segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A blasfémia



Depois de ter lido esta notícia, fiquei com uma sensação de não saber se haveria de rir ou se de chorar. Segundo a notícia, os médicos formados no estrangeiro têm piores resultados nos exames de especialidade.


Segundo a Sô Dona Isabel Pavão Martins, detentora do estudo, talvez bolseira de porra alguma, os resultados estão à vista porque, como diz no Público "Estes piores resultados na prova de acesso poderão ser explicados pela formação de menor qualidade em algumas das universidades estrangeiras em comparação com as escolas médicas nacionais, ou por uma pior preparação de base, sobretudo no ensino secundário — muitos destes alunos não entraram nas faculdades nacionais e recorreram ao estrangeiro como opção de recurso

Vamos lá começar por partes: 
"Estes piores resultados na prova de acesso poderão ser explicados pela formação de menor qualidade em algumas das universidades estrangeiras em comparação com as escolas médicas nacionais"- Uma falácia péssima e sem fundamento nenhum. Se a coisa fosse mesmo verdade, Portugal estaria na vanguarda no que respeita a medicina, coisa que muito sinceramente não está. Quem normalmente está a estudar no estrangeiro (e estou a falar quem está a tirar o curso na Europa Centra/Leste, abstenho-me de falar quem está a tirar actualmente o curso em Espanha porque sinceramente não conheço bem a realidade), está a tirar o curso em universidades em que além de existir o curso na língua nativa, existe o curso em Inglês. Coisa que provavelmente muito bom professor numa faculdade de medicina portuguesa se borraria de medo de certeza se tivesse que leccionar noutra língua que não fosse o português.


Eu de boa vontade escreveria um estudo sobre a estupidez e mentalidade tacanha da sô dona Isabel. Mas não aprofundando muito sobre isso posso dizer, que Charles University, na Repùblica Checa é no ranking Europeu e Mundial de Universidades, a 26º lugar a nível Europeu e no 124º lugar a nível Mundial (ficando assim à frente de qualquer faculdade portuguesa). Ou então, por exemplo na minha faculdade, logo no primeiro ano, paga-se uma caução e a biblioteca fornece TODOS OS LIVROS NECESSÁRIOS PARA O CURSO, EVITANDO PAGAR FOTOCOPIAS. E falo por todas as faculdades de Medicina na Europa Central/Leste e pelo facto de adquirirmos um conhecimento muito prático em cadeiras que em Portugal são muito teóricas. Falo portanto da disponibilidade de cadáveres como modelos anatómicos (quando tinha a cadeira de Anatomia era um cadáver para três alunos durante a aula). Como dizemos no Norte: IMPECÁBEL.


Portanto, sô Dona, somos bons em futebol e outras merdices, mas não nos venha dizer que os alunos de medicina portugueses em Portugal são uns super heróis. Ainda só tivemos um Nobel da Medicina, e antes disso o Egas teve que estudar Neurologia em Bordeaux e Paris, ser Embaixador em Madrid e Ministro dos Negócios Estrangeiros e ser alvejado por um dos pacientes lobotomizados.


Outras faculdades estão a emergir a olhos vistos no que respeita a ciência pela Europa Central. Mas pronto, a sô dona Isabel, com certeza patriota assumidérrima, elitista, deve continuar a achar que quem estuda fora porque não teve média para entrar em Portugal não passa de reles escumalha. 


"Por uma pior preparação de base, sobretudo no ensino secundário — muitos destes alunos não entraram nas faculdades nacionais e recorreram ao estrangeiro como opção de recurso" Parcialmente verdade. Mas digo-lhe mais: Eu nunca ambicionei seguir Medicina. Vou ser sincera: Sentir-me-ia realizada se tivesse seguido História ou Geografia. E como não segui Humanidades, ambicionei ser professora de Biologia/Geologia. Desta forma, até ao final do meu 12º Ano não me interessei muito em sacar 20's. O meu pai bem dizia "Quando for para brincar, brinca-se, quando for para estudar, estuda-se", mas eu adolescente estúpida e pouco ambiciosa sempre fiquei contente com o meu 17. .A questão é que passado uns anos, depois de me ter formado no meu primeiro curso é que pensei num"e porque não medicina?" Naquela fase do campeonato, teria que voltar de novo ao secundário e voltar a fazer exames nacionais e algumas melhorias. E foi então que optei em estudar no Estrangeiro. E TAL COMO EU, MUITOS OUTROS LICENCIADOS QUE ESTÃO AQUI COMIGO NESTA FACULDADE FIZERAM O MESMO. MEDICINA É UM SEGUNDO CURSO. E quer saber mais, sô dona Isabel? A escumalha que não teve média para entrar em Portugal, na faculdade onde estudo, são os melhores alunos do Curso. Até digo mais, a escumalha do curso de Medicina na faculdade onde estudo são os alunos gregos e árabes, descendentes de Hipócrates, Galeno, de Avicena e Arrazi. E esta, hein? Uma coisa castiça que aconteceu na semana passada: Num teste de QI que fizemos numa aula de psicologia, os portugueses (está a ver, aqueles que não tiveram média para entrar em Portugal?) tiveram as melhores classificações.


Fico a pensar como é que nós portugueses, que somos os melhores nas faculdades de medicina na Europa Central/Leste, somos considerados burros na mentalidade da sô Dona Isabel e de outras Sô Donas Isabeis. Aliás, tenho uma sensação que a sô dona quer mostrar que o curso de medicina em Portugal é mais difícil. Mas sabe, se acha que o curso de medicina é difícil, sugiro que dê uma vista de olhos no programa do curso de Ciências Farmacéuticas ou então em Engenharias Informáticas. Isso sim, é dificuldade nível 1000. 


Temos um conhecimento teórico tão bom, que os próprios professores nos dizem para sermos nós próprios a escolher o livro que nos adaptamos melhor para estudar. E o Harrisons é um livro maçudo e chato como o caraças, já disse no outro dia o meu professor de Medicina Interna.  Já lhe disse que paguei uma caução e posso escolher os livros que quiser para estudar?


Não se esqueça que o exame de especialidade não testa conhecimento. É uma prova de seriação que testa marranços. Qual é a vantagem de saber a percentagem de cancro colo rectal na população negra dos Estado Unidos se na realidade o que me interessa mesmo é saber porque é que o senhor Manuel de Macedo de Cavaleiros tem cancro???

Sim, temos algumas falhas no sistema de ensino. Mas não há sistema de ensino perfeito, caso não saiba. 

E a sério, deixe-se de estudos desses... Olhe que os nossos pais podem pensar que o que você diz é verdade... 

Faça mas é um estudo porque é que em muitos países o exame final resume-se a um exame de conteúdo geral desde o 1º ano até ao 6º e em Portugal nicles. Ou porque é que não existem exames estatais (que só de pensar em responder perante um juri composto por professores desconhecidos, já dá voltas à barriga) E aí iria ver os seus brilhantes alunos de 18's a serem corridos a pontapé pela escumalha :)

1 impressões:

S* disse...

As generalizações são complicadas e essa senhora enterrou-se.

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