terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sobre o Bullying

Foi com grande tristeza que fiquei a saber que numa escola EB2/3, bem próxima à escola que frequentei há cerca de catorze anos, uma criança de 15 anos suicidou-se. O motivo para tal ato foi o bullying que lhe era exercido pelos colegas.
Não conheço a criança, mas conheço pessoas que o conheciam. Aparentemente era uma criança muito dada a brincadeiras e disparates, típicos de adolescentes, em que nada previa este tipo de pensamentos suicidas.

Fui também, em adolescente, vítima de bullying. Fui e sou a primeira a admitir. Não tenho qualquer problema em dar a cara.

Em criança nunca tive qualquer problema, pois numa fase da nossa infância, os melhores alunos (como sempre fui) eram sempre alvo de inveja e de exemplo a seguir.
O problema é que todas as crianças crescem e como tal tornam-se parvas. Quem é sossegado e aplicado nos estudos é um cromo. Quem tem algo físico fora do normal é uma provável vítima de bullying. No meu caso é e sempre foi o  meu tipo de cabelo, que apesar de eu ser de raça caucasiana, tenho um cabelo tipicamente de raça africana.

Uma vez comentei com os meus pais o que se passava comigo na rua onde gostava de brincar nas noites de Verão, em que algumas das crianças faziam troça de mim. A reacção deles foi essencialmente "tens de ser tu a resolver problemas.Não vamos ser nós que vamos chamar a atenção de que não podem nem têm o direito de fazer isto e aquilo E eles estão a brincar contigo quando dizes que és feia. Olha que quem desdenha quer comprar! ". E foi assim que passei a tentar ignorar cada boca, cada humilhação que me faziam sentir. Jurei também que nunca mais iria contar aos meus pais. E cumpri. Cada risada que adolescentes (e muitas vezes de adultos que se riam das coisas parvas que os adolescentes me faziam) era como se me matassem aos pouquinhos. O meu desempenho nos estudos sofreu bastante. O meu refúgio estava na música das boysband, nos filmes do Di Caprio, no meu diário no qual escrevia religiosamente, nas revistas tipo Bravo e Super Pop onde lia algumas histórias parecidas com a minha.

Até que um dia, uns colegas da minha turma resolveram cuspir em cima de mim durante o tempo do recreio. E achei que tinha sido a ultima gota. Assim que pude, fui falar com a Directora de Turma, expus o meu caso, mostrei a minha humilhação e a minha angustia. Afinal, eu não tenho culpa de ter sido uma aluna sossegada e boa aluna. Nem tenho culpa de ter um cabelo diferente de todos os outros. O que é certo é que a Directora de Turma, minha professora de Francês, que sempre achei das professoras mais eficazes e eficientes que alguma vez tive, convocou uma reunião com os pais de alguns daqueles que me fizeram passar por aquela humilhação, pois alguns deles eram da minha própria turma. Um deles dividia a mesa comigo!
Foi praticamente remédio santo. Ainda ouvi muitos termos prejurativos contra mim e lá tentava ignorar.

Posto isso fui para o secundário, universidade e nunca mais, nunca mais me senti vítima de bullying.

Cada vez penso que muitos desses bullies ficaram pelo 9º ano apenas, nunca mais os vi, nem no portão de entrada do liceu, onde todos os rufias paravam para fumar os seus cigarros.
Cada vez mais penso que eu fui uma vencedora. Por muito que me tentassem deitar abaixo, de uma maneira global, sei que superei. Tirei um curso universitário. Estou noutro curso. Viajei para outros países, provei outros sabores. Não tenho nenhum amigo do tempo da infância, provavelmente porque todos eles se afastaram de mim quando eu era o alvo de chacota. Afinal quem gosta de ser amigo daqueles que são vítimas de troça? Mas conservo bons amigos do tempo do liceu e da universidade.
Muitos desses bullies muitos anos mais tarde enviaram-me convites para ser amiga deles nas redes sociais. Não os aceito, como é obvio, mas mando sempre a mensagem do "Quem és?". Afinal de contas não quero saber onde andam, nem as merdas que andam a fazer. Nem gosto sequer de pensar que eles podem ficar a saber por onde ando nem o que ando fazer.

 A minha mãe, professora no agrupamento de escolas que este aluno frequentava, há bocadinho comentou comigo que pelos vistos a comunidade escolar sabia do que passava, mas que pouco pode fazer nestes casos. Que se calhar, se ele tivesse dito aos pais, provavelmente isto não teria acontecido.
Aparentemente olhei-a com muito má cara, disse-me ela. Contei-lhe sobre aquela fatídica tarde no recreio, em que uns seis-sete marmanjos de 13-14 anos resolveram cuspir em cima de mim. Do quanto me senti humilhada por toda a gente se ter rido de mim. De que ninguém, mas ninguém me socorreu. E da iniciativa que tive em contar à Directora de turma, que foi bastante activa no meu caso. A minha mãe fez uma expressão de incredulidade e perguntou-me como é que nunca foi informada deste episódio. Então eu disse-lhe "Para quê? Para me voltarem a dizer que tenho que ser eu a lidar com os meus assuntos? Eu também pensava em me matar quando tinha a idade dele, sabias? E se calhar nunca tomei tamanha atitude porque no fundo eu sabia que eu poderia vir a ser alguém e eles não passarem da cepa torta. E olha, pelos vistos, não me enganei..."

No fundo eu sei que este drama que passei afectou imenso a minha personalidade. Tornei-me uma espécie de Robin dos Bosques para ajudar outras vítimas. Fez com que eu não gozasse a minha adolescência na sua plenitude. Tornei-me sem querer numa pessoa vingativa. Muito provavelmente o meu desequilíbrio alimentar deve-se muito a isso, pois a comida tornou-se no meu maior refúgio. E nessa altura ainda não sabia o que significava Bullying! Para mim era gozo e troça pura e dura.

O bullying é crime. Mas é mais criminoso quem fecha os olhos a este problema.
RIP Nelson Antunes. 



Alima

1 impressões:

S* disse...

Ai querida, ver essa notícia e a cara do menino foi uma agonia... mas ler a tua história causou-me arrepios. Ainda dizem que não existem crianças cruéis. :(

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