quarta-feira, 5 de março de 2014

À tasca do Velho do Torrão

Junto à casa dos meus avós paternos, localizada numa aldeia bem recôndita no coração da Serra da Freita, havia uma tasca gerida por um velhote. Recordo-me dele como o Velho Do Torrão.
Era uma tasca bem pequenina, com balcão em madeira tosca, algumas prateleiras do lado de lá. Havia apenas uma mesa e dois bancos corridos para que as pessoas pudessem se sentar. Recordo-me de ver alguns calendários com imagens de Cristo e de Nossa Senhora espetados na parede

A única coisa que vendia era copos e malgas de vinho, cervejas, e alguns refrigerantes. Vendia também pacotitos de bolachas de baunilha e Maria que eram um verdadeiro consolo para mim sempre que acompanhava o meu pai e o meu avô até ao tasco. Do lado de fora do tasco, duas pedras repousavam junto à parede, o que servia de bancos nas tardes de Verão quando os homens da aldeia se reuniam para amena cavaqueira. 

O tasco não tinha água corrente. Para lavar os copos, o velho saia do tasco com uma bacia e os copos sujos e ia lavá-los ao fontanário ali próximo.

Foi lá onde aprendi a jogar dominó. Foi lá onde aprendi também a jogar à Sueca.
Segundo o meu pai, nos tempos de garoto dele, passou lá muitos serões com gira-discos e grafonola a ouvir discos do Teixeirinha e algumas modinhas que os brasileiros da aldeia traziam do Brasil. O meu pai, sobrinho de outra tasqueira lá da aldeia (que fechou o tasco no final da década de 60 para emigrar), em miúdo, sempre preferiu o velho do Torrão para comprar os pães com marmelada. Dizia ele que o facto de ele cortar a marmelada com espessura milimética com uma navalha, fazia com que a marmelada tivesse um sabor especial. 

O Velho do Torrão morreu em 1996 ou 1997. Morreu divorciado e sem filhos. Seguramente nenhum dos sobrinhos nunca mais lhe mandou rezar missas. A tasca do Velho do Torrão, a última tasca da aldeia,  foi fechada para sempre. As pessoas começaram a reunir-se na aldeia vizinha que tinha dois cafés que já tinham máquina de café e gelados da Camy e da Olá.
Anos depois, a aldeia dos meus avós sofreu uma grande reestruturação e o edifício que servia de tasco desapareceu. Aquilo que outrora foi uma casa com dois andares com portadas verdes e duas pedras a servir de bancos à porta deu lugar a um alargamento da calçada e a um lugar de estacionamento de carro.

Sempre que lá passo no Verão dou por mim a pensar naqueles que lá entraram naquele tasco, e no velho homem que os servia. Recordo-me também no papel mata borrão que servia para fazer as contagens de pontos das suecadas e dominós e no cheiro a iscas de fígado e cebolada que emanava daquela portada à hora do almoço... coisas que jamais na vida poderão voltar atrás.




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