológico e respiratório muito sui generis da alguém com a idade dele. Mas apesar da sua dificuldade respiratória e daquelas pernas inchadas como cepos, o homem tinha um sentido de humor dos diabos.

Em conversa, perguntou-me de onde era. Disse-lhe que era portuguesa. Então ele começou a desbobinar tudo que sabia sobre futebol português e o quão glorioso é o Benfica. Então muito prontamente expliquei-lhe que estava muito enganadinho, expliquei-lhe que o FCP é que era um grande clube o que ele me respondeu com um buuuuhhhh.
Ao ajuda-lo a tirar camisola para lhe fazer o exame físico, vi que ele tinha uma tatuagem no pulso. Tratava-se de umas letras e uns seis números. Mecanicamente, segurei-lhe o braço para lhe ler os números, sabendo perfeitamente que ele deveria ter sido prisioneiro.
- Kde ti to urobil? (onde lhe fizeram isso?)
- Mauthausen, doktorka. (Mauthausen foi um campo de extermínio perto daqui, só que na vizinha Áustria...)
- Židov? (é judeu?) pergunto-lhe com alguma curiosidade e prontinha para escrever no historial médico na parte Crenças Religiosas.

O velhote olha para mim e riu-se. Responde-me:
- Nie, nie, nie, nie, horší... ja som komunista. (não, não, não, pior... sou comunista)

Olhei para ele e rimo-nos os dois. Não havia muito a dizer um ao outro.

Pensar que estes países por aqui até não há muito tempo para se recuperarem da invasão nazi tiveram sob alçada do regime comunista fez-me pensar nos quantos comunistas (e outros seres humanos) morreram e sofreram em campos de concentração e trabalhos forçados ou mesmo em rebeliões porque simplesmente defendiam um ideal e morriam por ele, fez-me pensar na sorte de ser portuguesa e de apesar de saber que os quarenta e oito anos sob regime ditatorial português terem sido um período negro na nossa história, eram quase de certeza um paraíso comparando o que esta parte da Europa padeceu.




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