domingo, 30 de março de 2014

Histórias de Família na Família- Factos Arrepiantes II

Estava eu de férias de Natal no meu 1º ano de Medicina quando eu tive um sonho que me parecia muito real.
Sonhei que estava com uns tios meus numa vacaria, propriedade dos meus avós maternos e que um dos meus tios estava a consertar o telhado de zinco. Então por mero desequilibro, o meu tio caiu do telhado e partiu uma perna.

No dia seguinte, ao pequeno almoço comentei com a minha mãe sobre esse sonho e incentivei-a a ligar para ele para saber se estava tudo bem.
A minha mãe ligou, tudo estava bem com ele e garantiu-me que a eu estava a ficar maluquinha ao pensar que as minhas premonições batessem certo.
Passado uns dois dias, a esposa do meu tio ligou-nos a avisar que ele tinha partido uma perna:
"Uma coisa estúpida... a limpar os ninhos do telhado da garagem, a escada desengonçou-se e ele caiu"


A caminho da casa dele, no carro perguntei à minha mãe se queria comentar alguma coisa...
A única expressão que ela fez, foi um NÃO muito lento com um português FODA-SE...

terça-feira, 25 de março de 2014

A tatuagem

Faço a admissão no serviço de Medicina Interna, acompanhada por um médico.
Tratava-se de um homem na casa dos 80 e pico, com um quadro médico cardiológico e respiratório muito sui generis da alguém com a idade dele. Mas apesar da sua dificuldade respiratória e daquelas pernas inchadas como cepos, o homem tinha um sentido de humor dos diabos.

Em conversa, perguntou-me de onde era. Disse-lhe que era portuguesa. Então ele começou a desbobinar tudo que sabia sobre futebol português e o quão glorioso é o Benfica. Então muito prontamente expliquei-lhe que estava muito enganadinho, expliquei-lhe que o FCP é que era um grande clube o que ele me respondeu com um buuuuhhhh.
Ao ajuda-lo a tirar camisola para lhe fazer o exame físico, vi que ele tinha uma tatuagem no pulso. Tratava-se de umas letras e uns seis números. Mecanicamente, segurei-lhe o braço para lhe ler os números, sabendo perfeitamente que ele deveria ter sido prisioneiro.
- Kde ti to urobil? (onde lhe fizeram isso?)
- Mauthausen, doktorka. (Mauthausen foi um campo de extermínio perto daqui, só que na vizinha Áustria...)
- Židov? (é judeu?) pergunto-lhe com alguma curiosidade e prontinha para escrever no historial médico na parte Crenças Religiosas.

O velhote olha para mim e riu-se. Responde-me:
- Nie, nie, nie, nie, horší... ja som komunista. (não, não, não, pior... sou comunista)

Olhei para ele e rimo-nos os dois. Não havia muito a dizer um ao outro.

Pensar que estes países por aqui até não há muito tempo para se recuperarem da invasão nazi tiveram sob alçada do regime comunista fez-me pensar nos quantos comunistas (e outros seres humanos) morreram e sofreram em campos de concentração e trabalhos forçados ou mesmo em rebeliões porque simplesmente defendiam um ideal e morriam por ele, fez-me pensar na sorte de ser portuguesa e de apesar de saber que os quarenta e oito anos sob regime ditatorial português terem sido um período negro na nossa história, eram quase de certeza um paraíso comparando o que esta parte da Europa padeceu.




domingo, 23 de março de 2014

Das pronúncias...

O facto de ter nascido em Braga fez com que sem querer adoptasse uma pronúncia um tanto característica e adoptasse também umas quantas expressões que fazem a rir muita gente.
Há quem diga tampo da panela, eu digo testo.
Há quem diga espigueiro, eu cá digo canastro.
Há quem diga que está com água na boca, eu digo augar.
Há quem diga guarda-chuva, eu prefiro chamar-lhe chuço.
Há quem chame cabide, eu chamo cruzeta.
A um parolo eu chamo azeiteiro ou begueiro.

Nos meus últimos três anos tenho convivido com muitos portugueses de todos os cantos do nosso Portugalzeco. Maior parte deles são lisboetas ou alentejanos. E isso muitas vezes causa um choque de culturas brutal.
No outro dia, em conversa com um alentejano disse algo como "já que lá vou e vou " o que o fez rir quase às lágrimas. Perguntei-lhe o porquê daquelas gargalhadas, ao que ele respondeu "Vê-se mesmo que és do Norte... ninguém no Sul tem expressões destas". A minha vontade era de lhe mandar a açorda que ele estava a comer pela tromba abaixo, mas lá me contive quando ele disse quer até era uma expressão encantadora (!) e de gente desenrascada (!), assim típica do Norte. 

Estes dias uma colega minha, qual tia de Cascais virou-se para mim e disse que a pronúncia do Norte é de gente brega. E que é típica só de gente da ralé com poucos estudos. E que o calão que temos é extremamente ofensivo, de tal modo que todos os nortenhos deveriam ter pimenta na língua desde o dia que nasceram.  Que os Lisboetas não têm pronuncia. Assim mercado do Bolhão não é de gente digna 'tá a ver? E pronto, tive que tentar ser educada ao discordar com a jovem (para não a chamar de gaja), de tal modo que me contive para não a mandar para o c***lho e de lhe dar treuze razões para fechar aquela matraca snobista. Tentei abrir-lhe os olhos a tamanha burrice ingenuidade ao explicar-lhe que Norte não é só Mercado do Bolhão, nem Porto. E que brega era a avó dela. Todas as cidades têm uma cultura característica de tal forma que têm uma pronuncia característica. E o pior é que tal como as zebras se conseguem distinguir umas das outras pelas riscas, nós sabemos distinguir-nos pelas nossas pronúncias. 
Sim, de uma maneira geral todas as palavras começadas por V no norte são lidas como B.

Há alguns anos, uma mãe de um aluno da minha mãe veio ter com a professora toda contente:
"Sabe, sra professora, já ensinei o meu filho a distinguir os V dos B. Olhe, expliquei-lhe que existe a BACA de casa e a VACA da professora."

A minha irmã também me confidenciou que acha um piadão e um choque tamanho quando está em Coimbra, toda a gente lhe chama Vitória e em Braga ela é a Bitória. 

Confesso que não tenho um sotaque muito demarcado da zona norte. Mas sei que em presença de nortenhos, sem querer, dou largas à pronuncia da minha cidade. E também quando vejo algum nortenho a falar na televisão, assim com aquela voz nasalada não me escapa um txiiiiiii, este é la da zona

De qualquer forma, sinto-me às vezes muito retraída em conversas com lisboetas. A forma como eles falam dá-me a sensação muitas vezes que me querem ensinar a falar correctamente. São muito coisinhas e snobzinhos a falar. E até os risinhos silenciosos são estranhos, quando para mim o que tem realmente piada é para rir às gargalhadas. Acho-os às vezes uns nojentinhos que falam como se tivessem um garfo espetado no traseiro.  E eu quando falo sinto que a minha pronuncia destoa como um trombone no meio de flautas. É isso aí, carago. Mas tenho um orgulho do caraças em ser nortenha :)


quinta-feira, 20 de março de 2014

Da puta da vida...

Em todas as cadeiras do meu curso, faço questão de querer saber sempre mais. Gosto de pensar que tenho excelentes professores que não se importam nada em partilhar a sabedoria que têm. 

Tenho um professor que na minha opinião é um óptimo professor. Não é um excelente professor porque volta e meia aparece nas aulas completamente embriagado. E nessas aulas, ele obriga a desligar as luzes, a fechar as janelas para que o ambiente esteja o mais escuro possível e quando abra a boca para falar é para não dizer coisa com coisa. É uma pessoa muito bem humorada, com um riso extremamente cómico.
Dizem que quem abraça vícios é porque tem qualquer coisa por detrás. E questionava-me muitas vezes a razão daquele seu vício.
Até que estes dias, depois de sair da aula dele, fazia um frio descomunal, tinha que esperar cerca de vinte minutos pelo autocarro, eu e o D. resolvemos entrar num café junto ao hospital e da paragem do autocarro. E lá estava o prof., sentado no bar com um copo de líquido transparente em frente dele (vodka quase na certa).
Eu e o D. sentamos-nos ao lado dele e num gesto maternal e sem medo, dei-lhe um tapinha nas costas e disse-lhe que se calhar era melhor parar por ali. O prof. olhou para nós e deu uma gargalhada típica dele, enquanto eu e o D. olhávamos para ele com pena. Após de ele ter bebido todo o líquido ele diz-nos no seu inglês manhoso e arrastado:

- My wife and my son... both were killed in a car accident... me... alone. 

O grande problema da incompreensão das pessoas reside-se no facto de desconhecermos as tragédias que passam com os outros. Ele é um excelente profissional, um óptimo professor mas tem uma vida transtornada e está a auto-destruir-se a olhos vistos. Não o condeno, não o censuro e quando ele disse aquilo (e pelos vistos metade da faculdade sabia da sua história...), eu simplesmente não lhe pude dizer nada. Não fui capaz de lhe bater novamente nas costas e lhe dizer que tudo vai ficar bem. Eu e o D. fechamos os nossos rostos, até que o D. pediu uma vodka para cada um de nós para brindarmos aos mortos e à saúde daquele professor. Isso mesmo.  

segunda-feira, 17 de março de 2014

Das medicinas alternativas...

Curiosa como sou nesse tema, resolvi inscrever-me numa cadeira opcional na faculdade para ver se poderia aprender qualquer coisa.
O tema de hoje era Acupunctura. 
Antes de ir para a aula, resolvi fazer uma pesquisa pelo Google sobre assuntos deste tipo de técnica para ver se poderia estar realmente dentro da matéria.

O acupunturista estudou medicina na mesma faculdade onde estudo agora. Após a conclusão do curso, optou por viajar para a China onde em sete anos estudou medicina tradicional chinesa. Portanto, não é leigo na coisa.

E pronto, lá falou na filosofia, nos tipos de agulhas, nas vantagens de fazer acupunctura, nos locais a aplicar as agulhas. Chegou a introduzir agulhas em alguns colegas. Facto engraçado foi de uma das minhas colegas se ter queixado de dores lombares. Ele pediu para que ela apontasse precisamente o local. Depois pediu-lhe para mostrar a língua. Imediatamente ele alertou que aquela lombalgia seria derivada de problemas pancreáticos e nunca de problemas de coluna. Aplicando as agulhas, sensações de calor e coisa e tal, confirmou-se o diagnóstico: desordens no pâncreas. 

Como tinha a lição estudada aproveitei para fazer duas perguntas que tinha após a  dita pesquisa:

Pode a acupunctura aliviar ou retardar a sintomatologia de doenças degenerativas como Esclerose Múltipla, por exemplo? Sim se forem detectadas a tempo. E pode aliviar/retardar por décadas.

Pode a acupunctura ser realmente eficaz para ajudar no processo de desintoxicação em dependentes químicos, vulgo alcoólicos, fumadores, toxicodependência (heroínas, cocaínas e coisas tais)? Não muito, infelizmente. 

As coisas interessantes que se pode aprender em 1h30...

sexta-feira, 14 de março de 2014

Histórias da Família na Família- Factos arrepiantes I

É mais que sabido pelas gentes da aldeia Natal do meu pai, de que quem é da minha família, tem o seu quê de isotérico. E muitos associam que isso será derivado a algumas mortes estúpidas de certos familiares. Todos nós temos algumas histórias arrepiantes para contar. Eu já passei por situações que não fazem lembrar ninguém. Se tenho medo? Não, nenhum. Se vivo à procura de fenómenos paranormais? Não... eles próprios vêm ter comigo.
Não sou adepta de filmes de terror, mas confesso que gosto de filmes sobre espíritos e tal a filmes com serial killers. Mas gosto de pensar que os espíritos que por aí existem (porque existem mesmo) não andam por aí a tentar aterrorizar os vivos... talvez estejam a tentar lembrar os vivos que a morte existe e que o Além também.


Tinha eu cerca de nove anos e como tal adorava brincar com os meus primos quando nos encontrávamos na casa dos avós maternos. Um dos nossos jogos predilectos era o esconde esconde, que na casa dos meus avós era o local mais que perfeito porque se trata de um casarão centenário que imensas divisões. Eu e a minha prima resolvemos esconder-nos no salão do fundo do corredor. Esse salão está sempre com as portadas fechadas e só é aberto quando o Compasso Pascal vai a casa. É um salão que tem a melhor mobília e a sua imponência está associada aos tapetes persas e chineses do século XIX que cobrem as paredes assim como quadros a óleo de antepassados meus. Eu e a S. entramos no salão que estava escuro. Senti um enorme arrepio e as portadas das janelas mexeram-se todas, assim como o candelabro com cristais a meio do salão como um sismo se tratasse. Senti o meu bafo em forma de vapor. A S. olhou para mim com um ar assustado, abriu de novo a porta e saímos disparadas daquela sala.
"Que foi aquilo?"- Perguntou-me.
"Não sei..."


Nunca mais tocamos no assunto. Confesso que nunca mais entrei naquele salão sozinha...

Até que um dia, anos mais tarde, foi inaugurada a capela Mortuária da freguesia.

Perguntei por mero acaso à minha mãe, onde eram feitos os velórios dos defuntos...

- Os mais pobres, faziam na igreja... Os mais ricos, faziam em casa... Na nossa família, os velórios eram feitos no salão ao fundo do corredor... o dos tapetes... E olha que muita boa gente já lá foi velada!

Assim que tive oportunidade, voltei a simular aquela tarde de esconde esconde. O chão é de tijoleira, a porta naquela tarde foi fechada devagar para não sermos apanhadas... e não consegui sentir mais aquele transe que passei...




terça-feira, 11 de março de 2014

Das psiquiatrias...

Jovem do sexo masculino, 28 anos, estudante de Direito numa faculdade fora do seu país de origem foi internado há cerca de três semanas no hospital universitário com o diagnóstico de Síndrome de Asperger + depressão+ dependência química, vulgo álcool.
Tratava-se de um rapaz muito bem parecido com um discurso em inglês bem fluente (yuppiiii) que parecia estar à vontade com as perguntas que lhe íamos fazendo.

Mãe professora, pai engenheiro, nunca gostou de desporto, não cultivou grandes amizades durante a sua infância e adolescência, preferia livros a pessoas. Segundo ele, muito bom aluno até ter ficado afectado por um chumbo numa cadeira.

Disse-nos que se agarrou ao álcool para fugir aos problemas. Acha-se bem parecido e carismático mas confessa que o facto de nunca ter tido uma namorada a sério e de apenas ter tido relações fugazes o deixa deprimido. Que talvez isso seja uma das razões para se ter tornado alcoólico. "As mulheres só querem amizade comigo. Sou muito prestável com elas e quando lhes peço para termos uma coisa séria elas dizem que só vêem como amigo." Tentar ser amigos de mulheres? Big mistake..., confidencia-me o meu amigo D. ao ouvido. Concordo com o D., apesar de ser mulher. Mas também lhe confidencio que as mulheres nesta zona da Europa são umas frescas de primeira. Basta ver o deboche erótico sempre que se sai à sexta à noite para a discoteca da zona. 

Quando ouvia o paciente comecei a fazer uma retrospectiva de algumas pessoas que conheço que têm exactamente as mesmas características. E quando digo exactamente, digo mesmo exactamente: dependentes químicos, pessoas muito retraídas e pouco sociais, alunos brilhantes que entram em colapso se têm um pequeno deslize, pessoas que por muito que se esforcem não conseguem prender alguém. Pessoas que tão bem conhecemos o que nos põe a pensar se têm um parafuso a menos ou não. A sorte deste jovem reside em fazer parte de uma família que o orientou para se tratar como deve de ser. Foram uma boa âncora.

Teremos nós tantos doentes psiquiátricos espalhados que se calhar não sabem ou não fazem ideia que sofrem de alguma perturbação psiquiátrica?  Qual é o limite do ser saudável e o de estar enfermo? Fica a dúvida...



Alima

domingo, 9 de março de 2014

Das aventuras nocturnas

Neste fim de semana, eu, alguns portugueses e uns espanhóis que estudam comigo resolvemos passar o fim de semana na Ucrânia. 
O objectivo seria tentar passar um fim-de-semana divertido e ao mesmo tempo relaxante.
Alugamos dois carros, e lá nos pusemos a caminho cheios de medo de sermos barrados na fronteira. Caso fossemos barrados, iríamos arriscar e viajar para a Hungria. Felizmente não tivemos problemas em entrar na Ucrânia. Depois de instalados no hotel, devidamente vestidos e arranjados fomos jantar a um club e posteriormente iríamos parar a um bar ou discoteca ou coisa do género.

Foi das melhores noites que passei numa discoteca. A música era agradável, o espaço em si também, a companhia e as bebidas idem. É uma sensação de liberdade autêntica estar num país em que ninguém nos conhece, em que podemos flirtar com alguém sem que sejamos criticados por outros.

Na discoteca em que acabamos a noite, era uma discoteca elitista. Tudo bem vestido, sem grande espalhafato. O facto de nos comunicarmos em português e castelhano chamou a atenção a algumas pessoas que lá se encontravam e logo logo vieram meter conversa connosco. Médicos, Veterinários, Professores da Universidade da cidade onde estávamos abordaram-nos num inglês quase fluente e nós aproveitamos também para saber o que se passava na cabeça daquelas pessoas e para treinar o nosso russo... 


Receio que se a situação que se está a passar na Ucrânia continuar, provavelmente será a última vez que lá entrarei, o que é uma pena visto estar a menos de 100km da fronteira e ser um dos meus países favoritos para passear e fazer compras. 

Por eles, pelos países vizinhos e por mim rezo que logo logo as coisas se acalmem...

quarta-feira, 5 de março de 2014

À tasca do Velho do Torrão

Junto à casa dos meus avós paternos, localizada numa aldeia bem recôndita no coração da Serra da Freita, havia uma tasca gerida por um velhote. Recordo-me dele como o Velho Do Torrão.
Era uma tasca bem pequenina, com balcão em madeira tosca, algumas prateleiras do lado de lá. Havia apenas uma mesa e dois bancos corridos para que as pessoas pudessem se sentar. Recordo-me de ver alguns calendários com imagens de Cristo e de Nossa Senhora espetados na parede

A única coisa que vendia era copos e malgas de vinho, cervejas, e alguns refrigerantes. Vendia também pacotitos de bolachas de baunilha e Maria que eram um verdadeiro consolo para mim sempre que acompanhava o meu pai e o meu avô até ao tasco. Do lado de fora do tasco, duas pedras repousavam junto à parede, o que servia de bancos nas tardes de Verão quando os homens da aldeia se reuniam para amena cavaqueira. 

O tasco não tinha água corrente. Para lavar os copos, o velho saia do tasco com uma bacia e os copos sujos e ia lavá-los ao fontanário ali próximo.

Foi lá onde aprendi a jogar dominó. Foi lá onde aprendi também a jogar à Sueca.
Segundo o meu pai, nos tempos de garoto dele, passou lá muitos serões com gira-discos e grafonola a ouvir discos do Teixeirinha e algumas modinhas que os brasileiros da aldeia traziam do Brasil. O meu pai, sobrinho de outra tasqueira lá da aldeia (que fechou o tasco no final da década de 60 para emigrar), em miúdo, sempre preferiu o velho do Torrão para comprar os pães com marmelada. Dizia ele que o facto de ele cortar a marmelada com espessura milimética com uma navalha, fazia com que a marmelada tivesse um sabor especial. 

O Velho do Torrão morreu em 1996 ou 1997. Morreu divorciado e sem filhos. Seguramente nenhum dos sobrinhos nunca mais lhe mandou rezar missas. A tasca do Velho do Torrão, a última tasca da aldeia,  foi fechada para sempre. As pessoas começaram a reunir-se na aldeia vizinha que tinha dois cafés que já tinham máquina de café e gelados da Camy e da Olá.
Anos depois, a aldeia dos meus avós sofreu uma grande reestruturação e o edifício que servia de tasco desapareceu. Aquilo que outrora foi uma casa com dois andares com portadas verdes e duas pedras a servir de bancos à porta deu lugar a um alargamento da calçada e a um lugar de estacionamento de carro.

Sempre que lá passo no Verão dou por mim a pensar naqueles que lá entraram naquele tasco, e no velho homem que os servia. Recordo-me também no papel mata borrão que servia para fazer as contagens de pontos das suecadas e dominós e no cheiro a iscas de fígado e cebolada que emanava daquela portada à hora do almoço... coisas que jamais na vida poderão voltar atrás.




domingo, 2 de março de 2014

Ao pão da minha avó...

Hoje de manhã, enquanto tomava o pequeno almoço, veio-me à memória uma recordação muito singela de ver a minha avó paterna a fazer pão.

O pão que ela cozia, apesar de poder ser para consumo próprio, normalmente não o era. Naquela zona de Portugal, as pessoas têm o costume de cozer pão para o gado. Neste caso, para as duas lindas vacas arouquesas que ela religiosamente levava ao monte de manhãzinha ia pela tarde ia busca-las com um fardo de fetos e outras ervas à cabeça. O padeiro passava (e ainda passa) todos os dias na sua carrinha pela a aldeia para que as pessoas possam comprar o pão.

Se havia coisa que mais gostava antes de começar a frequentar a escola primária, era acompanhar o meu pai até à aldeia  para lá passar o fim de semana. A minha irmã era ainda bebé, a casa dos meus avós não tinha grandes condições, logo a minha mãe optava por ficar em Braga com a minha irmã, eu ia com o meu pai até à aldeia.

E pronto, lembro-me bem de ver a minha avó e as vizinhas a porem bosta de vaca dentro do forno da cozinha de uma delas (para vedar bem, diziam-me), lembro-me da masseira aberta que estava na cozinha, onde punham a farinha, a água e fermento. E amassavam aquela massa com braços firmes. Não sei porquê, mas o flash que tenho é de ver a minha avó e outras duas vizinhas a praticarem o mesmo ritual num daqueles dias. Provavelmente se juntavam para utilizar o mesmo forno. Não sei.

Lembro-me de ver a D. I. com um lenço na cabeça e com um avental velho, enquanto amassava. Lembro-me de ver os movimentos bruscos dela sobre o pão e dos seus brincos com peringalhos a mexerem-se.  Lembro-me que cortou aquela enorme bola com a mão, fazendo uma cruz enquanto dizia uma breve oração (tinha quatro-cinco anos na altura, não sei que ladainha era). Mas sim, o gesto de fazer uma cruz na massa é talvez a recordação mais marcante daquele dia. Digo isso porque perguntei à avó o porquê da cruz se logo logo ela desapareceu com mais amassadelas. A avó respondeu que era para que Deus deixasse o pão crescer.

Num mundo moderno e urbano em que as pessoas têm pastelarias pão quente ou padarias em fase de sobrevivência, num mundo moderno em que vamos a um hipermercado e temos mil e uma qualidades de pão pronto a levar, num mundo moderno em que os fornos são eléctricos, ou máquinas específicas de fazer pão ou então as Bimbys, o pão é congelado e cozido nesses fornos na hora, gosto de pensar que não há muito tempo vi gente a pôr bosta de vaca no forno a lenha para vedar, em que vi mulheres a fazer uma cruz na massa acompanhadas por uma ladainha para que o pão crescesse. Tradições que a pouco e pouco vão desaparecendo lamentavelmente. E o verdadeiro sabor do pão caseiro, esse jamais será o mesmo.

sábado, 1 de março de 2014

Janeiro de 2014

Uma das coisas que mais gosto quando estou de férias é acompanhar a mãe até ao seu cafè habitual da tarde com as amigas.
Há uma dessas amigas que é muito chic. Ou assim ela se acha.
Conversa dela.
- Sabe Alima, o meu marido anda com uns problemas de articulações e anda a tomar X e Y. Mas ele anda a queixar-se muito de dores de olecrano.

E pronto iniciou um discurso com a palavra olecrano incluída para aí umas cinquenta vezes:  olecrano para aqui, olecrano para aí, olecrano para baixo, olecrano para cima.

Pouco tempo depois, a fulana saiu do café.
A minha mãe pergunta-me:
- Mas que raio é o olecrano?
- Cotovelo. Ele tem dor de cotovelo, mammy.
- AHHHHHHHHH!